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O dilema da morte na medicina | Colunistas

O dilema da morte na medicina | Colunistas

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Introdução

A medicina é comumente marcada por um permanente duelo entre o médico e a morte. Nesse cenário, vista sob a perspectiva de valores contemporâneos, a morte é encarada, pelo médico, como uma falha da sua prática e, por conseguinte, de seus próprios conhecimentos acadêmicos, percepção hoje potencializada por uma medicina cada vez mais tecnológica e, supostamente, mais eficaz.

Desse modo, na tentativa de fugir do desconforto trazido pelas experiências de luto, o profissional de saúde torna-se resistente ao tema da morte e às suas implicações, fato que pode influenciar de forma negativa o tratamento de pacientes em situação de terminalidade. Além disso, o escasso debate sobre a finitude da vida corrobora o ainda deficitário conhecimento médico sobre como pacientes possuidores de quadros irreversíveis sentem-se diante da própria situação.

Na matéria “O fenômeno comovente descoberto por médico que acompanha pessoas próximas à morte”, publicada pelo periódico britânico BBC, o cientista e médico de cuidados paliativos Christopher Kerr propõe um novo olhar sobre a morte. Ao acompanhar o processo de terminalidade de seus pacientes, Kerr constatou que cerca de 80% deles apresentavam instigantes experiências no fim de suas vidas. Tais experiências incluíam visões de familiares e animais de estimação há muito tempo perdidos.

Diante disso, o médico optou por escutar e analisar esses pacientes, chegando à conclusão de que eles não só não apresentavam declínio cognitivo explicativo de quadros delirantes, mas também se sentiam, após essas experiências, significativamente mais confortáveis para enfrentar a iminência da própria morte com maior naturalidade. Christopher emerge, portanto, como um representante da prática médica adepta de um olhar mais humanizado sobre a morte.

Medicina Paliativa: impasses e perspectivas

Michel de Montaigne preconiza: “Aquele que ensina os homens a morrer, ao mesmo tempo, os ensina a viver”. A paliação, ao trabalhar com o conceito de ortotanásia, vai ao encontro dessa máxima. A ortotanásia refere-se ao cuidado da vida do paciente portador de doença sem potencial curativo, de modo a promover a aceitação da finitude da vida.

Por que há ainda considerável resistência à paliação?

Sendo praticada sob a égide de um Código de Ética Médica detentor dos princípios de beneficência e não maleficência, você deve estar se perguntando o porquê da resistência, por parte de alguns da classe médica, à Medicina Paliativa. A resposta é simples, embora, ao mesmo tempo, complexa. Simples, uma vez que pode ser entendida segundo a perspectiva de uma medicina fundamentada predominantemente na arte de curar, não de cuidar, e complexa à medida que os fatores explicadores desse fato são de ordem subjetiva.

De forma mais simplificada, como foi dito na introdução deste texto, o médico tende a encarar a morte do paciente como um fracasso pessoal, um atestado da desilusão sobre a própria profissão. Nesse sentido, na tentativa de êxito terapêutico a todo custo, o médico pode, erroneamente, ceder à prática da distanásia, atitude ética e juridicamente questionável responsável pelo prolongamento agressivo da vida do paciente, submetendo-o a medicações e a exames invasivos e sem resultados palpáveis. A paliação, no entanto, não entende a morte como um fracasso ou uma ruptura abrupta da linha da vida, mas como um processo inerente ao viver que, assim como a medicina curativa, necessita dos cuidados e da atenção responsáveis pela promoção de conforto e de dignidade ao paciente terminal.

 

A integridade psicossocial do médico

Vale ressaltar, também, a visão idealizada da sociedade – e do próprio médico – sobre a medicina como um fator estressor do ofício médico. A figura do médico é vista, com frequência, como um “ser tanatolítico” (do grego, tanatos = morte e litis = destruição). Nesse contexto, esse ser estaria constantemente travando um combate contra a morte, de forma a destruí-la. A fim de justificar tal imaginário, o médico passa a incorporar uma postura quase onipotente, imune a falhas e a perturbações de ordem mental ou física.

É importante considerar que a problemática não começa com a inserção do médico no mercado de trabalho. Ainda na faculdade, o aluno de medicina é estimulado a encarar a morte por um viés reducionista, isto é, as peças anatômicas postas sobre o mármore frio são apresentadas de modo indiferente e igualmente frio. Sem uma maior intervenção acadêmica sobre como lidar com a morte e com os sentimentos trazidos por ela, o então aluno e futuro médico tende a retroalimentar os estereótipos já citados.

As consequências são devastadoras tanto para o médico, que apresentará dificuldades no manejo de seus próprios sentimentos e demandas inerentes à profissão (fato fomentador dos altos índices epidemiológicos de suicídio entre a classe médica), quanto para os pacientes em situação de terminalidade, já que estarão submetidos aos cuidados médicos de profissionais fragilizados emocionalmente. 

Diante disso, algumas posturas são comumente assumidas pelo médico que, na tentativa de não sofrer, mostra-se insensível e distante ou opta por envolver-se de forma excessiva e pessoal com a situação do paciente terminal. Ambas as posturas possuem, na maioria das vezes, negativas implicações.

Fonte: https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre//periodicos/acta-medica/assets/edicoes/2018-2/arquivos/pdf/33.pdf 

Conclusão

O momento atual, marcado pelas 433 mil mortes causadas pela Covid-19, mostra-se mais mórbido do que qualquer outro, fazendo oportuna essa discussão. Contudo, é imprescindível o entendimento de que o contágio e morte pela Covid-19 podem e devem ser evitados.

No que concerne aos aspectos aqui debatidos, fica clara a necessidade de reforma nos programas curriculares das instituições médicas de ensino superior, de modo a promover a formação de médicos mais humanizados e fortalecidos perante a finitude da vida. Assim, deve-se estimular a construção de uma medicina que privilegia o paciente sobre a doença e, por conseguinte, o cuidar quando o curar não é mais possível.

Deve-se, também, naturalizar o cuidado com a saúde mental do profissional de saúde. Para isso, assistências psiquiátrica e psicoterápica devem fazer parte da rotina desses profissionais. Por fim, partindo do pressuposto de que somos os únicos seres conscientes da própria morte, devemos entendê-la como um momento da vida tão natural quanto os outros. Tornemo-nos, então, menos “tanatolíticos” e mais médicos.

Autora: Vitória Yohana

Instagram: @vitoria.yoh

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Significado da morte para médicos frente à situação de terminalidade de pacientes submetidos ao Transplante de Medula Óssea – https://www.scielo.br/pdf/csc/v18n9/v18n9a17.pdf

Relatos de médicos sobre a experiência do processo de morrer e a morte de seus pacientes – https://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/121660/129428 

Processo de perdas e morte em cuidados paliativos: paciente, família e equipe assistente – https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre//periodicos/acta-medica/assets/edicoes/2018-2/arquivos/pdf/33.pdf

Morte: considerações para a prática médica – https://www.revistas.usp.br/rmrp/article/view/419/420

Médico onipotente tanatolítico: um status a ser analisado –  http://files.bvs.br/upload/S/1413-9979/2011/v16n2/a2068.pdf

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