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Minha Experiência no Internato das Especialidades: Hematologia e Oncologia | Colunistas

Minha Experiência no Internato das Especialidades: Hematologia e Oncologia | Colunistas

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Kathleen Emerick

5 min há 26 dias

Minhas experiências no internato de Hematologia e Oncologia foram marcantes nos âmbitos acadêmico e pessoal. A oportunidade de reflexão sobre a forma de enfrentamento individual de cada pessoa diante das doenças e condições de vulnerabilidade é única. A empatia é a chave para lidar com essas situações, colocar-se no lugar do paciente, diante de sua história de vida, desejos e demandas; escolher todos os dias tratar o nosso próximo com amor, sem julgamentos, e com igualdade e respeito. São experiências que enriquecem nossa formação centrada na pessoa, e não na doença, e nos colocam em confronto com crenças e tabus sobre a morte, cuidados paliativos e a nossa forma de enxergar a terminalidade da vida.

A importância da Hematologia e Oncologia no internato

As duas especialidades nem sempre fazem parte do plano de ensino durante o internato das faculdades de medicina no geral, mas têm grande importância na formação acadêmica, pois na atualidade temos uma grande prevalência de doenças como o câncer, além da clínica ricamente presente nesses pacientes.

Após o aprendizado teórico no ciclo básico anterior ao internato, tive o privilégio de passar por essas especialidades no hospital Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Dessa forma, pude consolidar o conteúdo com as vivências práticas da enfermaria. É imperativo ao médico generalista saber quando encaminhar seus pacientes diante de quadros clínicos sugestivos de doenças hematológicas e oncológicas, além de saber sobre exames que podem ser solicitados para guiar e antecipar o diagnóstico. A conduta, geralmente, fica na responsabilidade do especialista, mas cabe a qualquer outro médico saber como acompanhar esses pacientes concomitantemente ao tratamento e seu seguimento. Considero relevante também a vivência reflexiva diante das variadas histórias com as quais nos deparamos, desenvolvendo um olhar mais humano diante das doenças que, na maioria das vezes, levam esses pacientes ao óbito, sejam eles crianças, jovens, adultos ou idosos.

O que mais gostou

O conhecimento que adquiri e as experiências que tive ficarão em minha memória e me acompanharão na vida médica. O que mais me chamou atenção durante esse internato foi a unidade entre a equipe de profissionais dessas especialidades, como a boa relação deles com cada paciente foi determinante, e a forma compreensiva deles de enxergar a terminalidade da vida deve ser enaltecida.

A empatia e o respeito à autonomia dos doentes foram significativos na evolução destes durante as internações, pois, diante de um quadro clínico desfavorável, há benefícios em um ambiente agradável, sem conflitos, resolutivo e de fácil compreensão sobre o outro, tornando esse período mais leve para o doente. Isso porque há grandes desafios a serem enfrentados, lidar com a dor e sintomas desconfortáveis, com o diagnóstico e tratamentos agressivos, com as emoções e relacionamentos interpessoais e por fim com a terminalidade da vida. Pude ver a satisfação dos pacientes de serem bem cuidados e respeitados em suas decisões, o que gerava confiança diante das condutas tomadas pela equipe, tornando esse tempo de sofrimento menos pesado.

O que menos gostou

O que eu menos gostei dessas especialidades são os diversos desafios durante a investigação das doenças, a dificuldade diagnóstica, a indisponibilidade de muitas drogas no sistema público, não ter cura ou tratamentos eficazes, o que levava ao óbito de muitos e gerava um grande sofrimento pela perda tão frequente de pessoas. Além disso, são pacientes muito frágeis e debilitados, que devem ser tratados com muita cautela devido à baixa imunidade induzida pelas medicações e tratamentos, sendo assim, um ambiente de vigilância constante, pois a descompensação e evolução para gravidade são imprevisíveis e frequentes.

Conclusão

O que posso levar de lição desse breve contato com essas especialidades é mudar a forma de ver os desafios da medicina, enxergando através dos olhos do paciente e tomando decisões para resguardar sua vontade, como disse Francis Peabody: “… o segredo dos cuidados do paciente é cuidar do paciente”. A importância da empatia, do respeito e do amor ao próximo, além da ação significativa no encaminhamento para avaliação, diagnóstico precoce e conduta direcionada.

Dica final para aqueles que ainda passarão por essa fase: as experiências das vivências no ambiente hospitalar são relevantes na lapidação do “ser médico”, pois aprende-se não só o manejo do paciente em uma internação, mas também o convívio com outros profissionais e funcionários do sistema. Assim, aproveitar cada oportunidade como única nessa fase é de extrema importância para expandir os contatos, decidir sobre futura área de atuação/ambiente de trabalho e desenvolver empatia ao cuidar do outro. Esse internato permite a oportunidade de valorizar o paciente de modo integral em sua singularidade e complexidade, ultrapassando as barreiras e tabus dos diferentes aspectos socioculturais e econômicos, ao colocar todos os indivíduos em um mesmo patamar: o enfrentamento da terminalidade da vida.

Autor(a): Kathleen Emerick Paiva Faria

Faculdade: Universidade José do Rosário Vellano – Unifenas BH

Instagram: @kathemerick

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

The New England Journal of Medicine (NEJM): Decisions at the End of Life. vJeffrey M. Drazen, M.D. – https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMp038146

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