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Geo-helmintos de relevância epidemiológica no Brasil | Colunistas

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Maureen Soares

6 minhá 19 dias

As geo-helmintoses fazem parte de um grupo de doenças negligenciadas, que geram custos elevados à economia de países em desenvolvimento. Afetam mais de 1 bilhão de pessoas e prevalecem em 149 países.

Tais doenças configuram um sério problema de saúde pública e estão atreladas à pobreza e ao desenvolvimento socioeconômico, visto que a realidade das populações que vivem sob essa situação é a de falta de saneamento básico e de tratamento adequado de água e esgoto. Além disso, as condições de higiene são precárias, estando relacionadas ainda à dificuldade de acesso à educação para a saúde e ao favorecimento do contato com águas naturais contaminadas.

O Departamento de Doenças Tropicais Negligenciadas da Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza, como uma questão de ética global, a elaboração de estratégia de combate às geo-helmintoses e as demais doenças negligenciadas, porquanto existe quimioterapia preventiva para essas patologias. Esse departamento ressalta também a importância de investimento em drogas para prevenção e não só para o tratamento, pois o atendimento a demanda espontânea é insuficiente para a eliminação e redução de carga parasitária, devendo ser analisada a necessidade de intervenções coletivas.

O negligenciamento das doenças parasitárias gera sofrimento, morte e dificulta o desenvolvimento financeiro de um país. Esse fato pode ser explicado pela própria fisiopatogenia das parasitoses. No caso de crianças de 5 a 14 anos, consideradas pertencentes ao grupo de risco, o desenvolvimento físico e cognitivo sofre um grande impacto negativo devido às infecções. O crescimento físico intenso e o rápido metabolismo fazem com que as necessidades nutricionais dessas crianças sejam maiores, tornando-as susceptíveis quando em situação de competição de nutrientes com parasitas. 

O Brasil, em 2011, definiu as endemias para ações estratégicas de eliminação e de controle, assumindo um compromisso público de diminuição de agravos e da carga parasitária. Com isso, o Ministério da Saúde elaborou um Plano Integrado de Ações Estratégicas de controle de geo-helmintoses e também de eliminação da hanseníase, filariose, esquistossomose, oncocercoce e tracoma.

Para se ter um quadro mais preciso sobre a esquistossomose e as geo-helmintoses, no âmbito nacional, foi realizado um inquérito, através de um estudo de corte transversal. Como resultado, observou-se maiores taxas positivas nas regiões Norte e Nordeste, para presença de ovos de geo-helmintos em amostras de fezes.

Entre os geo-helmintos, os casos de Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura, e os ancilostomideos predominam, e serão os parasitas discutidos adiante.

COVID e o controle das geo-helmintoses

Vale ressaltar um ponto importante para o ano de 2020: o plano de enfrentamento das doenças provocadas por geo-helminto e das demais doenças negligenciadas sofreu impacto devido a pandemia do novo Coronavírus. A interferência acarretou no desabastecimento de produtos de saúde, devido a necessidade de desenvolvimento e produção de teste para diagnóstico de COVID-19, e, com isso, vários exames para doenças tropicais foram suspensos.

Há ainda previsão de maiores impactos para os próximos anos, especialmente na área de pesquisa sobre as doenças negligenciadas, devido à redução de financiamento, de recursos humanos, de ensaios clínicos e de implementação no campo.

Ainda, por conta do Sars-Cov-2, a OMS recomendou a suspensão de busca ativa de casos das doenças negligenciadas, que inclui as geo-helmintoses, da triagem em massa e de atividades de tratamento, até o momento em que a pandemia esteja sob controle. Isso pode gerar em longo prazo o aumento da carga parasitária.

Conceituando as geo-helmintoses

Geo-hemiltos são vermes nematoides que necessitam, obrigatoriamente, passar pelo solo para completar seu ciclo evolutivo. Sendo esse o fator relacionado a falta de saneamento básico, que explica a grande vulnerabilidade das populações mais pobres, as quais possuem baixo conhecimento sobre práticas higiênicas e são expostas diariamente à parasitas pela ausência de tratamento de esgoto e de água para consumo.

Os ovos são depositados contaminando o solo através das fezes de indivíduos infectados, e após o tempo de desenvolvimento embrionário, tornam-se infectante. A infecção pode ocorrer de forma passiva, pela ingestão acidental dos ovos larvados, como no caso das espécies Ascaris lumbricoides e Trichuris trichiura. Ou ativa, pela penetração da larva na pele, como no caso dos ancilostomídeos.

A forma evolutiva desses parasitas vai do ovo ao verme adulto, passando pelas fases larvais L1, L2, L3, L4 e L5. A larva do estádio 3 é a forma em que o verme adquire capacidade infectante.

Ascaris lumbricoides

Trichuris trichiura

Ancilostomídeos

Método diagnóstico e tratamento

A patologia causada pelo parasito Ascaris lumbricoides é de difícil diagnóstico clínico, devido apresentar-se, na maioria das vezes, assintomática. Em relação ao exame laboratorial, o método de concentração Kato-Katz é o exame recomendado pela OMS, o qual permite a quantificação dos ovos e estima o grau de parasitismo dos portadores. Vale ressaltar que, na fase precoce da infecção, devido a passagem do parasito pelo ciclo pulmonar, os ovos ainda não estarão presentes nas fezes. Estes só aparecem cerca de 40 dias após a infecção. Além disso, é preciso que a infecção se dê por parasitas machos e fêmeas, para a produção de ovos férteis, caso contrário, não serão encontrados ovos nas fezes ou esses ovos serão considerados inférteis.

Os pacientes infectados por Trichuris trichiura apresentam-se assintomáticos ou têm sintomatologia inespecífica, o que impede seu diagnóstico clínico. O método diagnóstico utilizado para esse caso também é o de Kato-Katz.

Em relação aos ancilostomídeos, o diagnóstico clínico pode ser feito a partir dos sintomas cutâneos, pulmonares e intestinais, atrelado ou não à quadros de anemia e eosinofilia.  O diagnóstico laboratorial pode se dar pelo método de Kato-Katz (observação em curto prazo) e método de Willis, de flutuação espontânea, sendo este último menos utilizado.

Para tratamento e controle das geo-helmitoses, a OMS recomenda a utilização do albendazol e do mebendazol. Esses medicamentos são de amplo espectro antiparasitário e possuem baixa absorção pelo hospedeiro e alta absorção pelos parasitas, pelo aumento da concentração na luz intestinal.

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