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O transtorno depressivo maior em tempos de pandemia | Colunistas

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Gabriella Mares

16 minhá 13 dias

O Transtorno de Depressão Maior (TDM), também chamado de depressão unipolar, é a forma mais “clássica” da depressão. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo, revelando um dado importante sobre esse transtorno que precisa de atenção.

A depressão é um transtorno psiquiátrico complexo, cuja característica mais marcante é o humor deprimido, por vezes melancólico. Em alguns casos, o paciente pode não apresentar o humor deprimido de forma evidente, mas experimenta a incapacidade de se alegrar, vibrar e sentir prazer genuíno com as situações da vida. A depressão afeta o sujeito como um todo, não apenas no âmbito psíquico, mas também ocasiona manifestações no corpo físico.

Acomete mais o sexo feminino quando comparado ao sexo masculino e, nos últimos anos, mostrou uma prevalência ao longo da vida estimada entre 11% a 15% da população mundial, porém, com a pandemia de COVID-19, esses índices se acentuaram muito e é esperado um crescente nos próximos anos, visto que a exposição crônica a situações de ansiedade e estresse é um dos principais fatores de risco para o aumento do TDM.

Tristeza comum x TDM

Em uma situação de pandemia, com um cenário de saúde comprometido pelo grande número de pacientes infectados, ao mesmo tempo em que se torna necessário um isolamento social como forma de prevenção, sentimentos de angústia, tristeza, estresse, ansiedade são comuns para todos os seres humanos. É normal o indivíduo experienciar a tristeza, não só em um contexto de pandemia, mas também diante de acontecimentos do próprio cotidiano e da vida pessoal, acadêmica, profissional. Mas normalmente, mesmo estando tristes, geralmente conseguimos seguir com o trabalho, relacionamentos interpessoais e compromissos sociais, ou seja, encontra-se alguma motivação para seguir em frente e superar as dificuldades. Mesmo passando por momentos difíceis, conseguimos manter a capacidade de sentir ânimo pelos acontecimentos de vida.

Porém a pessoa com depressão de fato experimenta esse sentimento de tristeza profunda por um tempo mais prolongado, e isso passa a interferir nos âmbitos da vida pessoal e profissional, pois o sujeito não encontra motivação para seguir em frente, permanece com o humor deprimido, sem perspectivas e os problemas do cotidiano passam a tomar uma proporção muito maior.

Além disso, outros sintomas se associam, ou seja, é uma manifestação ampla que realmente impacta muito na vida da pessoa.  Compreender que a tristeza comum é diferente da doença do transtorno depressivo maior é um passo importante para saber manejar rapidamente, de modo a agregar mais bem-estar e qualidade de vida ao paciente, sem banalizar a questão.

Fonte: https://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?id=462019¬icia=saber-diferenciar-tristeza-e-depressao-e-fundamental-para-procurar-ajuda-afirma-especialista&edicao=3

Diagnóstico e causas do TDM

Para diagnosticar a DM em um paciente, este precisa apresentar 5 ou mais dos seguintes sintomas, durante 2 semanas (sendo que um deles deve ser obrigatoriamente humor deprimido ou perda de interesse ou prazer): humor deprimido durante a maior parte do dia, redução do interesse ou prazer nas atividades durante a maior parte do dia também, ganho de peso ou perda ponderal significativas, bem como aumento ou redução do apetite, insônia ou hipersonia, agitação ou atraso psicomotor que seja observado por outras pessoas e não autorreferido, fadiga ou perda de energia para as atividades cotidianas, sentimentos de inutilidade, culpa excessiva, capacidade reduzida de concentração e pensamentos recorrentes de autoextermínio.

Embora, nos últimos anos, os estudos envolvendo neuroimagem, biologia molecular e estudos genéticos tenham se intensificado, as causas de depressão ainda não são completamente elucidadas, mas sabe-se que há uma série de alterações fisiológicas presentes nesses pacientes. Há alterações no metabolismo de alguns mediadores na região cerebral, como os neurotransmissores serotonina, noradrenalina e, em menor escala, dopamina, e das substâncias glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA). Além disso, sabe-se que pacientes depressivos têm uma expressão aumentada de citocinas inflamatórias. Há também algumas alterações estruturais, como na região do hipocampo cerebral, alterações hormonais e nos ritmos biológicos, como o ciclo sono-vigília.

Acredita-se que todas as alterações supracitadas sejam estabelecidas por influência genética. O estresse pode desencadear a depressão em pessoas geneticamente predispostas, mas sozinho não é causa. Ademais, fatores psicológicos e sociais também podem predispor a depressão às pessoas que sejam susceptíveis.

A pandemia de COVID-19 e o transtorno depressivo maior

Um estudo realizado pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) analisou 1.460 brasileiros entre março e abril de 2020, períodos críticos da pandemia, e verificou que os casos de TDM praticamente dobraram desde o início do isolamento social. Os dados coletados indicaram que o percentual de pessoas com TDM saltou de 4,2% para 8,0%.

Um outro estudo que envolveu a análise de prontuários eletrônicos de mais de 69 milhões de pacientes, incluindo 62 mil casos de infecção pelo novo coronavírus, demonstrou que, em pacientes que não tinham histórico prévio de transtornos mentais, a COVID-19 foi associada a um aumento da incidência de diagnósticos psiquiátricos em três meses após a infecção, quando comparada com outras doenças. O aumento foi maior para ansiedade, porém logo em seguida veio TDM e insônia.

O estresse e a ansiedade, vividos repetidamente, são fatores que contribuem para o desencadear da depressão em pacientes predispostos e, por isso, a pandemia de COVID-19 influenciou tanto, haja vista que a sociedade se viu inserida em um cenário caótico para o setor da saúde, sem tratamento eficaz definido para uma doença complexa, leitos lotados nos hospitais, perda de amigos e parentes próximos, e o próprio distanciamento social, que acarreta mais ainda a angústia

Grupos de maior risco para o TDM no contexto de pandemia

O aumento dos transtornos mentais com a pandemia, acontece tanto para pessoas que já tinham algum diagnóstico psiquiátrico prévio quanto para pessoas que não tinham nenhum histórico. Sabe-se que os idosos são um dos mais acometidos com o aumento das taxas de depressão, seja pela situação de vulnerabilidade que a faixa etária impõe, por motivos físicos e psicológicos, ou pela própria pandemia, que os torna especificamente de acentuado risco, dada a evolução da doença neste grupo.

Outro grupo de risco para o aumento da depressão são os profissionais da saúde, que precisam lidar diretamente com o enfrentamento da doença, se expondo à transmissão, cuidando dos pacientes com os recursos que por vezes são muito escassos, em longas e exaustivas jornadas de trabalho, sem apoio psicológico no ambiente laboral, submetidos ao estresse constante. Estudos revelaram o aumento da depressão em profissionais da saúde que atuaram na linha de frente ao enfrentamento da COVID-19. Ou seja, esses grupos vulnerabilizados pela pandemia demandam mais atenção, visto que depressão não tratada pode levar ao suicídio como desfecho extremo.

Fonte: https://acvida.com.br/cuidadores/o-cuidador-de-idosos-e-um-profissional-de-saude/

O consumo de álcool e drogas no contexto do TDM

As angústias inerentes à própria pandemia de COVID-19, bem como o confinamento provocado pelo isolamento social, que é a principal medida de prevenção, aumentam o estresse, resultando em um conjunto de alterações na neuroquímica cerebral, alterando os sistemas de recompensa, podendo, então, propiciar aumento no consumo de álcool e outras drogas. As pessoas ficaram mais tempo em casa, favorecendo também a disponibilidade e o aumento do consumo dessas substâncias, o que é preocupante.

Fora do contexto de pandemia, o consumo excessivo de álcool é uma das principais causas de mortes evitáveis e contribui para cerca de 3 milhões de mortes no mundo. O álcool e outras drogas não causam apenas impactos a curto prazo, mas também a longo prazo, podendo se tornar um transtorno de dependência, o qual se agrava ainda mais quando coexiste com um quadro depressivo.

Vivenciando as perdas, o luto e a depressão

Claramente, um contexto de pandemia de uma doença perigosa ocasiona para muitas famílias a perda de entes queridos, bem como de outros aspectos da vida. Estas perdas acabam sendo primárias e secundárias, ou seja, se uma pessoa perde seu parceiro(a) amoroso, sofre com a perda primária da pessoa que faleceu, bem como com a perda secundária da ausência da pessoa amada, saudade do companheirismo que existia, da intimidade sexual e da convivência. Além disso, algumas pessoas perdem não somente pessoas queridas, mas também os empregos, a liberdade, então acabam se somando os sentimentos de várias perdas, o que predispõe ainda mais à depressão ou ao acentuamento dela.

O luto também é importante nesse contexto, visto que é uma situação delicada, vivida de forma diferente por cada pessoa, de acordo com seu estado emocional, seu entendimento sobre a vida, ajustamento afetivo, crença espiritual etc. Algumas pessoas acabam lidando com o luto antecipatório quando acompanham a situação do familiar e as complicações que vão ocorrendo, mas outras têm mais dificuldade de lidar com isso e com o cenário de situação de adoecimento e morte. Então, o luto também acaba sendo fator de risco importante para o desenvolvimento e agravamento da depressão.

Fonte: https://www.rs21.com.br/noticias/curso-ead-perdas-e-luto/

No entanto, é fato que a pandemia continuará afetando a vida de muitas pessoas, de forma que as perdas e a vivência do luto serão cenários reais para muitos indivíduos. Por isso, é importante e fundamental desenvolver ações que auxiliem a adaptação funcional diante de perdas, promovendo a saúde psíquica mesmo diante de uma situação difícil e dolorosa.

O suicídio e a depressão

Quando falamos de depressão, a possibilidade de suicídio precisa ser considerada e triada. Um dos sintomas que o paciente com transtorno depressivo maior pode apresentar constantemente é o autoextermínio, o pensamento de que a vida não vale a pena, que se é um peso para a sociedade e que a morte seria um caminho para amenizar a dor vivenciada.

Existem relatos de aumento de tentativas de suicídio motivadas pelas angústias e medos da pandemia e pelas consequências negativas impostas, sendo o isolamento social um dos fatores de maior risco para a ideação e tentativa de suicídio. Serviços telefônicos de prevenção ao suicídio, como o Centro de Valorização da Vida, registraram aumento das ligações em cerca de 20% durante a pandemia, o que mostra como os transtornos mentais estão se acentuando frente ao medo e às incertezas que o cenário de pandemia acarreta, sobretudo o TDM.

Torna-se imprescindível, desta forma, o olhar mais atento para essas pessoas em específico, que padecem de depressão e que podem estar dando sinais de ideação suicida. É preciso intervir o quanto antes, até porque a depressão tem diversos tratamentos eficazes atualmente e pode ser tratada e prevenida, evitando também o suicídio, que é um desfecho triste, indesejável, mas prevenível.

O que fazer diante disso?

As intervenções feitas durante crises psicológicas, como as que se estabeleceram em virtude da pandemia de COVID-19, devem considerar três pontos básicos:

  1. Entender como estão as situações de saúde mental em todos os extratos sociais;
  2. Identificar pessoas com risco de suicídio e agressão, ou seja, as mais preocupantes;
  3. Promover estratégias terapêuticas precocemente para aqueles que necessitam.

O TDM é um transtorno que acontece com pessoas em todas as classes sociais, por isso a triagem da depressão deve ser estimulada a todos os níveis socioeconômicos; para isso, é importante se pensar em políticas públicas que façam buscas ativas por pacientes que possam estar com depressão e que estimulem pacientes e familiares que suspeitem da doença, a procurar ajuda médica especializada.

É muito importante identificar quem são as pessoas com depressão profunda que estão com ideação suicida ou fizeram alguma tentativa, ainda mais porque o principal fator de risco para o suicídio é a tentativa prévia, então é preciso abordar essas pessoas com urgência, intervir diretamente no quadro depressivo de modo a extinguir a ideação suicida e prevenir esse desfecho. Pacientes que apresentam níveis de agressividade também precisam ser tratados precocemente, para evitar danos a si mesmos e aos outros, tanto físicos quanto psicológicos.

As estratégias terapêuticas precisam ser bem pensadas e nesse sentido, contando com um suporte inicial, quadros depressivos podem ser tratados com medicação, que conta com uma ampla gama de fármacos, bem como com a psicoterapia e eletroconvulsoterapia.

Suporte inicial

O suporte inicial se torna muito importante quando estamos diante de um paciente com TDM, visto que o tratamento deste transtorno demora um pouco para fazer efeito, cerca de 2 semanas, por isso, durante o início do tratamento, é preciso que haja um acompanhamento mais rigoroso por parte dos médicos e das equipes de saúde mental. Primeiramente, é preciso explicar para o paciente e para a família que depressão é uma doença séria, como as outras, que requer tratamento adequado, mas que oferece um bom prognóstico quando bem tratada.

A família e o paciente precisam entender que o quadro psíquico vivenciado não é nenhum tipo de falta de caráter ou banalidade e que não há culpados por nada nesse processo. Precisam se sentir acolhidos e acreditar que o quadro vai apresentar melhora, por isso, o médico deve acompanhar o paciente nas primeiras duas semanas de tratamento, ainda que seja por meio de ligações telefônicas ou de telemedicina, isso é muito importante também para garantir a adesão ao tratamento e observar o progresso do paciente.

Terapia medicamentosa

Existem várias classes de fármacos que podem ser utilizados para tratamento da depressão e devem ser prescritos por um médico capacitado. Os efeitos colaterais devem ser amenizados ao máximo, bem como as contraindicações observadas e o medicamento deve ser escolhido de acordo com as necessidades e singularidades de cada um. Podem ser utilizados Inibidores seletivos da recaptação de serotonina, inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina, inibidores seletivos da dopamina e noradrenalina, moduladores da serotonina, antidepressivos heterocíclicos, inibidores da monoaminoxidase, antidepressivo melatoninérgico etc.

É importante lembrar que, para a depressão, o remédio demora cerca de 2 semanas para apresentar efeito significativo e, nesse momento, é preciso ficar atento aos pacientes que têm ideação suicida, porque podem acabar tentando autoextermínio por achar que o medicamento não está fazendo efeito. Instruir o paciente e a família sobre isso é essencial para manter a adesão ao tratamento mesmo nesse período crítico.

Psicoterapia

A psicoterapia também se mostra muito eficaz para o tratamento da depressão, sobretudo por meio da técnica de Terapia Cognitivo-Comportamental, a qual auxilia muito no tratamento de quadros iniciais, bem como na possibilidade de recaídas. É muito indicada para pacientes com depressão de leve a grave e, quando feita em associação com o tratamento medicamentoso, oferece o padrão-ouro para amenizar quadros de TDM.

Eletroconvulsoterapia e outras técnicas

A eletroconvulsoterapia pode ser utilizada quando o paciente tentou o tratamento farmacológico e psicoterápico, porém se mostrou refratário em quadros como depressão suicida grave, depressão com agitação ou retardo psicomotor, depressão delirante, depressão psicótica. Mesmo após a eletroconvulsoterapia, o paciente pode acabar recidivando o quadro depressivo e, por isso, se mantém o tratamento farmacológico. Além disso, grupos de suporte e medicina integrativa (yoga, meditação, acupuntura) são outras técnicas que atuam como co-terapeutas de quadros depressivos.

Conclusão

Observa-se que o transtorno depressivo maior, por si só, já precisa ser tratado precocemente para garantir o bem-estar e qualidade de vida para o paciente, prevenindo o suicídio, que é o desfecho principal e mais temido. A pandemia de COVID-19 traz inúmeras preocupações, acarreta ansiedade, estresse, fadiga mental e está associada com o aumento de transtornos mentais, principalmente da depressão e da ansiedade.

A doença atinge todos os públicos, independentemente de classe econômica, raça ou sexo, e observa-se que alguns grupos estão em maior risco de desenvolver o transtorno ou acentuar, como os idosos e profissionais da saúde. A questão constante das perdas, do luto, das dificuldades do isolamento social traz à tona um sentimento complexo de angústia que altera a estrutura cerebral e predispõe ao surgimento e agravamento da depressão.

Por isso, é muito importante um olhar atento para esse contexto por parte das equipes de saúde, de forma a oferecer suporte psicológico para os grupos de risco e para pessoas que possam estar lidando com a depressão. O estímulo para que indivíduos e familiares busquem ajuda se precisarem também é imprescindível. Discutir sem tabu e tratar o TDM como uma doença séria e potencialmente grave é essencial para que possamos evitar desfechos indesejáveis como o suicídio e garantir maior qualidade de vida para essas pessoas.

A empatia e o cuidado com o próximo devem estar presentes em todas as práticas médicas, sobretudo quando nos referimos a pacientes com transtornos mentais, como depressão e até mesmo outros. A pandemia coloca em sofrimento toda a sociedade, por isso é legítimo que haja união, redes de apoio mútuas para que as pessoas não se sintam sozinhas, mas sim acolhidas, e busquem ajuda se preciso. As equipes de saúde mental devem estar preparadas para oferecer suporte emocional adequado para a população, agora e mais ainda a longo prazo, por isso é preciso que o setor de saúde esteja preparado para atender essa demanda com o máximo de cuidado e paciência que for possível.

Autoria: Gabriella Mares

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