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O corpo amigdaloide | Colunistas

O corpo amigdaloide | Colunistas

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Nathália Salvi Merlotti

8 min há 192 dias

Introdução

A amígdala é uma pequena estrutura que possui um complexo de núcleos com formato de uma amêndoa. Sua localização na porção dorsomedial do lobo temporal e anteriormente à cauda do núcleo caudado. O corpo amigdaloide como muitos desconhecem não são aquelas estruturas localizadas na região da faringe (corretamente denominadas tonsilas) e sim o componente mais importante do sistema límbico, responsável por nossas emoções e também por transtornos como ansiedade e estresse pós-traumático.

Estruturas e conexões da amígdala

Possui 12 núcleos que se dispõem em três grupos: corticomedial, basolateral e central (algumas literaturas consideram somente dois grandes grupos que seriam o núcleo amigdaloide cortical ou lateral e o núcleo amigdaloide medial).

  1. Grupo corticomedial: recebe conexões olfatórias, projeções do bulbo e parece estar envolvido com comportamentos sexuais. A sua estimulação causa reação defensiva e agressiva.
  2. Grupo basolateral: recebe a maior parte das conexões aferentes e sua estimulação causa reações de medo e fuga. Esse grupo recebe extensas projeções de sistemas sensoriais além de emitir projeções ao grupo central.
  3. Grupo central: dá origem às conexões eferentes, os axônios que emergem desse grupo estabelecem conexões com o hipotálamo, núcleos bulbares e com a substância cinzenta periaquedutal.
Imagem 1. Fonte: MACHADO, A.B.M. Neuroanatomia Funcional. 3 ed. São Paulo: Atheneu, 2014

A amígdala é a estrutura subcortical com o maior número de projeções de todo sistema nervoso. Suas conexões aferentes se conectam com todas as áreas de associação secundária do córtex, onde trazem informações sensoriais que já foram processadas. Além disso, são recebidas aferências de alguns núcleos hipotalâmicos, do núcleo dorsomedial do tálamo, dos núcleos septais e do núcleo do trato solitário.

As conexões da amígdala são essenciais para todo o organismo devido a organização dos componentes visceral, autonômico, somatossensorial e somatomotor do comportamento afetivo.

Já as conexões eferentes se distribuem em duas vias:

  1. Via amigdalofuga dorsal: projeta-se para os núcleos septais, núcleo accumbens, núcleos hipotalâmicos e núcleos da hâbenula por meio da estria terminal
  2. Via amigdalofuga ventral: acaba por se projetar para as mesmas áreas de origem das fibras aferentes e também para o núcleo basal de Meynert. Com essa via, eferências são projetadas para núcleos do tronco encefálico.

Além das conexões extrínsecas citadas, os núcleos da amígdala conseguem se comunicar por fibras glutamatérgicas pois o complexo amigdaloide tem uma grande diversidade de neurotransmissores como acetilcolina, GABA, serotonina, noradrenalina entre outros.

A amígdala e o medo

A amígdala possui a maior concentração de receptores sexuais do sistema nervoso central e sua estimulação resulta em uma variedade inespecífica de comportamentos relacionados à sexualidade assim como sua lesão provoca a hipersexualidade. Porém, por mais que essa concentração de receptores seja surpreendente, a principal função da amígdala é o processamento do medo.

Estudos foram realizados com pacientes que sofreram de lesões bilaterais da amígdala e pararam de sentir medo até mesmo em situações de perigo eminente, o que despertou a curiosidade de pesquisadores pois a amígdala pode ser ativada somente pela visão de outras pessoas com uma expressão facial de medo (mesmo que o observador não saiba o que está acontecendo e talvez nem tenha medo).

O medo se caracteriza como uma reação de alarme diante um perigo resultando na ativação do sistema simpático e liberação de adrenalina pela suprarrenal. A Síndrome de Emergência de Cannon é o nome dado ao alarme que prepara organismo para situações onde ele deve fugir ou enfrentar o perigo. Primeiramente, a informação visual ou auditiva, caso o perigo faça algum barulho, é levada ao tálamo e às áreas visuais primárias e secundárias. Com isso, a informação irá seguir por dois caminhos:

  1. Via direta: informação visual é levada e processada no grupo basolateral, passando pelo grupo central que irá disparar o alarme com as manifestações fisiológicas autonômicas e comportamentais
  2. Via indireta: informação é passada para o córtex pré-frontal e depois para a amígdala.

A via direta é mais rápida que a indireta e permite uma resposta imediata ao perigo. Já a via indireta permite que o córtex pré-frontal analise as informações e desative o alarme caso necessário. Então, o indivíduo só sente medo quando os impulsos nervosos chegam ao córtex. O esquema abaixo representa o papel dos neurotransmissores e as vias cerebrais necessárias para a aquisição do medo condicionado:

Imagem 2. Fonte: GRAEFF, Frederico G. Bases biológicas do transtorno de estresse pós-traumático. Rev. Bras. Psiquiatr. , São Paulo, v. 25, supl. 1, pág. 21-24, junho de 2003

A amígdala e a ansiedade:

Alguns estudos defendem que a ansiedade é um passo necessário para que ocorra a formação da memória devido à experiência pela administração de ansiolíticos benzodiazepínicos. Esses fármacos são usualmente prescritos em quadros agudos de ansiedade, insônia, transtornos de humor e outras condições relacionadas ao sistema nervoso central, tendo como principal característica a diminuição do medo e da ansiedade e produzindo amnésia anterógrada. Já o estado de alerta em que o indivíduo se encontra ao se lembrar de algo, fortalece a sua memória e a consolidação dela.

Memória emocional e TEPT

Acredita-se que a amígdala tenha um papel no planejamento comportamental baseado na integração de informações íntero e exteroceptivas. Um dos primeiros estudos sobre a relação da amígdala e a consolidação da memória foi de Weiskrantnz que demonstrou que uma lesão na amígdala impede a formação de associações estímulo-reforço. Porém, o papel da amígdala na memória emocional pode ser observado por dois aspectos:

  1. A participação da amígdala na formação de respostas condicionadas a certos estímulos que são inicialmente neutros e depois associados a estímulos eliciadores primários de tais respostas. Concluindo que a resposta pode ser emitida sem a recordação consciente da situação de aquisição.
  2. Papel da amigdala na formação de memórias declarativas com conteúdo emocional.

A hiperatividade na amigdala, a disfunção no córtex pré-frontal medial e no hipocampo resultam em uma resposta exagerada a lembranças, ocorrendo em indivíduos que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), uma reação anormal a um trauma. O vídeo a seguir ilustra de maneira simples de que maneira ocorre o transtorno de estresse pós-traumático com enfoque nas estruturas anatômicas envolvidas: https://www.youtube.com/watch?v=zd8dvHHfCF0

Conclusão

Logo, é possível concluir que a amígdala está envolvida em diversos processos por meio de seus núcleos que apresentam funções específicas. Suas diversas conexões conferem à essa estrutura uma possibilidade de comunicação com diversos elementos do sistema nervoso e modulações por meio de neurotransmissores dos mais variados tipos. Possui um papel significativo no trajeto do medo, por mais que a determinação do sentimento só seja concretizada pelo córtex pré-frontal na via indireta. Também tem importância nos transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático assim como na consolidação da memória emocional.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

  1. ALBUQUERQUE, Fabíola da Silva; SILVA, Regina Helena. A amígdala e a tênue fronteira entre memória e emoção. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul,  Porto Alegre ,  v. 31, n. 3, supl.   2009
  2. ESPERIDIAO-ANTONIO, Vanderson et al . Neurobiologia das emoções. Rev. psiquiatr. clín.,  São Paulo ,  v. 35, n. 2, p. 55-65,    2008
  3. GRAEFF, Frederico G. Bases biológicas do transtorno de estresse pós-traumático. Rev. Bras. Psiquiatr. , São Paulo, v. 25, supl. 1, pág. 21-24, junho de 2003
  4. MACHADO, A.B.M. Neuroanatomia Funcional. 3 ed. São Paulo: Atheneu, 2014
  5. MENESES, Murilo S.. Neuroanatomia aplicada. 3. ed ed. Rio de Janeiro: , 2016
  6. MEZZASALMA, Marco Andre et al. Neuroanatomia do transtorno de pânico. Rev. Bras. Psiquiatr. , São Paulo, v. 26, n. 3, pág. 202-206, setembro de 2004

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