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O fracasso da imunidade de grupo por infecção | Colunistas

O fracasso da imunidade de grupo por infecção | Colunistas

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Com a persistência da pandemia do novo Coronavírus (SARS-CoV-2) no ano de 2021, cresce também a pressão de setores da sociedade por ações do Estado, frequentemente, com o intuito de manter estabelecimentos abertos.

É inegável o impacto da Covid-19 na economia, observado, no Brasil, tanto na diminuição de 4,1% do PIB, o maior recuo anual desde 1996, quanto no aumento de 1,5% na taxa de desemprego. Assim, não faltam motivos para a população querer acreditar em uma saída como a imunidade de grupo por infecção: ganha a economia, ganha a saúde. Uma resposta simples – e errada.

Ainda estamos longe do limiar de imunidade de grupo

Número básico de reprodução (R0) e limiar de imunidade de grupo

Imunidade de grupo (ou de rebanho) é um termo que se refere à proteção indireta de indivíduos suscetíveis quando uma parcela suficiente da população está imune. A explicação para esse fenômeno é que a probabilidade de um indivíduo infectado ter contato com outros suscetíveis, como grupos imunodeprimidos, torna-se menor se tantas pessoas estão imunes. Essa imunização pode decorrer de uma vacina ou de uma infecção natural, sendo esse último cenário o objeto deste texto.

Embora apelativa e muito disseminada, a ideia de imunidade de rebanho esbarra em questões fundamentais, como a necessidade de se atingir uma percentagem mínima de infectados de um vírus desconhecido e mortal. Para você entender essa problemática, é preciso, primeiramente, compreender o que são número básico de reprodução (R0) e limiar de imunidade de grupo.

O número básico de reprodução corresponde ao número médio de casos gerados a partir de um único caso, numa população completamente suscetível. Por exemplo, estimava-se, no início da pandemia, em Wuhan, China, que uma pessoa contaminada com SARS-CoV-2 transmitia o vírus para aproximadamente 2.2 outras pessoas, logo, o R0 do novo Coronavírus seria 2.2. Hoje, mesmo com o avanço das pesquisas sobre o vírus, ainda é incerto o número. Há grandes variações entre os R0 estimados, chegando até 5.7.

Você pode perguntar: e qual a importância disso para a imunização coletiva?

A partir do R0, é possível estimarmos a percentagem necessária de imunizados para se atingir o limiar de imunidade de rebanho. Quanto maior o R0, mais pessoas podem adquirir o vírus, logo, maior a parcela da população que precisa ser imunizada. No caso do novo Coronavírus, por exemplo, Randolph e Barreiro (2020) estimaram um percentual de 67% de imunizados para um R0 = 3. Mesmo sendo um modelo com simplificações, ele é de grande valia para que você entenda o problema de uma imunidade de grupo por infecção.

Imunidade de grupo por infecção implica mais mortes

Segundo Pollán et al (2020), em estudo nacional espanhol entre abril e maio de 2020, a população da Espanha apresentava cerca de 5% de prevalência de anticorpos IgG, mesmo sendo um dos países europeus mais atingidos pela pandemia. Para você entender a magnitude desse dado, de acordo com a OMS, houve 231668 casos oficiais e 27386 óbitos por COVID-19 naquele país até 9 de maio de 2020, pouco antes do último dia de coleta de dados do estudo.

Como os próprios autores afirmam, isso significa que muito mais pessoas morreriam para ser atingida uma imunidade de rebanho – além de resultar na sobrecarga do sistema de saúde. Portanto, a defesa dessa “estratégia” de combate ao Coronavírus é também a defesa da morte de centenas de milhares de brasileiros.

O colapso do sistema de saúde

Desde o início da pandemia, sabe-se que a relação entre mortes e quantidade de casos de SARS-CoV-2 não é alta. No entanto, a alta transmissibilidade de um vírus novo, para o qual não tínhamos resposta imune, bem como diversas de suas manifestações clínicas que necessitam de cuidado hospitalar, como falta de ar e risco de eventos trombóticos, anunciavam o risco do colapso do sistema de saúde.

A necessidade de equipamentos de ventilação assistida, a ocupação de leitos gerais e de UTI, o contágio de profissionais de saúde. Com o sistema sobrecarregado, seria inevitável o aumento no número de mortos durante a pandemia por falta de assistência médica. Embora esse risco fosse comum a vários países, o Brasil, por não realizar medidas como lockdown e testagem em massa, teve mais de 10 milhões de casos confirmados e 250 mil óbitos oficiais até março de 2021.

Em maio de 2020, Noronha et al (2020) já alertava que, em um cenário com taxa de infecção maior do que 1% em um mês, 97% das macrorregiões teriam seu atendimento comprometido por falta de aparelhos de ventilação mecânica, e todas estariam operando acima de sua capacidade de leitos de UTI. Afirmava, também, que conter a propagação seria fundamental para aliviar a pressão sobre o sistema de saúde e permitiria um tempo maior para a reorganização da oferta. O país não agiu e, hoje, você pode ver pessoas morrerem por falta de respiradores no Amazonas.

Figura 1: Tendências de mortes por COVID-19, antes e depois de medidas de isolamento social (em azul), em São Luís, Recife, Belém e Fortaleza.
Fonte: SILVA, et al (2020). The effect of lockdown on the COVID-19 epidemic in Brazil: evidence from an interrupted time series design. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro,  v. 36, n. 10,  e00213920,    2020.

Em contraste com as tentativas de fomentar a imunidade de grupo, que tornaram o Brasil epicentro mundial da COVID-19, as medidas de isolamento social foram responsáveis pela diminuição do número de óbitos pelo vírus, como você pode ver na Figura 1. Silva et al (2020) afirma que o isolamento tornou tendências de mortes positivas em negativas em São Luís, Recife, Belém e Fortaleza.

Reinfecção

Embora você já tenha razões demais com os dois primeiros pontos para descreditar uma imunidade de grupo por infecção, saiba que ainda piora: não há prova de que os infectados estejam imunes. Pelo contrário, sabe-se que há inúmeros casos de reinfecção. De acordo com Yuan et al (2020), 14.5% dos pacientes de COVID-19 dispensados de um hospital em Shenzhen, China, retornaram com exames RT-PCR positivos.

O SARS-CoV-2 é um vírus novo. Tomar ações que causaram a morte de milhares de pessoas baseadas apenas na suposição de uma imunidade coletiva foi criminoso. Mais criminoso ainda é continuar defendendo essa ideia insustentável, já que a imunidade individual é pedra angular para a hipótese.

Novas variantes

A imunidade de grupo por infecção não é uma opção, por fim, pelas variantes apresentadas pelo SARS-CoV-2, que aparentam evadir da imunidade gerada por infecções prévias.

Em outubro de 2020, um estudo com doadores de sangue indicou que 76% da população de Manaus já havia sido infectada pelo Coronavírus, segundo Sabino et al (2021). Você deve ter percebido que o número é maior do que o já citado limiar de imunidade de grupo, que corresponderia a 67% da população. Foi inesperado e preocupante, portanto, o aumento do número de casos na capital amazonense em janeiro de 2021.

Já era sabido que o SARS-CoV-2 apresenta variantes, vide a descoberta no Reino Unido, atualmente chamada de B.1.1.7. Mas, no dia 12 de janeiro de 2021, em Manaus, descobriu-se a nova variante P.1. Essa variante talvez tenha maior transmissibilidade em relação àquelas que já circulavam em Manaus, com a possibilidade de ser produto do contágio indiscriminado da população.

Na Figura 2, você pode notar o período compreendido de março de 2020 a janeiro de 2021 e o fracasso ilustrado da imunidade de grupo por infecção.

Figura 2: hospitalizações COVID-19, excesso de mortes e Rt em Manaus, Brasil, 2020–21. As linhas escuras são as médias contínuas de 7 dias e as linhas mais claras são as séries temporais diárias de hospitalizações COVID-19 e excesso de mortes. Os dados de internação são da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas. Total de todas as causas mortes para 2020-21 foram relatadas inicialmente pela Prefeitura de Manaus e posteriormente no COVID-19 diário boletim da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas. As mortes por todas as causas de 2019 foram de Arpen / AM. Os dados de morte em excesso compilados são de Bruce Nelson, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
Fonte: Sabino et al (2021). Resurgence of COVID-19 in Manaus, Brazil, despite high seroprevalence. The Lancet. 6 de fevereiro de 2021.

Conclusão

O argumento de que é possível atingirmos a imunidade de grupo por infecção, nesse momento, é insustentável e antiético. Cidades como Manaus foram laboratórios desse cenário de doença e morte, que agora perdura há mais de um ano. Se há gente morrendo por falta de oxigênio e de leito, é porque o sistema de saúde já colapsou.

Por mais que tentem, leitor, não há como ignorar as evidências científicas. A reinfecção existe, as novas variantes existem, e parte do mundo – especificamente o Brasil – paga pelo descaso de seus gestores e de sua população. A imunidade de rebanho só pode ser atingida através da vacinação.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

NORONHA, Kenya Valeria Micaela de Souza et al . Pandemia por COVID-19 no Brasil: análise da demanda e da oferta de leitos hospitalares e equipamentos de ventilação assistida segundo diferentes cenários. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro ,  v. 36, n. 6,  e00115320,    2020 .   Available from . access on  03  Mar.  2021.  Epub June 17, 2020.  https://doi.org/10.1590/0102-311×00115320.

POLLÁN et al. Prevalence of SARS-CoV-2 in Spain (ENE-COVID):

a nationwide, population-based seroepidemiological study. The Lancet, vol.396. 22 de agosto de 2020.

RANDOLPH, Haley A; BARREIRO, Luis B. Herd Immunity: Understanding COVID-19. Immunity 52. Elsevier 19 de maio de 2020.

SABINO et al. Resurgence of COVID-19 in Manaus, Brazil, despite high seroprevalence. The Lancet. 6 de fevereiro de 2021.

SILVA, Lucas; FIGUEIREDO FILHO, Dalson; FERNANDES, Antônio. The effect of lockdown on the COVID-19 epidemic in Brazil: evidence from an interrupted time series design.Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro ,  v. 36, n. 10,  e00213920,    2020 .   Available from . access on  03  Mar.  2021.  Epub Oct 19, 2020.  http://dx.doi.org/10.1590/0102-311×00213920.

WHO Coronavirus (COVID 19) Dashboard. Acesso em < https://covid19.who.int/table > em 05/03/2021.

YUAN et al. PCR Assays Turned Positive in 25 Discharged COVID-19 Patients. Clin Infect Dis 2020. https://doi.org/10.1093/cid/ciaa398

Live 02/03/21 – À beira do colapso. Átila Iamarino. https://www.youtube.com/watch?v=9c8zYkJ8gBk . Acesso em 02/03/2021.

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55835790#:~:text=O%20FMI%20estima%20que%20a,4%2C4%25%20em%202020.&text=A%20%C3%BAnica%20grande%20economia%20a,8%2C2%25%2C%20respectivamente.

https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/03/apos-tombo-do-pib-ministerio-da-economia-diz-que-incertezas-seguem-elevadas-e-que-vacinacao-possibilitara-melhora.ghtml

https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/guerra-comercial-e-imunizacao-de-rebanho-a-economia-da-morte-do-governo-bolsona/

https://www.who.int/news-room/q-a-detail/herd-immunity-lockdowns-and-covid-19

https://www.healthknowledge.org.uk/public-health-textbook/research-methods/1a-epidemiology/epidemic-theory

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/05/07/familias-denunciam-que-pacientes-com-covid-19-morreram-por-falta-de-respiradores-em-hospital-de-manaus.ghtml

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/03/02/amazonas-ultrapassa-triste-marca-de-11-mil-mortes-por-covid.ghtml