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Lombalgia na infância. É possível? | Colunistas

Lombalgia na infância. É possível? | Colunistas

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1. Em tempos de pandemia, como anda a saúde das crianças?

Frente às consequências da pandemia do COVID-19 notou-se que as crianças apresentaram demasiada ansiedade durante o isolamento social. Com as aulas suspensas e a ordem do “fique em casa”, cresceu o tempo que os menores, e não somente eles, passam em frente à televisão, computador e outras telas. O afeto negativo foi intimamente correlacionado com o tempo de tela de lazer no lugar do lazer e o sedentarismo¹. Tal fato é inversamente proporcional às crianças que praticam mais atividades físicas e têm um tempo de tela limitado, visto que estas apresentam menos sintomas de ansiedade.

A lombalgia é caracterizada por uma dor na região lombar e é um dos principais motivos de consultas médicas. Essa patologia tem uma prevalência significativa entre 45 – 60 anos, sendo mais recidivante em idades mais avançadas. A anatomia nos permite dizer que existem inúmeras estruturas envolvidas no início de uma dor lombar, sendo que cada uma delas pode ter sua própria etiologia e fisiopatologia, no entanto, sabemos que em até 80% dos casos a etiologia exata de uma lombalgia aguda não pode ser definida. No geral, as etiologias podem ser classificadas em infecciosas, inflamatórias, mecânicas, metabólicas, tumores e até mesmo dor visceral referida²,³.

Dor nas costas há muito é taxada como queixa incomum na população pediátrica. Quando presente, a lombalgia nessa faixa etária quase sempre estava ligada a uma causa diagnosticável, sendo a maioria delas progressivas e debilitantes, todavia, evidências recentes sugestionam que a dor nas costas pediátrica não é apenas mais comum do que se pensava, mas também, em certas populações, benigna e idiopática4.

2. Qual a relação da pandemia e a dor nas costas?

A dor lombar tornou-se uma queixa frequente na faixa etária infanto-juvenil. Desde o inicio da pandemia do COVID-19 uma nova realidade tem se materializado na rotina das crianças, os principais achados de estudos recentes apontam que a maioria dos pais considera que houve redução no tempo de atividade física das crianças e aumento do tempo lúdico de tela5.

Durante a pandemia, a nova rotina familiar confirma a tendência geral decrescente do tempo de atividade física na população pediátrica. As crianças, por condição restritiva do isolamento social, estão intimamente impostas a hábitos menos físicos e mais visuais. Os pais, em seus trabalhos domiciliares, acabam por estimular um contato maior dos filhos com aparelhos eletrônicos a fim de otimizar o tempo, desta forma, acabam se equilibrando em cima da linha tênue que separa o trabalho doméstico do trabalho social.

A pandemia COVID-19 resultou em uma reformulação de nossa vida cotidiana que vem sendo apelidada de “novo normal”. Assim como as pessoas se adaptaram ao trabalho e aos estudos em casa, há também novos desafios na manutenção da saúde física e mental. É nesse ponto que, quando questionados, os pais revelaram uma preocupação sobre aumento do tempo diário de tela em dispositivos inteligentes para seus filhos. As crianças mais velhas passam mais tempo na tela devido a programação de aulas online, enquanto nas crianças mais novas, restringidos pelos bloqueios induzidos pelo COVID, sejam eles de interação social ou no âmbito do trabalho, o uso de smartphone substituiu outras formas de atividade física6.

3. Anatomia da coluna vertebral

A avaliação apropriada da dor nas costas não é viável sem uma compreensão da anatomia única da coluna vertebral na pediatria e como ela muda ao longo da infância.

A coluna é tipicamente definida como a área da primeira vértebra torácica ao topo da articulação sacroilíaca. Lateralmente, o dorso se estende dos processos espinhosos da linha média até a linha axilar posterior. A parte superior das costas inclui as articulações escapulo-torácicas emparelhadas, bem como a coluna torácica e as costelas articuladas. A parte inferior das costas, junto com a musculatura circundante, consiste na coluna lombar4.

As causas da dor lombar na população pediátrica são tão diversas quanto nos adultos. Ao contrário da crença de que problemas graves, como, por exemplo, malignidade, é a etiologia mais comum de dor nas costas, são as causas mecânicas as mais recorrentes de dor lombar7. A coluna vertebral consiste em um empilhamento de corpos vertebrais ósseos que se articulam através dos discos intervertebrais. Cada corpo vertebral tem um arco posterior, a partir do qual as facetas inferior e superior se estendem por uma área denominada par interarticular, assim, cada faceta se articula com as facetas dos corpos vertebrais vizinhos. Dois forames são formados entre cada conjunto de vértebras emparelhadas, o que permite que as raízes nervosas saiam do canal espinhal. Por fim, estendendo-se lateralmente a partir do arco posterior estão os processos transversos, que servem como locais de fixação muscular4.

4. Avaliação apropriada da dor nas costas

Definir a etiologia da lombalgia é de extrema importância para prever o curso clínico do paciente. Tal afirmação é validada quando encontramos evidências de que lombalgia na infância é um fator de risco significativo para a vida adulta, já que se não for diagnosticado corretamente, pode se tornar crônico e incapacitante7.

Dor nas costas, definida como dor na cervical, dor torácica e/ou lombalgia, é um problema de saúde pública significativo e incapacitante. Recentemente estudos demonstraram que fatores sociais, sexo, nível de renda, fatores psicológicos, sedentarismo, problemas de sono e até mesmo riscos cardiovasculares podem estar associados à dor nas costas também em crianças e adolescentes8.

Em pediatria, a história do paciente é a parte mais crítica para determinar a etiologia da dor, muitas vezes a localização é difusa ou o paciente não consegue falar, dependendo de um interlocutor. Nessa anamnese, o nível de atividade física de cada paciente deve ser determinado, o momento específico, a frequência, localização, duração e gravidade da dor devem ser bem estabelecidos4. Os componentes do desempenho motor são essenciais para o desenvolvimento psicossocial em crianças e adolescentes e foram reconhecidos como um importante determinante do estado de saúde, no entanto, sua relação com a dor nas costas permanece obscura. Uma revisão recente relata que há poucos estudos sobre os componentes do desempenho motor, esses componentes incluem agilidade, força nos membros inferiores, força de preensão manual e aptidão cardiorrespiratória, aponta também que essas relações não são claras, ainda assim, fica estabelecido que é um importante parâmetro de saúde que está positivamente associado à atividade física8.

Para tanto, como os componentes de desempenho motor podem também estar relacionados a lesões, o médico deve sempre perguntar sobre a radiação da dor e, se houver, qual sua distribuição. Da mesma forma, é válido questionar sobre fraqueza e movimentos incomuns nas costas ou pernas, uma atenção especial deve ser dada à dormência sentida nos aspectos mediais dos membros inferiores ou perda da função intestinal e vesical, pois são indicativos de síndromes da cauda equina e do cone medular, que requer avaliação imediata4.

De fato, a família brasileira com crianças abaixo de 13 anos enfrenta o período de distanciamento social, decorrente da pandemia de COVID-19, como uma balança de dois pratos no que diz respeito ao tempo gasto em atividade física, intelectual, brincadeiras ao ar livre versus tempo de tela e diminuição da atividade física5. Associado a esse novo cenário, faz-se de extrema importância a anamnese abordar qualquer história recente ou remota de trauma, ocorrências anteriores de dor nas costas, além de incluir uma revisão geral dos sistemas com enfoque particular direcionado aos sistemas neurológico, geniturinário, gastrointestinal, dermatológico, e/ou psiquiátrico, já que esses podem apresentarem comorbidade que cursam com dor nas costas4.

5. Conclusão

O paciente pediátrico que apresenta dor nas costas pode, muitas vezes, no consultório ambulatorial, ser um desafio, principalmente nesse novo cenário mundial lidando com COVID-19. Quando devo acreditar que uma criança está mesmo com dor nas costas? Existem muitos diagnósticos orgânicos bem conhecidos que não deve, e nem pode, ser perdido. Mas não podemos também, menosprezar a necessidade de avaliação extensiva e encaminhamento a um especialista por evidências de que os adolescentes costumam ter dores nas costas benignas e autolimitadas.

São fatores mecânicos e físicos os representantes da maioria dos mecanismos causadores da lombalgia entre meninos e meninas em idade escolar7. Há um dever crescente sobre o pediatra, principalmente na atenção primária, a fim de avaliar e separar pacientes que apresentam história e achados de exames que confirme problemas orgânicos, daqueles que provavelmente apresentam dores musculoesqueléticas4. As famílias devem ser aconselhadas sobre mudança de hábitos de vida, incluindo higiene do sono, ingestão adequada de água e redução do tempo de tela. Uma forte compreensão da anatomia e do desenvolvimento de uma coluna pediátrica normal, juntamente com um forte diagnóstico diferencial, deve permitir que o profissional de saúde pediátrico se sinta confiante e seguro de que está prestando o melhor cuidado possível aos seus pacientes4.

Autora: Geovanna R. B. Castro

Instagram: @georbcastro

Referências

1- Alves JM, Yunker AG, DeFendis A, Xiang AH, Page KA. Associations between Affect, Physical Activity, and Anxiety Among US Children During COVID-19. medRxiv [Preprint]. 2020 Oct 23:2020.10.20.20216424. doi: 10.1101/2020.10.20.20216424. Update in: Pediatr Obes. 2021 Mar 15;:e12786. PMID: 33106820; PMCID: PMC7587840.

2- MARTINS, Milton de Arruda. Clínica Médica. 2. ed. São Paulo: Manole, 2016.

3 – SIRQUEIRA, MARIO G. Tratado de Neurocirurgia. 1. Ed – Barueri, SP: Manole, 2016.

4- Lamb M, Brenner JS. Back Pain in Children and Adolescents. Pediatr Rev. 2020 Nov;41(11):557-569. doi: 10.1542/pir.2019-0051. PMID: 33139409.

5- Sá CDSC, Pombo A, Luz C, Rodrigues LP, Cordovil R. COVID-19 SOCIAL ISOLATION IN BRAZIL: EFFECTS ON THE PHYSICAL ACTIVITY ROUTINE OF FAMILIES WITH CHILDREN. Rev Paul Pediatr. 2020 Nov 11;39:e2020159. doi: 10.1590/1984-0462/2021/39/2020159. PMID: 33206868; PMCID: PMC7659029.

6- Krishna MR. Increased Screen Time – A Pandemic Era Trigger for Neuro-Cardiogenic Syncope. Indian Pediatr. 2021 Apr 15;58(4):396. doi: 10.1007/s13312-021-2205-7. PMID: 33883318; PMCID: PMC8079849.

7- Illeez OG, Akpinar P, Bahadir Ulger FE, Ozkan FU, Aktas I. Low back pain in children and adolescents: Real life experience of 106 patients. North Clin Istanb. 2020 Nov 17;7(6):603-608. doi: 10.14744/nci.2020.93824. PMID: 33381701; PMCID: PMC7754872.

8- Noll M, Wedderkopp N, Mendonça CR, Kjaer P. Motor performance and back pain in children and adolescents: a systematic review and meta-analysis protocol. Syst Rev. 2020 Sep 14;9(1):212. doi: 10.1186/s13643-020-01468-6. PMID: 32928303; PMCID: PMC7491087.


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