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Mieloma Múltiplo e proteína de Bence Jones: qual a relação? | Colunistas

Mieloma Múltiplo e proteína de Bence Jones: qual a relação? | Colunistas

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Maria Eduarda Vieira Garcia

7 min há 18 dias

O Mieloma Múltiplo é uma das principais Neoplasias Plasmocitárias que acarreta em várias disfunções orgânicas e sintomas. É definido pela presença de 10% ou mais células plasmáticas no exame de medula óssea, além de evidência de anemia, hipercalcemia, insuficiência renal, lesões e dores ósseas, proteína M no soro e na urina. Os homens são mais comumente afetados do que as mulheres, e a idade média para o seu aparecimento é de cerca de 65 anos, sendo raros os casos em pacientes com menos de 40 anos. Sua etiologia não está bem esclarecida, e sua origem indeterminada apesar de algumas mutações conhecidas, como em RAS e p53, metilação do p16, anormalidades no MYC e translocação secundária.

Na maioria dos pacientes, a creatinina encontra-se elevada, acima de 2 mg/dL, sendo que as duas principais causas de insuficiência renal são a nefropatia com cilindros de cadeia leve e a hipercalcemia. A pesquisa do componente M (ou paraproteína M) é imprescindível para o acompanhamento do Mieloma Múltiplo, podendo ser composto por IgG, IgM, cadeia leve isolada, e IgD.

Em cerca de 80% dos casos de Mieloma Múltiplo aparecem na urina cadeias leves de proteínas, filtradas rapidamente pelos glomérulos, chamadas proteínas de Bence Jones, que por serem tóxicas aos túbulos renais, podem provocar uma Nefropatia crônica nestes doentes, o conhecido “Rim do Mieloma”.

Gamopatias monoclonais e proteína de Bence Jones

A produção não controlada de um único clone anormal de linfócitos B ou células plasmocitárias são conhecidas como gamopatias monoclonais, sendo reconhecida como uma banda de migração restrita na eletroforese de soro ou de urina. Quando a banda representa uma cadeia leve, a proteína correspondente é conhecida como proteína de Bence Jones.

A proteína de Bence Jones foi pela primeira vez descrita em um paciente internado no “Hospital St. George” em Londres (1847), pelo Doutor Henry Bence Jones, que adicionou ácido nítrico na urina do paciente, e notou a formação de um precipitado, conferindo-lhe o nome de “hydrated deutoxide of albumen”. O termo atual, Proteínas de Bence Jones só passou a ser utilizado em 1880 pelo Dr. Fleischer.

São imunoglobulinas monoclonais de cadeia leve, pequenas o suficiente para atravessarem o glomérulo e estarem presentes na urina. Normalmente são encontradas em pacientes com Mieloma Múltiplo, mas também em outros casos: amiloidose, síndrome de POEMS, doenças linfoproliferativas, macroglobulinemia de Waldenström, Síndrome de Fanconi, entre outras. Esta imunoglobulina é extremamente tóxica para os rins, podendo provocar uma disfunção tubular renal e o desenvolvimento de uma Insuficiência Renal Crônica. Nos casos de Mieloma Múltiplo, uma amostra de urina de 24 horas se faz necessária para quantificar a excreção da proteína de Bence Jones (BJ), sendo umas das formas de detecção a imunoeletroforese.

Métodos de detecção da proteína BJ

O método utilizado para a detecção de imunoglobulinas, a Eletroforese, não costuma detectar as cadeias leves presentes na urina, sendo necessário outros métodos, como o Teste de ácido Sulfossalicílico, em que consiste na mistura deste ácido com o componente urinário; Imunoeletroforese ou imunofixação, que identifica as cadeias leves no componente urinário; o Teste do Calor, em que a proteína se precipita em temperaturas específicas (40-60°C), que apesar de barato, pode ter vários resultados falso-positivos (alta sensibilidade).

Figura 2.Imunofixação sérica de pacientes portadores de mieloma múltiplo
Fonte:https://www.researchgate.net/publication/250035668_Testes_laboratoriais_para_avaliacao_do_componente_monoclonal 

“Rim do Mieloma”

A nefropatia obstrutiva conhecida como “Rim do mieloma” é causada pela excreção de cadeias leves que causam dano tubular, sendo composta por três componentes principais: atrofia tubular renal proximal, formação de cilindros eosinofílicos no túbulo distal e inflamação com fibrose intersticial.

As células tubulares proximais endocitam as proteínas de BJ, o que acaba levando a uma disfunção tubular proximal e, com a evolução da neoplasia, a uma Insuficiência Renal Crônica. Quando estas proteínas alcançam o néfron distal, se ligam à mucoproteína de Tamm-Horsfall formando os cilindros de cadeia leve, que se acumulam e geram a nefropatia crônica. Esta doença de depósito de imunoglobulina monoclonal (DDIM) normalmente se apresenta como um depósito não-fibrilar, sendo que em geral, a proteína de cadeia leve envolvida é a kappa.

Figura 3. Nefrotoxicidade gerada pelas cadeias leves no MM
Fonte: https://www.scielo.br/pdf/rbhh/v29n1/v29n1a16.pdf

Proteína de Tamm-Horsfall

Idêntica a proteína conhecida como uromodulina, foi descoberta em 1950 por Igor Tamm e Frank L. Horsfall Jr, sendo produzida exclusivamente pelos rins. Tem como função a hemaglutinação viral, participação no transporte de íons (devido a sua produção nas células da Alça de Henle), atuação na prevenção da formação de cálculos renais, interação com diversos componentes do sistema imunológico, tendo demonstrado importante função como marcadora da função renal em pacientes adultos e prevenção de infecções na via urinária, principalmente pela Escherichia coli.

Conclusão

No Mieloma Múltiplo, a manifestação renal com insuficiência renal crônica é frequente, e, em muitos casos, devido a demora no tempo de diagnóstico, o desfecho se torna desfavorável para o paciente. Apesar da proteína de Bence Jones ser facilmente detectada na urina, a maioria dos testes apresentam baixa especificidade, não contribuindo efetivamente para o diagnóstico do Mieloma Múltiplo nos pacientes, e consequentemente, dos dados crônicos provocados no rim pela neoplasia, assim novas técnicas de detecção, mais sensíveis e específicas, devem ser desenvolvidas para que se possa ter uma maior acurácia no diagnóstico laboratorial.

Autora: Maria Eduarda Vieira Ribeiro Garcia

Instagram: @madudagarcia 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

The detection of Bence Jones protein in urine by the heat test helps in diagnosis of multiple myeloma?https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-24442017000100020 

RBHH 1 – 2007 – Mieloma múltiplo e insuficiência renal.p65 https://www.scielo.br/pdf/rbhh/v29n1/v29n1a16.pdf 

CASO CLÍNICO https://arquivos.sbn.org.br/casosClinicos/Caso7/diag.html 

Uromodulin: a new biomarker of fetal renal function? https://www.bjnephrology.org/en/article/uromodulin-a-new-biomarker-of-fetal-renal-function/ 

Uromodulin (Tamm-Horsfall glycoprotein/uromucoid) is a phosphatidylinositol-linked membrane protein https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0021925817452847 

Testes laboratoriais para avaliação do componente monoclonal https://www.researchgate.net/publication/250035668_Testes_laboratoriais_para_avaliacao_do_componente_monoclonal 

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