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Nervo vago: causador do estresse ou a grande solução para ele? | Colunistas

Nervo vago: causador do estresse ou a grande solução para ele? | Colunistas

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Imagem de perfil de Thaíssa Paschôa

1. Afinal, o que é o estresse?

Antes de falar sobre a relação do nervo vago com esse fenômeno é importante que você entenda o que ele é, o porquê e como acontece.

Ao perceber uma ameaça à sua segurança, ou seja, em uma situação de tensão, eventos mentais são desencadeados e isso é o elemento central relacionado ao estresse.

Esses processos neurológicos complexos levam a ajustes adaptativos comandados pelo sistema nervoso autônomo, o qual é subdividido em duas categorias: sistema simpático e o sistema parassimpático.

Em geral, eles atuam de forma antagônica, mas não independente, colaborando e trabalhando harmonicamente na coordenação da atividade visceral.

De forma simplificada, o sistema simpático utiliza energia para atividades súbitas e o sistema parassimpático contribui mais para restabelecer as reservas.

Dessa forma, a reação à incerteza ou ao perigo é um estado simpático-excitatório, conhecido como “lutar ou fugir”, que resulta em um incremento previsível da frequência cardíaca, por exemplo.

Já o descanso, de forma geral, representa um fenômeno parassimpático-inibitório, que tem como resultado uma redução da frequência cardíaca.

Há ainda uma rede autonômica central, contendo áreas no córtex e no subcórtex, através das quais o cérebro controla as funções visceromotoras e o comportamento direcionado aos seus objetivos.

Dentre elas, tem-se o córtex pré-frontal, o núcleo central da amígdala, o núcleo do trato solitário e o núcleo ambíguo, todos reciprocamente interconectados (RIVAROLA e SCANAVACCA, 2019).

IMAGEM 1 – Encéfalo e tronco encefálico – Estruturas envolvidas no mecanismo do estresse.

Com isso, após você avaliar uma ameaça em potencial, uma reação de estresse mental rápida e primitiva ocorre na sua amígdala.

Contudo, essa percepção inicial geralmente dá lugar a interpretações mentais mais elaboradas, à medida que certas ações das áreas corticais se revelam. Dessa maneira, pode-se classificar o estresse em 4 fases:

  • Alerta: é a fase positiva, onde a descarga de adrenalina torna o indivíduo mais produtivo, motivado, atento.
  • Resistência: você parece se sentir bem, porém há aumento na produção de cortisol para que permaneça na fase de alerta na tentativa de restabelecer a homeostase.
  • Quase-exaustão: com muito esforço você consegue pensar equilibradamente, apesar do desconforto físico e mental
  • Exaustão: há estimulação excessiva dos nervos responsáveis por essa via, como no caso de medo e ansiedade constantes, fazendo com que o cérebro e o corpo se sobrecarreguem. Assim, o mais provável é que se tenha o surgimento de desequilíbrio interior, depressão, diminuição da produtividade.

Mesmo sabendo que vários outros mecanismos fisiológicos participam desse incrível circuito neurológico, o sistema nervoso autônomo é, sem sombra de dúvidas, o que mais contribui.

2. E o nervo vago?

Antes, você precisa entender um pouco sobre esse nervo craniano! Não me refiro a decorar todas aquelas vias no córtex e núcleos!

Entretanto, é necessário conhecer alguns dos seus ramos, seu trajeto e suas funções para que posteriormente você entenda a relação do vago com o estresse.

2.1 Trajeto:

Antes de emergir no sulco retro-olivar do bulbo como nervo vago, ele se origina da junção de fibras de vários núcleos (motores, sensitivos especiais e superficiais, parassimpático) no tronco encefálico que se comunicam com outras estruturas do encéfalo.

Finalmente, o nervo emerge como um feixe entre o nervo glossofaríngeo e o nervo acessório, caminhando com eles para o forame jugular. Apresenta ainda dois gânglios sensitivos: um superior e outro inferior.

É importante citar que antes de emergir do crânio ele recebe dois ramos: um meníngeo que inerva a dura-máter e um ramo auricular, o qual supre a sensibilidade dessa região.

Após emergir do crânio, o nervo vago emite vários ramos e se continua para o tórax. A parte que desce entre a artéria carótida e a veia jugular interna, passando pela bainha carotídea, dá origem aos ramos faríngeo, laríngeo superior e cardíaco antes de entrar no tórax.

Ainda sobre o trajeto, o nervo encaminha-se para o abdome ultrapassando o diafragma (FERNANDES, 2020).

 IMAGEM 2 –  Inervação – Nervo vago

2.2 Funções:   

Em relação às funções que o vago desempenha nessas regiões, pode-se citar o ramo faríngeo, o qual forma o plexo faríngeo juntamente com o nervo glossofaríngeo, e proporciona a inervação motora para os músculos da faringe.

Já o nervo laríngeo superior se divide em um ramo externo que inerva o músculo cricotireóideo e em um ramo interno, o qual fornece a inervação sensitiva da mucosa da laringe acima da rima da glote.

O nervo laríngeo recorrente dá origem aos ramos parassimpáticos com fibras que se dividem e inervam todos os outros músculos da laringe, bem como a mucosa da glote e abaixo da glote, exceto o músculo cricotireóideo.

No que diz respeito aos ramos cardíacos, cervicais superiores e inferiores formam o plexo cardíaco no coração inervando parassimpaticamente os átrios.

Há ainda o plexo pulmonar e o plexo esofágico, que emergem do nervo vago com numerosas fibras que participam da inervação parassimpática das estruturas, as quais recebem o nome dentro da caixa torácica.

Há ainda a formação do tronco vagal anterior e posterior, já dentro da cavidade abdominal e passando pelo hiato esofágico do diafragma.

A partir disso, ocorre uma intensa ramificação na qual os nervos acompanham vasos sanguíneos formando o sistema nervoso entérico, responsável pela inervação parassimpática das vísceras na porção superior do abdome – pois a porção inferior é suprida pela região sacral da medula espinal.  

Para mais informações anatômicas sobre o nervo vago, indico o artigo escrito por outra colega. L

ink em: https://www.sanarmed.com/nervo-vago-o-que-e-anatomia-e-suas-principais-funcoes-colunistas  

3. E, afinal, qual a relação do nervo vago com o estresse?

Observe com atenção os componentes extrínsecos das vias autonômicas! Eles são compostos principalmente pelo nervo vago e pelos numerosos nervos aferentes da sofisticada cadeia simpática torácica.

Dessa forma, é responsabilidade deles transportar, através do sistema nervoso central, as informações simpáticas e parassimpáticas dos baro e quimiorreceptores de boa parte do corpo, que se projetam para estruturas envolvidas na regulação do SNA no sistema nervoso central.

Estas fibras têm projeção para o núcleo vagal solitário, núcleo ambíguo, o núcleo motor dorsal do nervo vago e também núcleos paraventriculares e lateral do hipotálamo, por exemplo.

Percebe-se que essas vias são as mesmas responsáveis pelo mecanismo do estresse e qualquer modulação nelas poderá provocar uma persistência na fase 4, acarretando todas as consequências comentadas (FERREIRA, 2014).

Comprova-se isso a partir da variabilidade da frequência cardíaca (VFC), a qual representa a flutuação saudável dos intervalos dos batimentos cardíacos nos seres humanos.

Estudos comprovam que ela pode ser usada para analisar as respostas do nervo vago e do tônus ​​vagal (TV) de alguém, visto que uma maior VFC está diretamente associada à função de um nervo vago mais ativado e a partir dessa ativação há menores níveis de estresse crônico, melhor saúde geral e melhor cognição.

Dessa forma, conclui-se que qualquer prática que envolva a estimulação no nervo vago pode contribuir para o controle do estresse (GERRITSEN e BAND, 2018).

4. Ativação do nervo vago para reduzir o estresse?

 Sim! E através de técnicas simples e que já são usadas há muito tempo.  

4.1 Respiração:

É importante saber ainda que, durante a inalação, o sistema nervoso simpático (SNS) promove uma aceleração da frequência cardíaca e que, durante a exalação, o nervo vago libera a acetilcolina que causa desaceleração dentro dos intervalos entre os batimentos através do sistema nervoso parassimpático (SNP).

Logo, taxas de respiração lenta com exalação prolongada ativam o sistema nervoso parassimpático pela função aferente do nervo vago nas vias aéreas, resultando em relaxamento (GERRITSEN e BAND, 2018).

4.2 Canto:

Cantar sozinho ou com outras pessoas estimula o nervo vago pela ativação de músculos na laringe.  Ao cantar com outras pessoas, a frequência cardíaca fica sincronizada (VICKHOFF et al. 2013).

4.3 Meditação:

Descobriu-se que o canto “OM” aumenta o tônus vagal ao mesmo tempo em que reduz a ativação da amígdala, diminuindo a sensação de medo (KALYANI, et al, 2011).

4.4 Yoga:

O exercício moderado de qualquer tipo pode estimular o nervo vago, mas a yoga se destaca. Ela não só melhora o tônus vagal, como aumenta a liberação de GABA, o neurotransmissor do relaxamento.

Praticantes desse esporte regularmente são orientados por um instrutor que também enfatiza a importância de se concentrar na relação inalação/expiração durante os exercícios, na postura e na concentração que também auxiliam nessa ativação do nervo vago (STREETER et al. 2010).

IMAGEM 3 – Yoga – Corpo, respiração e mente.

4.5 Acupuntura:

Os pontos de acupuntura tradicionais, particularmente a acupuntura auricular, na qual faz-se a estimulação mecânica de pontos específicos do pavilhão auricular com esferas metálicas capazes de estimular um ponto auricular, provoca uma propagação de estímulos elétricos aferentes no nervo indo da periferia em direção ao tronco cerebral e estruturas centrais, estimulando-o. (ARTIOLI et al. 2016).

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Confira o vídeo: