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O que a pandemia de covid-19 nos ensinou sobre saúde mental | Colunsitas

O que a pandemia de covid-19 nos ensinou sobre saúde mental | Colunsitas

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Dayane de Aquino Cipriano

13 min há 7 dias

 A pandemia não só mostrou o quanto somos seres extremamente frágeis e sensíveis, como também escancarou algo que a humanidade sempre negligenciou, jogando para debaixo do tapete ou, ainda, ridicularizando: a importância da Saúde Mental e a necessidade de falarmos sobre isso.

Fazendo uma viagem ao tempo podemos ver o que nos levou a ser tão negligentes com algo que, se não está em pleno funcionamento, afeta diretamente todas as outras funções do nosso corpo: nossa Mente. Sabe a famosa frase “Mente sã, corpo são”? Então, muito mais do que slogam de clínicas de meditação, academias, spa etc, ela é tão verdadeira quanto dois mais dois são quatro, na matemática, pois na medicina sabemos que nem sempre é assim.

Nos últimos meses temos ouvido falar de saúde mental como nunca antes. O motivo? A pandemia de COVID-19. Foi necessário uma pandemia, um impacto em escala mundial para darmos atenção a algo que há séculos tem sido causa de adoecimento nos seres humanos ao redor de todo o mundo, mas que ainda enfrenta desafios como mitos e tabus.

E justamente devido a esses mitos e tabus que não nos demos conta de que, paralelamente à pandemia de COVID-19, estamos vivendo uma outra: a do adoecimento psíquico. Os impactos do vírus na saúde mental foram tão gritantes que será impossível manter os olhos fechados frente a essa questão daqui em diante. No mundo todo, corriqueiramente, saem artigos e mais artigos relacionando a pandemia do Coronavírus com o adoecimento mental. Diversos países já perceberam sua população tendo um maior adoecimento da mente e estão tendo que lidar com os impactos negativos causados por ele. A grande maioria das pessoas foi afetada em algum grau, porém, notou-se uma gravidade dos sintomas mentais nas pessoas que faziam e fazem parte do grupo de risco para o vírus.

Como aprendemos a negligenciar a saúde mental?

 Foi na Antiguidade grega e romana que a loucura foi inicialmente relatada como fenômeno. Juntamente com outras doenças psicológicas foi classificada como práticas mitológicas e manifestações sobrenaturais que eram motivadas por deuses e demônios.

Na época da inquisição, a loucura era entendida como expressão do sobrenatural, demoníaco e satânico e considerada como expressão de bruxaria e seu, o que era chamado tratamento, se dava pela perseguição aos doentes, como acontecia com os hereges. Além disso, os portadores de transtornos psiquiátricos eram vistos pela igreja do mesmo modo como os leprosos. E por anos foram colocados nos mesmos locais, os leprosários, e tratados como seres inferiores e indignos de respeito e acolhimento.

Na época Renascentista, os loucos eram entregues aos marinheiros, sendo jogados rio abaixo, como cargas, pois era a certeza de que eles iriam para longe e não ficariam vagando pelas cidades.

Em meados do século XVII, foram criados, em território europeu, os primeiros locais destinados para a internação dos que eram considerados loucos. Esses lugares eram, na verdade, cárceres, que aprisionavam indivíduos com diferentes tipos de doença e situação, como  portadores de doenças venéreas, mendigos, vagabundos, libertinos, bandidos, eclesiásticos em infração etc, todos aqueles que, em relação à ordem da razão, da moral e da sociedade, demonstravam fonte de desordem e desorganização moral.

No final do século XVIII, a internação dos ditos loucos continuava sendo algo comum, pois era vista como uma das únicas formas de solucionar o que era considerado um problema pela sociedade. Porém, esses locais abrigavam as pessoas de maneira totalmente inadequada. Os doentes eram aglomerados e agrupados sem espaço e sem as mínimas condições de higiene e etc. Os cuidados médicos não eram vistos como algo necessário, logo, eram negligenciados. Além disso, acreditava-se que existia um “mal” e a “febre das prisões” em locais fechados e ocupados pelos enfermos dos hospitais, fazendo com que médicos não aceitassem levar assistência aos que se encontravam internados, pois temiam o contágio.

Somado a todas essas questões, o louco era visto como um animal, sendo, então, desprovido de sua racionalidade, de sua fragilidade humana e de sensibilidade à dor física. Assim como a animalidade, a loucura era sinal de humilhação e sofrimento.

Os loucos que, aparentemente eram mais furiosos, eram expostos como animais ao público e também levados para as lavouras para substituir as bestas de carga.

Consequentemente, os loucos não requerem proteção. Como os animais, eles receberam da natureza o dom da invulnerabilidade. Nesse sentido, eles não precisam ser curados (a loucura não é doença), nem corrigidos (ela não é desvio). Para ser dominada, a loucura deve ser domesticada e embrutecida, pois a sua natureza é diferente da natureza do homem.

No  final do século XVIII, também, a loucura passou a ser vista como ausência de liberdade, e o ato de aprisionar os loucos repressivamente contribuía, apenas, para aumentar sua loucura. Sendo assim, o ato de internar deixou de almejar a repressão e passou a buscar a libertação, o que, a princípio, contribuiu para o fim do internamento e o surgimento dos asilos.

A humanidade se desenvolveu pautada nessas crenças. Entender que a saúde mental faz parte do indivíduo e requer cuidado assim como a saúde física, é um grande desafio, tanto para os leigos quanto para os profissionais de saúde. Porém, se a pandemia do Coronavírus trouxe aprendizados, com certeza um deles foi a importância de voltar o olhar para a mente e seu funcionamento, que é tão complexo.

Simone Biles e o ensinamento sobre saúde mental

Como dito anteriormente, a pandemia chacoalhou o planeta para a pauta da saúde mental. Nas Olimpíadas de Tóquio, Simone Biles completou o recado ao decidir deixar de participar da tão sonhada e esperada (por ela e por muitos) final olímpica para cuidar de sua saúde mental, gerando um misto de sentimentos em sua nação tão competitiva e no resto do mundo.

De um lado, aqueles que não entendem que, ao fazer isso, Simone não optou apenas por um descanso temporário da mente, mas pela sua saúde física, seu futuro e, o mais importante, sua vida. Do outro lado temos aqueles que, se não a admiravam, passaram a fazê-lo, e quem já tinha admiração, bem provável que passou a ter ainda mais.

Quantas milhares de pessoas, principalmente pelo momento em que ainda estamos vivendo, não devem ter se visto em Simone? Quantas milhares de pessoas não devem ter desejado apenas um dia de “descanso temporário da mente”? Mas quantas milhares de pessoas puderam “desistir da final” como Biles fez? E quantas não puderam fazer isso, pois nem sequer conseguiram identificar que estavam doentes, ou porque tiveram suas queixas negligenciadas por familiares, amigos, chefes…?

 O preconceito com pessoas que enfrentam transtornos mentais não ficou lá na Antiguidade grega, romana, na época Renascentista, nos séculos XVII e XVIII. Ainda hoje, o médico psiquiatra é visto por muitos, inclusive por colegas médicos, como médico de louco. E os “loucos” ainda são vistos sob uma ótica extremamente pejorativa, e seus transtornos, que são patológicos, não são tidos como doença. Logo, seus tratamentos ficam negligenciados.

Novamente digo: foi necessário uma pandemia para entendermos que nossa mente precisa de cuidado constante. Foi necessário ficarmos trancafiados para percebermos que o trancafiamento, na grande maioria das vezes, contribui para a piora do quadro do doente psiquiátrico. Foi preciso um estrago causado por um vírus para que nações entendessem que se sua população não estiver psiquicamente saudável, ela, além de não desenvolver, pode ruir. Foi necessário uma tragédia para que o ser humano, que é um todo (mente e físico) pudesse finalmente ser visto como um todo e tratado como tal.

Níveis de gravidade dos sintomas depressivos entre grupos de risco no Reino Unido durante a pandemia de COVID-19

O Reino Unido, país que, como a maioria, por décadas e décadas tratou seus pacientes psiquiátricos como seres inferiores, na pandemia de COVID-19, foi uma das nações que sentiu o grande impacto do adoecimento mental em sua população e viu a importância de se falar mais desse assunto.

O contexto pandêmico e as medidas de controle que são estabelecidas, afetam a população de diversas maneiras, uma delas, que é muito significativa, é a saúde mental.

É reconhecido que os transtornos mentais, sofrimento psíquico, alterações do sono, entre outros, influenciam direta e negativamente no dia a dia e na qualidade de vida e saúde das pessoas e contribuem com uma porcentagem considerável de anos vividos com inabilidades.

Transtornos mentais tendem a agravar ou instituir fatores de risco para patologias crônicas e virais, e ainda influenciam a adesão de comportamentos relacionados à saúde. Durante epidemias e isolamento social, esses quadros podem iniciar ou aumentar.

Uma revisão realizada por Brooks et al., sobre pesquisas que observaram o efeito psicológico da quarentena em pandemias anteriores, relata que a grande maioria dos estudos constatou efeitos psicológicos negativos, sendo os principais fatores estressantes a duração da quarentena, o medo de infecção, os sentimentos de frustração e de aborrecimento, a informação inadequada sobre a doença e seus cuidados, as perdas financeiras e o estigma da doença.

Os estudos realizados relataram a ocorrência, nos indivíduos em quarentena, de sintomas psicológicos, distúrbios emocionais, depressão, estresse, humor depressivo, irritabilidade, insônia e sintomas de estresse pós-traumático. Outros aspectos vistos como estressores são as condições bastante concretas de falta de alimentos, de recursos financeiros e de mediação para outras doenças. Estes aspectos, somados ao fato de que pessoas do grupo de risco são as que mais precisam respeitar a quarentena, fazem com que este grupo apresente maiores prevalências de depressão e de ansiedade.

A grande importância dos aspectos emocionais durante momentos epidêmicos tem conduzido autores a identificar, concomitantemente à pandemia de COVID-19, uma “pandemia do medo” ou a “coronafobia”.

No Reino Unido, os principais resultados apresentados pela adoção de medidas de isolamento evidenciaram que 56,5% dos entrevistados evitaram áreas lotadas, e 54,5% evitaram eventos sociais. A adoção de medidas de distanciamento social foi maior naqueles indivíduos com mais de 70 anos, em comparação com os adultos mais jovens de 18 a 34 anos; pessoas com renda familiar mais baixa apresentaram seis vezes menos probabilidade de conseguir trabalhar em casa e três vezes menos probabilidade de conseguirem se isolar. A capacidade de isolar-se também foi menor em grupos étnicos negros, porém, em ambos os grupos entrevistados, houve um desejo individual para o isolamento social e a compreensão do motivo deste isolamento (Atchimson et al., 2020). Duarte et al, (2020) indicaram que ter renda diminuída no período, fazer parte do grupo de risco e estar mais exposto a informações sobre mortos e infectados são fatores que podem provocar maior prejuízo na saúde mental neste período de pandemia. Investigar os determinantes sociais que contribuem para a maior vulnerabilidade ao adoecimento mental da população é importante no campo da saúde coletiva para o planejamento de ações e políticas públicas.

Considerações finais 

É fato que o mundo jamais será o mesmo de antes da pandemia de COVID-19. O planeta foi posto à prova por um microrganismo de dimensões microscópicas, que, ao mesmo tempo em que causou devastação, dor, angústia, medo e sofrimento, deixou lições que provavelmente levariam décadas para serem ensinadas à humanidade.

O que, por séculos foi visto de forma pejorativa e negligenciado, a pandemia evidenciou, deixando o recado que todos os seres humanos precisavam ouvir: a saúde mental é tão importante quanto a saúde física. Talvez, seja até mais, pois se a mente não estiver sã, o corpo também não estará.

Como atuais e/ou futuros profissionais da saúde, é importante sempre levarmos conosco o fato de que o ser humano é completo, um todo. Não importa a especialidade que você seguiu ou seguirá. Tratar o corpo sem se atentar à mente, poderá, muitas vezes, levar a um resultado insatisfatório ou até mesmo a uma não adesão ao tratamento, uma remissão dos sintomas ou, ainda, uma piora do quadro do paciente.

Além disso, é de suma importância que olhemos de forma igual para todas as especialidades médicas, entendendo que não existe, portanto, uma especialidade melhor que a outra, pois o objetivo é todos trabalharmos juntos em prol da melhora do quadro e da qualidade de vida dos nossos pacientes.

Por hoje é só, gente! Espero que tenham gostado! Nos vemos no próximo texto! Beijinhos científicos!

Autora: Dayane de Aquino Cipriano

Instagram: @_medicinercomtdah

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

BARROS, Marilisa Berti de Azevedo et al . Relato de tristeza/depressão, nervosismo/ansiedade e problemas de sono na população adulta brasileira durante a pandemia de COVID-19. Epidemiol. Serv. Saúde,  Brasília ,  v. 29, n. 4,  e2020427,  set.  2020 .   Disponível em . acessos em  06  set.  2021.  Epub 20-Ago-2020.

MILLANI, Helena de Fátima Bernardes; VALENTE, Maria Luisa L. de Castro. O caminho da loucura e a transformação da assistência aos portadores de sofrimento mental. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.),  Ribeirão Preto ,  v. 4, n. 2, ago.  2008 .   Disponível em . acessos em  06  set.  2021.

Pereira J F. O que é Loucura. São Paulo: Brasiliense; 1985.

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