Anatomia de órgãos e sistemas

Introdução à epilepsia e às crises epilépticas | Colunistas

Introdução à epilepsia e às crises epilépticas | Colunistas

Compartilhar

Gabriel Salvestro

10 minhá 22 dias

            A epilepsia como condição clínica e as crises epilépticas isoladas e não provocadas são entidades que preocupam os pacientes, bem como limitam diversos aspectos de suas vidas. No presente artigo serão analisadas as definições para tais quadros clínicos, como são diagnosticados e classificados, quais seus sinais e sintomas e em quais pontos diferem-se de condições semelhantes. Ademais, serão explorados seu tratamento e manejo, bem como sua prevalência nas populações e os impactos biopsicossociais a elas relacionados.

Definições diagnósticas e classificações gerais

            Por definição, nem todo paciente a relatar crises epilépticas pode ser considerado portador de epilepsia como entidade clínica; entretanto, todos os pacientes que se enquadram nesta condição devem relatar, ao menos uma vez em suas vidas, uma crise epiléptica. Para a compreensão desta afirmativa, a International League Against Epilepsy (ILAE) determinou que, para que seja confirmado o diagnóstico clínico de epilepsia, são necessárias duas ou mais crises epilépticas não provocadas em um intervalo de tempo superior a 24 horas, ou ainda apenas uma crise não provocada acompanhada de uma chance de 60%, ou mais para desenvolvimento de crises subsequentes, mensurada através de exames de imagem, a exemplo de tomografias e ressonâncias de crânio, do eletroencefalograma (EEG) e de condições associadas ao pior prognóstico da epilepsia, tais quais crises durante o sono.

            Diante disso, define-se por crises epilépticas, sejam elas isoladas ou componentes da epilepsia, os fenômenos neuropatológicos decorrentes da hiperatividade neuronal síncrona e exacerbada, os quais resultam em anormalidades motoras, sensoriais, cognitivas e/ou autonômicas. Sendo a presença de uma crise condição sine qua non para diagnóstico clínico da epilepsia, apenas alterações eletroencefalográficas não são capazes de enquadrar pacientes como epilépticos.

            As crises epilépticas são classificadas quanto ao seu início em focais (outrora denominadas parciais) ou generalizadas (outrora denominadas completas). Nas crises focais, há participação de circuitos neurais específicos localizados em apenas um dos hemisférios cerebrais, enquanto, nas generalizadas, diversos circuitos em ambos os hemisférios são hiperativados. Não raro, crises focais evoluem para crises generalizadas. As crises epilépticas podem também ser classificadas quanto à capacidade de conservação ou perda de consciência durante as crises como perceptivas ou disperceptivas, respectivamente. Crises focais podem se apresentar como perceptivas, outrora denominadas simples, ou disperceptivas, outrora denominadas complexas, enquanto as crises generalizadas são sempre disperceptivas. Não raro, crises perceptivas evoluem para crises disperceptivas.

Sinais e sintomas

         Crises epilépticas isoladas ou como componentes da epilepsia podem apresentar manifestações motoras, sensoriais, cognitivas e/ou autonômicas. Muitas vezes o paciente apresenta alterações iniciais numa destas modalidades, alterando seu padrão de crise durante o episódio. Alterações motoras incluem movimentos anormais, tais quais extensões ou contrações patológicas (movimentos tônicos), abalos rítmicos (movimentos tônicos), atonia, tremores de extremidades ou combinações destes, com destaque para manifestações tônico-clônicas. Alterações sensoriais, por sua vez, compreendem parestesias, formigamentos, escotomas, zumbidos, anopsias, cacosmias, dor, dentre outros. Alterações cognitivas incluem confusão mental, perda de consciência, amnésia, dificuldade de localização no tempo e no espaço, entre outros. Alterações autonômicas, por fim, compreendem náuseas vômitos, midríase, vasoespasmo, diarreia, sialorréia, incontinência fecal e/ou miccional, entre outros.

            Comumente, pacientes que estão prestes a ser acometidos por crises focais relatam mal-estar geral, o que é denominado aura. Esta não está presente em crises epilépticas generalizadas, de instalação súbita e ligada à amnésia pós-ictal. A conservação da consciência durante uma crise pode ser observada concomitante ao seu desenrolar por meio do cumprimento de ordens verbais pelo paciente em crise, ou após esta por meio do relato do paciente. Muitas vezes, a constatação da consciência durante a crise é comprometida por alterações motoras que impedem o paciente de cumprir ordens verbais proferidas pelo médico ou acompanhante. Vale lembrar que, na presença de desvios oculares durante os episódios, estes indicam de forma contralateral em qual dos hemisférios iniciou-se o foco da crise em questão.

Diagnósticos diferenciais

            Diversas condições podem se confundir com crises epilépticas não provocadas isoladas ou componentes da epilepsia, com destaque para aquelas de causa vascular, como migrâneas, AVCs e AITs; de causas motoras, como tiques e coreias, associadas ao sono; como pânico noturno e sonambulismo; e de causas neuropsiquiátricas, como demências e esquizofrenias. Vale lembrar que, em relação aos AVCs, crises epilépticas com instalação em até uma semana após tais eventos não são consideradas como não provocadas, mas como uma consequência das alterações cerebrovasculares em questão. Apenas após a primeira semana seguinte ao AVC, crises aparentemente não provocadas serão consideradas como tais.

Crises epilépticas provocadas são aquelas que resultam de eventos externos, tais quais febre intensa, abstinência de drogas ou álcool para indivíduos adictos, intoxicação induzida por fármacos, drogas ilícitas e/ou peçonha, e distúrbios hidroeletrolíticos graves. Estes eventos reduzem o chamado valor limiar convulsivo neuronal, diferença de potencial de membrana necessária para que se desenvolvam descargas nervosas sincronizadas e exacerbadas, caracterizando a crise. Em indivíduos epilépticos, tal limiar é anormalmente baixo, de forma que tais eventos não são necessários para o desencadear de uma crise. Nestes pacientes, estímulos corriqueiros, tais quais os luminosos, já são suficientes para tal. Quando secundárias a patologias conhecidas, as crises são consideradas sintomáticas. É o que ocorre diante de neuro infecções e traumatismos cranioencefálicos graves. Antes dos 12 meses de idade, crises epilépticas febris, sobretudo aquelas que cursam com sinais meníngeos (Brudzinski e Kernig), petequeias e febre de origem indeterminada demandam punção liquórica para afastamento da possibilidade de meningites.

Tratamento e manejo

As crises epilépticas, de modo geral, possuem caráter autolimitado, com duração máxima de cinco minutos; entretanto, se a duração dos episódios excede este período, as chances de autolimitação reduzem-se drasticamente, demandando intervenção farmacológica em diversos graus, a depender da resposta terapêutica apresentadas. Nos cinco minutos iniciais da crise, o paciente deve ser colocado em decúbito de segurança: preferencialmente a nível do solo, sem objetos rígidos e pontiagudos por perto, com um travesseiro para proteger sua cabeça e em decúbito lateral para que as secreções por ele eliminadas não sejam broncoaspiradas, obstruindo as vias aéreas. A inserção de qualquer instrumento, ou mesmo das mãos, na cavidade oral do paciente é absolutamente contraindicada, dado que está intimamente ligada a lesões odontológicas, linguais e dos dedos inseridos. Pacientes que apresentam histórico de crises epilépticas febris não devem hesitar em utilizar antitérmicos de forma profilática, sendo a doença de base, nestes casos, o foco do tratamento.

Assim que diagnosticada a epilepsia, está autorizada a administração de antiepilépticos de forma profilática. A primeira linha de escolha para tratamento de crises epilépticas focais costuma incluir carbamazepina e lamotrigina. Como efeitos adversos destes fármacos, encontram-se os distúrbios do sódio e o aumento da toxicidade do ácido valpróico quando este é utilizado em concomitância. O ácido valpróico é responsável por anemias megaloblásticas, dado que suprime a ação do folato na hematopoiese, além do que, é aquele com maior capacidade para má formação fetal quando aplicado às gestantes e mulheres em idade fértil. Para estas pacientes, a primeira escolha é o topiramato, de reduzido potencial teratogênico se comparado aos demais antiepilépticos. O ácido valpróico também está ligado à baixa adesão ao tratamento entre o público feminino, uma vez que este costuma se queixar de efeitos adversos ligados ao ganho de peso, aparecimento de acne e hirsutismo. Nenhum antiepiléptico deve ter seu uso interrompido de forma abrupta, dado que desta forma, novas crises podem ser iniciadas.

Além dos tratamentos farmacológicos, podem ser utilizadas terapias complementares que não apresentam potencial para substituir abordagens medicamentosas, mas podem reduzir as doses e o número de fármacos utilizados nesta. Estes tratamentos incluem dietas cetogênicas para epilepsias fármaco-resistentes em razão da acidificação sanguínea, cirurgias como a calosotomia, a qual impede que crises focais tornem-se generalizadas, e utilização do extrato de canabidiol (CBD). A não apresentação de crises epilépticas por 10 anos, sendo 5 deles sem a utilização de antiepilépticos caracteriza a resolução da epilepsia.

Implicações psicossociais e epidemiologia

Acredita-se que 1 em cada 10 indivíduos pode apresentar ao menos uma vez durante sua vida uma crise epiléptica. Já em relação à epilepsia, esta mostra-se presente em 6 ou 7 indivíduos a cada mil pessoas no mundo, prevalência esta maximizada a 13 a 15 indivíduos a cada mil habitantes de países em desenvolvimento, dadas as condições de higiene desfavoráveis, índices de violência elevados e acesso à saúde dificultoso nestas regiões.

Pacientes portadores de epilepsia são obrigados a se adaptar a um novo estilo de vida, sobretudo quando não portadores de síndromes idade-dependentes. O desencadear das crises frente a estímulos luminosos e sonoros impede que tais indivíduos dirijam com segurança, frequentem determinados ambientes e exerçam determinadas profissões. Tais limitações, somadas ao medo do desencadear das crises e do julgamento alheio quando estas ocorrem em público, revelam impactos significativamente negativos na vida destes pacientes, com prejuízos financeiros, psicológicos e sociais. Alguns grupos, como idosos e gestantes, estão ainda sujeitos ao risco de queda e suas implicações durante as crises, o que torna mais urgente a implementação de tratamentos tradicionais e complementares com o intuito de minimizar de forma efetiva e eficaz tais impactos na realidade destas pessoas.

Conclusão

            A epilepsia, como condição clínica, as crises epilépticas isoladas e não provocadas e as crises epilépticas provocadas e sintomáticas devem ser bem diferenciadas pelos profissionais de saúde, uma vez que o tratamento farmacológico e não farmacológico, bem como o manejo durante as crises, costuma diferir entre tais situações. O atendimento destes pacientes, quando embasado em sólidos conhecimentos acerca do tema, permite que os profissionais de saúde promovam significativas mudanças na qualidade de vida de indivíduos epilépticos e não epilépticos, oferecendo a eles diversas opções para lidar com a condição que apresentam para que juntos selecionem a mais adequada à realidade do paciente.

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências:

 MANUAL MSD. Transtornos convulsivos. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/dist%C3%BArbios neurol%C3%B3gicos/transtornos-convulsivos/transtornos-convulsivos. Acesso em: 14 mar. 202

Fisher RS, Acevedo C, Arzimanoglou A, Bogacz A, Cross JH, Elger CE, et al. Relato oficial da ILAE: Uma definição prática de epilepsia Robert. Epilepsia. 2014;55(4):475–82.

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.
3
EM ALTA
EM ALTA
Epilepsia