Ciclos da Medicina

Intoxicação por chumbo | Colunistas

Intoxicação por chumbo | Colunistas

Compartilhar

Gabriel Moreira Fonseca

7 min há 24 dias

Introdução

O chumbo (Pb) é um metal pesado, o que significa que ele tem baixa energia de ionização e uma densidade superior à média de outros elementos da tabela periódica. Além disso, esses metais pesados podem passar pelo processo de bioacumulação no organismo.

A intoxicação por chumbo ocorre principalmente em trabalhadores industriais que trabalham com baterias elétricas ou materiais de construção. Devido a políticas públicas, ocorreu diminuição gradual do uso de chumbo na gasolina, tintas e soldas, mas deve-se estar atento as principais fontes de contaminação, como uso caseiro de baterias de automóvel e encanamentos.

Fisiopatologia

O chumbo tem meia vida de 30 dias em determinados tecidos e sua absorção pode ocorrer pela pele, inalação ou ingestão e a eliminação ocorre principalmente pela via urinária. Na corrente sanguínea ele se associa com os eritrócitos, porém no plasma sua associação ocorre principalmente com a albumina e posteriormente pode ocorrer deposição nos ossos.

As alterações mais relevantes ocorrem em nível hematológico, em que podemos encontrar uma anemia hipocrômica e microcítica com pontilhados basofílicos. O chumbo é um cátion divalente e tem forte interação com os grupos sulfidril das proteínas.  

Devido a sua alta afinidade com o eritrócito ele pode atuar modificando a sua membrana por meio de danos oxidativos, o que faz com eles tenham um menor tempo de vida. Além do mais, ele pode afetar a fosforilação oxidativa das mitocôndrias, entrando nessas organelas como substrato do transportador de cálcio.

A eritropoetina é um hormônio glicoproteico produzido nos rins e que tem grande influência no crescimento e desenvolvimento das hemácias. Devido a atuação inibitória do chumbo nos rins, pode ocorrer diminuição desse fator de crescimento.

Na intoxicação ocorre inibição de enzimas do grupo heme: ácido aminoleulínico-desidratase (ALAD), porfirinogênio e ferroquelatase. Além disso, ocorrem alterações nas cadeias globínicas α e β.

Figura 2: Interferência do chumbo na biossíntese do grupo heme.  (KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, 2012)

A ferroquelatase é uma enzima codificada pelo gene FECH e que participa da conversão protoporfirina IX no heme B, que tem uma função importante no transporte de oxigênio na hemoglobina. Quando inibida, a ferroquelatase faz com que no lugar do ferro junte-se o zinco à protoporfirina IX, formando a Zinco Protoporfirina, por esse motivo a intoxicação por chumbo pode ser avaliada através de dosagem da concentração de zinco protoporfirina em sangue total (ZPP).

Sinais e Sintomas

No trato gastrointestinal o chumbo pode causar alterações na musculatura lisa podendo se manifestar através de espasmos intestinais que causam cólica, constipação, náuseas e vômitos. Esse mecanismo ocorre por diminuição da acetilcolina e da bomba de sódio e potássio.

No sistema renal pode ocorrer proteinúria e cilindrúria, além de nefrite por um processo de disfunção tubular, podendo ocorrer também fibrose intersticial.

No sistema nervoso pode ocorrer aumento do ácido gama aminobutírico (GABA) e diminuição da condução nervosa, por interferência na formação da mielina que pode ser manifestada através de uma neuropatia periférica, pela desmielinização segmental e a diminuição da célula de Schwann. Esse fator pode estar associado com o pé e pulsos caídos, característica observada em alguns pacientes intoxicados com chumbo. Ademais, podem ocorrer alterações na síntese de nucleotídeos piridínicos (O chumbo inibe a pirimidina 5 nucleotidase)e no metabolismo do triptofano.

Outro fato relevante é que, por conseguir mimetizar o cálcio, o chumbo consegue afetar a entrada de cálcio nas terminações nervosas e afetar o transporte membranar dessa substância, além de interferir nos receptores que tem associação com ele.

As gestantes devem ter cuidado com a exposição ao chumbo, visto que ele pode ser considerado um teratogênico, sendo que na sua forma inorgânica ele é capaz atravessar a barreira placentária, e acumular-se em tecidos fetais. O chumbo pode ser excretado no leite e o bebê pode ter sintomas como perda de peso, diarreia e inquietação. Além disso, estudos sugerem que o chumbo parece aumentar o risco de nascimento prematuro.

No sistema neuromuscular, devido ao fenômeno da desmielinizacão e por alterações no metabolismo do neurotransmissor acetilcolina e em catecolaminas pode ocorrer fadiga e mialgia.

Figura 1: No exame físico podemos encontrar a chamada “linha de Burton” na borda gengival (Google Images)

No sistema hematológico, o paciente pode desenvolver uma anemia microcítica e hipocrômica, além do aparecimento de pontilhados basófilos. Pode ocorrer aumento de porfirinas e do ácido aminolevulínio (ALA). Além dos fenômenos já supracitados, como inibição de enzimas do grupo heme, com enfoque para o ácido aminoleulínico-desidratase (ALAD).

No sistema hepático pode ocorrer em casos graves o desenvolvimento de hepatite devido a redução da concentração hepática do citocromo P450.

No sistema cardiovascular, o chumbo pode inativar o óxido nítrico e a guanosina monofosfato cíclico (GMPc) e modificar o sistema renina-angiotensina, levando a modificações na pressão arterial.

No sistema esquelético é importante saber que o chumbo é capaz de mimetizar com o cálcio na fisiologia gastrintestinal e leva a diminuição da concentração do hormônio da vitamina D circulante. Essa mimetização pode afetar os osteoblastos e osteoclastos, podendo estar associado com osteoporose.

Tratamento

Podem ser necessárias transfusões sanguíneas em decorrência da anemia. Em caso de pacientes que apresentem convulsões podemos utilizar benzodiazepínicos. O tratamento é feito pela terapia quelante. Pode-se administrar ácido meso 2,3-dimercaptosuccínico (DMSA).

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências Bibliográficas

KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, J. B. Capítulo 11: Respostas Tóxicas do Sangue Fundamentos em Toxicologia de Casarett e Doull (Lange). 2 ed. Porto A legre: McGraw-Hill, 2012.

KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, J. B. Capítulo 23: Efeitos Tóxicos dos Metais Fundamentos em Toxicologia de Casarett e Doull (Lange). 2 ed. Porto A legre: McGraw-Hill, 2012.

NEDER, A. V. F.; COTTA, T. A. R. G. Redução dos riscos de exposição ambiental e ocupacional ao chumbo. Projeto MMA/ OPAS. Relatório da 1ª etapa. Brasília, maio 1999

MONTANO, Marco Aurélio E. Avaliação do estresse oxidativo na intoxicação por chumbo e seu efeito em saccharomyces cerevisiae. Caxias do Sul: UCS, 2001. Dissertação (Mestrado em Biotecnologia), Programa de Mestrado em Biotecnologia, Universidade de Caxias do Sul, 2001.

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.