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INCOMPATIBILIDADE ANTI-RH: O QUE É, COMO INVESTIGAR E TRATAR. | Colunistas

INCOMPATIBILIDADE ANTI-RH: O QUE É, COMO INVESTIGAR E TRATAR. | Colunistas

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Marcel Aureo

6 minhá 124 dias

Introdução

Dado o nome da afecção, a incompatibilidade RH se apresenta pela divergência entre os tipos sanguíneos da mãe e do feto, mais especificamente relacionados à presença do fator RH no sangue do concepto, de origem paterna e falta deste no sangue da genitora. Com essa incompatibilidade, os anticorpos maternos podem “combater” os antígenos fetais, causando a Doença Hemolítica do Recém Nascido, podendo evoluir com anemia fetal por hemólise, hidropsia ou morte fetal. Todavia, para que haja a interação antígeno-anticorpo, deve haver a ativação do sistema imune, ou seja, é necessário mais de um contato para que haja sensibilidade imune, criação de anticorpos e a incompatibilidade seja um problema. Esse contato pode se dar por uma gravidez anterior, que pode ter evoluído com parto ou abortamento, ou uma hemotransfusão com plasma não compatível.

Atenção primária

Baseado nas informações acima, evidencia-se a importância de um pré-natal de qualidade, com a solicitação de exames laboratoriais na primeira consulta, incluindo o principal para o assunto citado, que é a tipagem sanguínea. Diante de uma gestante RH negativo, é necessário convocar o parceiro para testagem, além de investigar transfusões anteriores e histórico sexual. Além disso, é importante explicar os significados desses exames e as prováveis consequências para o feto. No entanto, deve-se tranquilizar a família ao explicar sobre a administração de imunoglobulina e a sua efetividade.

Uma gestante com RH negativo deve ser submetida ao teste de coombs, independente do tipo sanguíneo do parceiro, uma vez que ela pode ter sido sensibilizada anteriormente por transfusões ou por gestações com parceiros diferentes do atual. As mulheres que se apresentarem com coombs indireto positivo devem ser encaminhadas para acompanhamento no pré-natal de alto risco.

Teste de Coombs

O teste visa detectar anticorpos ligados aos eritrócitos fetais (coombs direto) ou no soro materno (coombs indireto). Em geral, o teste é realizado com uma suspensão com 5% de eritrócitos em soro fisiológico, sendo adicionado o soro de coombs (anti-Ig humana) e aguarda-se, caso o resultado seja positivo, o surgimento de aglutinação.

  • O teste de coombs indireto (da mãe) deve ser solicitado mensalmente, caso o primeiro teste realizado tenha o resultado negativo. Caso persista negativo, a conduta será a administração de imunoglobulina anti-RH, conforme será comentado a seguir. Caso o coombs indireto seja positivo, como anteriormente citado, a gestante deve ser encaminhada ao pré-natal especializado, para seguimento do fluxo comentado no tópico 7 deste texto, sobre anemia fetal.

Epidemiologia

Estima-se que, no Brasil, cerca de 10% das gestantes não possuem o fator RH em seu sangue, tornando 7% dos nascimentos com incompatibilidade RH (Baiochi et al. 2007). É considerável que a incompatibilidade do sistema RH seja responsável por 80 a 90% dos casos de Doença Hemolítica Perinatal.

Fisiopatologia

Na primeira gestação, as hemácias fetais antígenos positivas passam para a circulação, havendo sensibilização do sangue materno. Já na segunda gestação, a passagem de anticorpos maternos para a circulação fetal causará a destruição das hemácias antígenos positivas, gerando um quadro anêmico. Essa transferência materno-fetal de IgG, de forma geral, pela placenta, tem como objetivo trazer a imunidade passiva para o feto, ou seja, é uma consequência ruim de um evento comum e fisiológico. O feto inicia a eritropoese compensatória às custas da medula óssea, do fígado e do baço, liberando na circulação eritroblastos jovens, até cursar com hepatomegalia e esplenomegalia.

Imunoglobulina anti-RH

            É importante salientar que apenas mulheres RH negativo e com coombs indireto negativo são elegíveis para receber a dose da imunoglobulina, uma vez que ainda não foram sensibilizadas. A administração deve ser nas primeiras 72h após o parto ou abortamento, de um feto com RH positivo e coombs direto negativo. Caso a gestação evolua com abortamento ou tenha intercorrências hemorrágicas, também há indicação de imunoglobulina.

Dosagem: Deve-se administrar, inicialmente, 300 microgramas. Se houver hemorragias gestacionais acima de 30 mL, deve-se acrescentar 300 microgramas para cada 30 mL de sangue.

Anemia fetal

Caso o coombs indireto tenha resultado positivo, deve-se avaliar se houve feto anterior com acometimento. Se a resposta for negativa, deve-se avaliar a titulação do coombs indireto (CI) da seguinte forma:

  • CI menor que 1:16, deve ser avaliado mensalmente até 24 semanas. Após esse período, avaliar quinzenalmente até 36 semanas e indução do parto com 37-38 semanas.
  • CI maior que 1:16, deve-se avaliar o pico de velocidade sistólico (PVS) da artéria cerebral média semanalmente a partir das 18 a 20 semanas. Caso o PVS seja menor que 1.5, a resolução da gestação dar-se-á com 37 a 38 semanas, porém se o PVS for maior que 1.5, a resolução pode ser feita a partir de 35 semanas, no entanto, se esse valor for obtido antes desse período, deve-se proceder com a cordocentese e avaliar se hematócrito está com níveis maiores que 30%. Se não, realizar transfusão intrauterina; se sim, realizar cordocentese seriada, a cada 1 a 2 semanas.

Se houver feto anterior acometido positivo, é desnecessário a titulação do CI e deve-se seguir com o fluxo a partir da avaliação do PVS.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

  1. EBSERH; MEAC. PREVENÇÃO DE ISOIMUNIZAÇÃO/ANEMIA FETAL. [S. l.], 15 abr. 2020. Disponível em: http://www2.ebserh.gov.br/documents/214336/5166523/PRO.MED-OBS.038+-+PREVEN%C3%87%C3%83O+DE+ISOIMUNIZA%C3%87%C3%83O-ANEMIA+FETAL.pdf. Acesso em: 8 dez. 2020.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco / Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2012. 318 p.: il. – (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica, n° 32)
  3. BORTOLETO, Érika Paresqui. DOENÇA HEMOLÍTICA PERINATAL. Academia de Ciências e Tecnologia, [s. l.], 2012. Disponível em: ciencianews.com.br/arquivos/ACET/IMAGENS/biblioteca-digital/imunohematologia/28-Doenca-hemolitica-perinatal.pdf. Acesso em: 8 dez. 2020.
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