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O que é o vírus Mayaro: sintomas, transmissão, prevenção e tratamento | Colunistas

aspectos importantes que todo clínico precisa saber

Introdução

O manejo de casos de arboviroses é rotina comum da prática médica. Estas estão intimamente ligadas à dinâmica populacional e possuem uma grande relação com aspectos socioculturais e econômicos da população (SÃO PAULO, 2017).

O termo “arboviroses” envolve todas as doenças que causadas por arbovírus, ou seja, aqueles que são transmitidos por artrópodes como mosquitos, carrapatos, aranhas, dentre outros. Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), há 545 espécies de arboviroses catalogadas, sendo que 150 delas possuem potencial de causar doenças em humanos. As formas de transmissão e sintomatologia clínica são bastante parecidas, o que torna um desafio para o médico realizar o diagnóstico diferencial apenas pela clínica, sendo necessário, muitas vezes, recorrer a testes laboratoriais a fim de realizar um diagnóstico específico (BRASIL, s.d.).

O vírus Mayaro (MAYV) é um arbovírus do gênero Alphavirus e da família Togaviridae, mesma família do vírus transmissor da Chicungunya, o que explica a sintomatologia bastante parecida entre as duas doenças. É um vírus RNAss de polaridade positiva, envelopado, de capsídeo icosaédrico e que possui de 65-70nm de comprimento (FONTANA, 2017). O vírus foi isolado pela primeira vez na República de Trinidad e Tobago na América Central, numa cidade chamada Mayaro (daí o seu nome), no ano de 1954. Ele foi descrito pela primeira vez no Brasil no ano de 1955, próximo a Belém no Pará, às margens do rio Guamá (BRASIL, s.d.).

Atualmente, têm-se casos esporádicos detectados principalmente na região Amazônica e em estados nas regiões Norte e Centro Oeste, predominando em regiões rurais. Há casos de surtos relatados no Pará em uma comunidade de Pedreiras no rio Guamá, Belterra, vila rural de seringueira, Conceição do Araguaia e Benevides. Outros estados que também tiveram casos relatados foram: Goiás (Itaruma), Tocantins (Peixe), em São Paulo e provavelmente no Mato Grosso, tendo em vista que anticorpos específicos contra o MAYV foram identificados em índios Xavantes (COIMBRA, 2007).

Aspectos clínicos e diagnóstico

O quadro clínico dessa patologia se inicia, geralmente, cerca de 1 a 3 dias após o indivíduo ser infectado, e a resposta depende bastante do seu estado imunológico. Ele se inicia como uma síndrome febril aguda e inespecífica, geralmente de curta duração, podendo ser acompanhada de calafrios. O paciente também pode apresentar: cefaleia, mialgia, artralgia persistente, que pode se transformar em artralgia dos pulsos, tornozelo, dedos dos pés e outras articulações, sendo que geralmente são acompanhadas de inchaço local, exantemas, fotofobia, conjuntivite, tontura, náuseas e inchaço em articulações, diarreia e vômitos (BRUNA, s.d.; CORTEZ, 2003).

Devido à sua sintomatologia bastante inespecífica, há certa dificuldade para se realizar o diagnóstico correto, além de muitos casos serem diagnosticados de forma errônea ou até mesmo serem subdiagnosticados.

Como complicações mais frequentes, pode-se citar o desenvolvimento de artrites crônicas, miocardites, encefalites, Síndrome de Guillain-Barré, dentre outras complicações neurológicas. Porém são bem poucos os números de casos relatados em que essas complicações ocorreram, mas são de suma importância serem abordados, tendo em vista o grau de mortalidade elevado que as acompanha.

O diagnóstico laboratorial se dá por meio de isolamento e pesquisa do genoma viral, caso haja viremia até cerca de 5 dias após início dos sintomas. Se houver passado os 5 dias, pode-se diagnosticar por meio de exames sorológicos e, em casos de óbito, pela pesquisa histopatológica em tecidos.

Trasmissão

O MAYV é transmitido principalmente por mosquitos silvestres, sobretudo das espécies Haemagogus janthinomys, Culex, Sabethes, Psorophora, Coquillettidia, Aedes aegypti e Aedes albopictus.  Pássaros, marsupiais, xenathras (que inclui tatus, preguiças e tamanduás), roedores e primatas são considerados hospedeiros potenciais, e o ser humano é considerado como um hospedeiro acidental do vírus. Micos do gênero Callithrix são considerados hospedeiros amplificadores, devido à alta viremia que eles apresentam que os torna uma espécie de ‘abastecimento’ dos vetores.

Apesar de atualmente ser mais prevalente em regiões rurais, devido à sua capacidade comprovada laboratorialmente de ser transmitida pelo Aedes aegypti, há a possibilidade de transmissão viral dentro do meio urbano, com o homem como hospedeiro principal. Devido a isso, o vírus deve ser visto com atenção pelo médico clínico, pois possui a capacidade de se tornar, no futuro, uma ameaça direta à saúde pública (BRASIL, s.d.).

A transmissão se dá quando o mosquito pica um animal infectado e se contamina com o MAYV, que completa o ciclo reprodutivo no organismo do inseto até estar pronto para transmiti-lo por meio de sua saliva para outros animais saudáveis.

Fonte: https://agencia.fiocruz.br/sites/agencia.fiocruz.br/files/revistaManguinhosMateriaPdf/ARotadoVirusMayaro.pdf

Tratamento

Não há um tratamento específico para o MAYV. O médico deverá tratar seu paciente com sintomáticos, como analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios. Medicamentos que agem diretamente sobre a cascata de coagulação e agregação plaquetária, como o Ácido acetilsalicílico (AAS) e a aspirina, deverão ser evitados, tendo em vista que podem agravar ainda mais quadros hemorrágicos que o paciente possa desenvolver com a doença. No geral, ela é autolimitada e tende a cessarem seus sintomas em cerca de uma semana.

Alguns estudos recentes mostraram uma capacidade significativa de ação de sais imidazólicos frente aos vírus Mayaro e Zika, porém em algumas concentrações apresentou inibição da replicação viral de apenas 10,8%, sendo ainda fruto de estudos futuros (ZANCHETTI, 2018). O anel imidazólico presente na composição desses derivados possui comprovado poder antiviral e sobre outros agentes biológicos.

Considerações Finais

Portanto, devido às características tropicais do Brasil, à existência de grandes centros urbanos e à potencialidade do vírus Mayaro de infectar mosquitos presentes nessas áreas, o MAYV torna-se um agressor de importância para a saúde pública. Devido a isso, o conhecimento da história natural dessa patologia pelo médico clínico e de sua abordagem nos diversos níveis de atenção contribuem diretamente para o controle, a erradicação e a prevenção da ocorrência de surtos e epidemias.


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Referências

  1. ARBOVIROSES. Direção: Rafael Figueiredo. Produção: Christovão Paiva. Roteiro: Marcela Morato. Rio de Janeiro: Canal Saúde Fiocruz, 2017, 1 vídeo, MPEG-4, (26min38s), son., color. (Ligado em Saúde).
  2. BRASIL. Ministério da saúde. Descrição da doença - Arbovirus: Mayaro. Portal do governo brasileiro, 2013/2019. [s.d.] Disponível em: . Acesso em: 10/09/2019
  3. BRUNA, Maria Helena Varella. DOENÇAS E SINTOMAS - Febre do Mayaro. Drauzio Varella - Informação sobre saúde para todos. [s.l.], [s.d.]. Disponível em: Acessado em: 10/09/2019
  4. COIMBRA, Terezinha Lisieux M. et al . Vírus Mayaro: casos importados de infecção humana no Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, São Paulo , v. 49, n. 4, p. 221-224, Aug. 2007
  5. CORTEZ, Letícia Pereira; BURLANDY, Fernanda Marcicano; REBELLO, Moacyr Alcoforado. Efeito da tunicamicina sobre a replicacao do vírus Mayaro em células de Aedes albopictus. Rev Ciênc Méd Biol, v. 1, p. 5-11, 2003.
  6. FONTANA, Marcela et al. Desenvolvimento e padronização de ensaio molecular para a detecção de vírus Mayaro. In: SEMINÁRIO ANUAL CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO DE BIO-MANGUINHOS, 5., 2017, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Bio-Manguinhos, 2017.
  7. SÃO PAULO. Grupo Técnico Arboviroses (GTA/CCD/SES-SP). Diretrizes para a prevenção e controle das arboviroses urbanas no estado de São Paulo. São Paulo, 2017.
  8. ZANCHETTI, Joana de Conto. Síntese de novos sais imidazólicos com potencial atividade antiviral frente aos vírus Mayaro e Zika. 2018. Disponível em: Acessado em 10/09/2019
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