As geo-helmintoses
fazem parte de um grupo de doenças negligenciadas, que geram custos elevados à
economia de países em desenvolvimento. Afetam mais de 1 bilhão de pessoas e
prevalecem em 149 países.
Tais doenças
configuram um sério problema de saúde pública e estão atreladas à pobreza e ao
desenvolvimento socioeconômico, visto que a realidade das populações que vivem
sob essa situação é a de falta de saneamento básico e de tratamento adequado de
água e esgoto. Além disso, as condições de higiene são precárias, estando
relacionadas ainda à dificuldade de acesso à educação para a saúde e ao
favorecimento do contato com águas naturais contaminadas.
O
Departamento de Doenças Tropicais Negligenciadas da Organização Mundial de
Saúde (OMS) preconiza, como uma questão de ética global, a elaboração de
estratégia de combate às geo-helmintoses e as demais doenças negligenciadas, porquanto
existe quimioterapia preventiva para essas patologias. Esse departamento ressalta
também a importância de investimento em drogas para prevenção e não só para o
tratamento, pois o atendimento a demanda espontânea é insuficiente para a
eliminação e redução de carga parasitária, devendo ser analisada a necessidade
de intervenções coletivas.
O negligenciamento
das doenças parasitárias gera sofrimento, morte e dificulta o desenvolvimento
financeiro de um país. Esse fato pode ser explicado pela própria fisiopatogenia
das parasitoses. No caso de crianças de 5 a 14 anos, consideradas pertencentes
ao grupo de risco, o desenvolvimento físico e cognitivo sofre um grande impacto
negativo devido às infecções. O crescimento físico intenso e o rápido
metabolismo fazem com que as necessidades nutricionais dessas crianças sejam
maiores, tornando-as susceptíveis quando em situação de competição de
nutrientes com parasitas.
O Brasil, em
2011, definiu as endemias para ações estratégicas de eliminação e de controle,
assumindo um compromisso público de diminuição de agravos e da carga
parasitária. Com isso, o Ministério da Saúde elaborou um Plano Integrado de
Ações Estratégicas de controle de geo-helmintoses e também de eliminação da
hanseníase, filariose, esquistossomose, oncocercoce e tracoma.
Para se ter
um quadro mais preciso sobre a esquistossomose e as geo-helmintoses, no âmbito
nacional, foi realizado um inquérito, através de um estudo de corte
transversal. Como resultado, observou-se maiores taxas positivas nas regiões
Norte e Nordeste, para presença de ovos de geo-helmintos em amostras de fezes.
Entre os
geo-helmintos, os casos de Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura,
e os ancilostomideos predominam, e serão os parasitas discutidos
adiante.
COVID e o controle das geo-helmintoses
Vale ressaltar um ponto importante para o ano
de 2020: o plano de enfrentamento das doenças provocadas por geo-helminto e das
demais doenças negligenciadas sofreu impacto devido a pandemia do novo
Coronavírus. A interferência acarretou no desabastecimento de produtos de saúde,
devido a necessidade de desenvolvimento e produção de teste para diagnóstico de
COVID-19, e, com isso, vários exames para doenças tropicais foram suspensos.
Há ainda
previsão de maiores impactos para os próximos anos, especialmente na área de
pesquisa sobre as doenças negligenciadas, devido à redução de financiamento, de
recursos humanos, de ensaios clínicos e de implementação no campo.
Ainda, por
conta do Sars-Cov-2, a OMS recomendou a suspensão de busca ativa de casos das
doenças negligenciadas, que inclui as geo-helmintoses, da triagem em massa e de
atividades de tratamento, até o momento em que a pandemia esteja sob controle.
Isso pode gerar em longo prazo o aumento da carga parasitária.
Conceituando as geo-helmintoses
Geo-hemiltos
são vermes nematoides que necessitam, obrigatoriamente, passar pelo solo para
completar seu ciclo evolutivo. Sendo esse o fator relacionado a falta de
saneamento básico, que explica a grande vulnerabilidade das populações mais
pobres, as quais possuem baixo conhecimento sobre práticas higiênicas e são
expostas diariamente à parasitas pela ausência de tratamento de esgoto e de
água para consumo.
Os ovos são
depositados contaminando o solo através das fezes de indivíduos infectados, e
após o tempo de desenvolvimento embrionário, tornam-se infectante. A infecção
pode ocorrer de forma passiva, pela ingestão acidental dos ovos larvados, como
no caso das espécies Ascaris lumbricoides e Trichuris trichiura.
Ou ativa, pela penetração da larva na pele, como no caso dos ancilostomídeos.
A forma
evolutiva desses parasitas vai do ovo ao verme adulto, passando pelas fases
larvais L1, L2, L3, L4 e L5. A larva do estádio 3 é a forma em que o verme
adquire capacidade infectante.
Ascaris
lumbricoides

Trichuris
trichiura

Ancilostomídeos


Método diagnóstico e tratamento
A patologia
causada pelo parasito Ascaris lumbricoides é de difícil diagnóstico clínico,
devido apresentar-se, na maioria das vezes, assintomática. Em relação ao exame
laboratorial, o método de concentração Kato-Katz é o exame recomendado pela
OMS, o qual permite a quantificação dos ovos e estima o grau de parasitismo dos
portadores. Vale ressaltar que, na fase precoce da infecção, devido a passagem
do parasito pelo ciclo pulmonar, os ovos ainda não estarão presentes nas fezes.
Estes só aparecem cerca de 40 dias após a infecção. Além disso, é preciso que a
infecção se dê por parasitas machos e fêmeas, para a produção de ovos férteis,
caso contrário, não serão encontrados ovos nas fezes ou esses ovos serão
considerados inférteis.
Os pacientes
infectados por Trichuris trichiura apresentam-se assintomáticos ou têm
sintomatologia inespecífica, o que impede seu diagnóstico clínico. O método
diagnóstico utilizado para esse caso também é o de Kato-Katz.
Em relação
aos ancilostomídeos, o diagnóstico clínico pode ser feito a partir dos sintomas
cutâneos, pulmonares e intestinais, atrelado ou não à quadros de anemia e
eosinofilia. O diagnóstico laboratorial
pode se dar pelo método de Kato-Katz (observação em curto prazo) e método de
Willis, de flutuação espontânea, sendo este último menos utilizado.
Para
tratamento e controle das geo-helmitoses, a OMS recomenda a utilização do
albendazol e do mebendazol. Esses medicamentos são de amplo espectro
antiparasitário e possuem baixa absorção pelo hospedeiro e alta absorção pelos
parasitas, pelo aumento da concentração na luz intestinal.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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