Medicina Preventiva

O que todo médico e futuro médico deve saber sobre cuidados paliativos | Colunistas

O que todo médico e futuro médico deve saber sobre cuidados paliativos | Colunistas

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Os cuidados paliativos têm sua origem ainda muito recente, na década de 1960 no Reino Unido, pelas mãos de Dame Cicely Saunders, uma médica, enfermeira  e assistente social britânica, cuja história é muito interessante (nas referências se encontra o link para sua bibliografia no site oficial da Instituição que recebe seu nome). Apenas em 1990 a OMS definiu seus conceitos e princípios, recomendando a sua prática.

Sendo um recente conhecido para a realidade médica e por estar relacionado com um assunto que ainda é tabu para a sociedade – o fim da vida, trago para você neste artigo pontos essenciais que você deve saber sobre esta arte de assistir o paciente – e não só ele, como veremos – no seu momento de maior fragilidade. Vamos lá?

Pequeno histórico e definição

Em 1967, a senhora Cicely Saunders, que tinha uma base humanista, fundou “St. Christopher’s Hospice”, com o financiamento de um paciente em estado paliativo para o qual prestou cuidados. Surge assim uma nova forma de se enxergar o que deve-se ser feito com um paciente quando este chega em um estágio impossibilitante de cura. Suas ideias se propagaram principalmente para os Estados Unidos e Canadá.

Em 1982 ocorre o primeiro evento de ordem mundial para a discussão das melhores formas para se oferecer alívio e cuidado a pacientes com câncer, propostos pelo Comitê de Câncer da Organização Mundial de Saúde-OMS. Como já mencionado, em 1990 a OMS dá a definição para cuidados paliativos, revisada em 2002:

 “Abordagem que promove a qualidade de vida a pacientes, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida e seus familiares, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, necessitando de identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.”

Como dar a má notícia

Antes de continuarmos entrando no mundo dos cuidados paliativos, é essencial falarmos da comunicação de más notícias, posto que esta é chave fundamental e primeiro contato do paciente com sua nova realidade. Falarei de forma resumida por não ser o maior foco do artigo. Me basearei no protocolo SPIKES (você também vai encontrar o link para ter acesso nas referências), que se baseia em 6 passos:

Passo 1- Preparar-se para o encontro

Procurar um local em que seja possível ter privacidade e que não haja interrupções, estando preparado sobre o assunto para transmitir a informação para o paciente e seu(s) acompanhante(s).

Passo 2- Avaliar a percepção do paciente

Perguntar o que o paciente sabe sobre a doença e ficar atento às respostas verbais e não verbais dele.

Descobrir se o paciente quer saber sobre sua condição ou se deseja que tudo seja informado para um familiar.

Passo 4- Passar conhecimento e informação para o paciente

Usar palavras que sejam fáceis para o paciente compreender, sempre perguntando-o se está entendendo e se está bem.

Passo 5- Abordar as emoções do paciente com respostas empáticas

Dar um tempo para o paciente compreender o que lhe foi passado e evitar passar mais informações, pois é difícil que ele consiga ouvi-lo neste momento. É importante manter uma postura empática e mostrar que o paciente pode contar com você.

Passo 6- Estratégia e resumo

Deixar claro para o paciente que ele não está sozinho e que será amparado e que será feito o possível para que ele tenha conforto.

A multidisciplinaridade

Esta palavra que é quase um trava-línguas para quem fala rápido e tão presente na medicina atual, não estaria de fora do cuidado paliativo, sendo um de seus princípios. Ela visa principalmente manter o lado humanista, vendo o ser humano de forma holística, contando com médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, fisioterapeutas, religiosos e voluntários aptos para o cuidado.

O indivíduo terá que lidar além de sua doença, com possíveis problemas sociais, recursos escassos como acesso a serviços e medicamentos, e tudo isso deve ser abordado pela equipe. Deve-se proporcionar alívio todos os problemas existentes, sendo eles orgânicos, espirituais ou materiais, prevenção da ocorrência de novos problemas e promoção de oportunidades de experiências positivas e significativas, para que sua saúde mental seja preservada em todo o processo.

O papel da espiritualidade

À espiritualidade é dada a atribuição por Puchalski  de ser o meio pelo qual as pessoas encontram o significado e propósito das suas vidas, conectando-se com seu interior e o que considera sagrado, não sendo necessariamente representado por uma figura divina.

Tem papel indispensável comprovada na melhoria da ansiedade, depressão, estado funcional e preparação para o fim da vida, desde que utilizada de forma adequada, mas isso pode ser tema para um próximo artigo.

Uma das formas de se empregar é por meio do “Outlook”, um protocolo baseado em três dias de entrevista para guiar os pacientes na discussão dos elementos do fim da vida, assistindo-os em suas necessidades emocionais e existenciais no final da vida. É focado  na “preparação” e “conclusão da vida”,e inclui questões de arrependimento, sensação de ser um encargo para a família e preocupação desta estar preparada.

Foi observado em randomizado que pacientes em cuidados paliativos utilizaram a técnica mostraram melhorias mais expressivas em comparação com outras metodologias, como meditação e relaxamento.

Não é só o paciente que deve ser cuidado – “cuidar de quem cuida”

Tanto quanto o enfermo, seus cuidadores/familiares/amigos mais próximos necessitam de atenção especial. São eles os detentores do maior conhecimento em relação ao nosso paciente; conhecem seus gostos, necessidades, particularidades, assim como possuem memórias e sentem de forma mais intensa o sofrimento pelo ser querido. Precisarão aprender com a nova realidade e posteriormente a lidar com o luto.

A pessoa responsável pelo cuidado do doente pode apresentar sinais de sobrecarga tanto psicológica quanto física, como humor depressivo, irritabilidade, dor lombar, sendo essencial a atenção e observação destes pelos profissionais.

Porém não são só os cuidadores que estão expostos à sobrecarga, toda equipe está. Então é essencial que nós também nos cuidemos quando estivermos lidando com esse tipo de situação, além de prestarmos atenção em nossos colegas

O verdadeiro papel do médico no cuidado paliativo

Adib Jatene em seu livro Cartas a um Jovem Médico diz que “a função do médico é curar. Quando ele não pode curar, precisa aliviar. E quando não pode curar nem aliviar, precisa confortar. O médico precisa ser especialista em gente”

É exatamente isso que você médico ou estudante de medicina deve-se lembrar principalmente diante de um paciente paliativo: chegou a hora em que você não pode mais curar, mas pode aliviar e confortar. Não pratique a distanásia, prolongando o sofrimento.Tenha certeza que seu paciente será grato por isso.

Autora: Bárbara Rossi Galardino
Instagram: @bgalardino


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.