A COVID-19 é um tema amplamente discutido, principalmente em relação aos pacientes que são considerados integrantes do grupo de risco em virtude de alguma comorbidade. A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo e é considerada pela OMS como uma das comorbidades que podem levar o paciente com COVID-19 a óbito, assim como a hipertensão e a diabetes. A asma possui alguns gatilhos amplamente conhecidos, como ácaros, fungos e pólens. Essa doença não tem cura e certas infecções virais parecem piorar os sintomas, como a gripe.
A asma e o grupo de risco
A infecção viral por SARS-CoV-2 possui variadas formas de apresentação, que variam desde uma resposta assintomática a uma resposta potencialmente grave e fatal. A COVID-19 afeta o trato respiratório, assim como outros vírus. Como dito anteriormente, infecções virais parecem piorar os sintomas da asma, o que motivou organizações de saúde a considerar os portadores da asma como um potencial grupo de risco para formas mais graves da infecção. Todavia, as pesquisas realizadas, desde o aparecimento do SARS-CoV-2 na China, não indicam uma relação entre a asma e um maior risco de infecção pelo vírus ou do agravamento da infecção em decorrência dessa doença crônica.
Asmáticos são mais suscetíveis à infecção pelo vírus?
O vírus causador da COVID-19 é transmitido por via respiratória e a sua entrada nas células depende da ligação de uma proteína S (spike) à enzima conversora de angiotensina 2, a ECA2. Essa enzima está presente principalmente no trato respiratório e possui função protetora em situações inflamatórias, atuando na redução da inflamação das vias aéreas, por exemplo. Uma análise dos estudos até o momento mostra que a expressão dessa enzima é maior em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica e que a expressão foi menor em pacientes com asma que realizam tratamento com corticosteroides inalados.
O ambiente inflamatório dos brônquios em função da asma parece levar a uma redução da ECA2, o que de certa forma pode ser interpretado como um fator protetivo à infecção, embora sejam necessários mais estudos para a confirmação efetiva dessa tese. Além disso, uma citocina específica que recruta eosinófilos para o epitélio brônquico, a interleucina-13, parece contribuir ainda mais para a redução da ECA2, o que reduz a porta de entrada para o vírus nas células humanas. Quando estão em excesso, os eosinófilos podem causar inflamação e inchaço nas vias aéreas e no sistema respiratório, causando a asma eosinofílica.
No geral, pacientes asmáticos possuem uma resposta viral deficitária, entretanto, não há dados que determinem que os pacientes asmáticos sejam mais suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2 especificamente.
O SARS-CoV-2 “piora” a asma?
No geral, as infecções do trato respiratório desencadeiam uma exacerbação da asma, entretanto, não há pesquisas específicas sobre o vírus da COVID-19 e essa “piora” na doença. O que se sabe é que fatores já existentes da doença, como a inflamação brônquica não controlada, podem desencadear uma resposta exagerada a alguns vírus. Pacientes infectados pelo SARS-CoV-2 que possuíam asma não controlada tendem a ter reações exageradas, mas ainda assim não é via de regra. Isso porque, entre os sintomas que são descritos com frequência como manifestações clínicas da COVID-19 destacam-se a febre, a tosse e a dispneia. Os sinais característicos da asma como broncoespasmo (fechamento e inchaço nas pequenas vias aéreas) e tempo expiratório aumentado foram raramente descritos nas atuais pesquisas feitas, até mesmo em pessoas asmáticas. Aparentemente, a doença poupa os brônquios (afetados na asma) e afeta o parênquima pulmonar, o que não causa obstrução.
O tratamento para a asma pode ser continuado?
Embora alguns estudos indiquem que os corticosteroides inalados (ICS) aumentam o tempo de infecção do trato respiratório, não existem dados que indiquem que o tratamento com ICS deixe o indivíduo mais suscetível à infecção por SARS-CoV-2 ou piore a condição daqueles que contraíram a doença.
Em linhas gerais, as atuais pesquisas sobre asma e COVID-19 ainda são poucas e não conseguem definir qual o real impacto da doença nos pacientes asmáticos, pois isso depende de outros fatores como idade, gravidade da doença, entre outros. Além disso, fatores epidemiológicos como diferentes porcentagens de asmáticos nos países produtores das pesquisas referidas também podem influenciar nos resultados. Diante disso, nota-se que a manutenção de um tratamento adequado da asma é fundamental para evitar complicações da COVID-19. Por isso, fique em casa e se proteja!
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Referências:
http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0871-97212020000200003⟨=pt
https://aacijournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13223-020-00509-y