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Paniculite: a inflamação do tecido adiposo | Colunistas

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O que é?

Também chamada de hipodermite, a paniculite é um processo inflamatório da hipoderme (do tecido adiposo) e, por isso, é uma doença de especialidade do reumatologista. Pode afetar preferencialmente (1) os lóbulos de gordura ou (2) o tecido conjuntivo que separa os lóbulos de gordura. 

A paniculite engloba várias doenças, todas caracterizadas clinicamente pela presença de nódulos eritematosos ou eritemato-violáceos, porém essas doenças possuem distintas características evolutivas, podendo ser acompanhadas ou não de dor e sintomas gerais, inclusive febre e artralgias.

Etiologia

– Infecções

– Doenças inflamatórias (eritema nodoso , lipodermatoesclerose, poliarterite nodosa )

– Fatores físicos (frio, trauma)

– Doenças linfoproliferativas

– Doenças do tecido conectivo (p. ex., lúpus eritematoso sistêmico , esclerodermia sistêmica)

– Doenças pancreáticas

– Doenças oncológicas

– Deficiência de alfa-1-antitripsina

Tipos de paniculite 

  1. Paniculite nodular não supurativa febril recidivante (doença de Weber Christian)

É caracterizado pelo aparecimento de surto que duram aproximadamente 1 uma semana acompanhada de febre e nódulos que ocasionalmente ulceram e drenam líquido oleoso amarelo-acastanhado de tecido gorduroso liquefeito (paniculite liquefaciente), localizado especialmente nos membros inferiores. O envolvimento de órgãos internos, gordura visceral ou perivisceral pode levar a óbito. Como tratamento, utiliza-se agentes fibrinolíticos, cloroquina, azatioprina, ciclosporina, talidomida, ciclofosfamida, tetraciclina e corticóides sistêmicos

  • Paniculite por deficiência de alfa1-antitripsina (inibidor de proteinase)

Os nódulos podem ser desencadeados por trauma, ocorrem com maior frequência no tronco e nas extremidades proximais e tendem a ulcerar e drenar secreção serossanguinolenta. Há relatos de melhora com dapsona e prednisona.

  • Paniculite associada à doença pancreática

Caracterizada por nódulos dolorosos e necrose subcutânea podem surgir pela ação de enzimas pancreáticas no tecido adiposo em decorrência de pancreatite ou carcinoma pancreático

  • Paniculite calcificante da insuficiência renal (calcifilaxia)

Caracterizada pelo aparecimento de nódulos no abdome e, nas nádegas e nas coxas com necrose superficial devido à calcificação das arteríolas da derme profunda e do subcutâneo, provavelmente devido ao hiperparatireoidismo secundário à doença renal. O tratamento é feito com antiácidos quelantes de fosfato e paratireoidectomia em casos extremos.

  • Eritema nodoso

Lesões nodulares manifestadas como placas eritematosas, pouco definidas, bastante macias e nódulos que podem ser mais facilmente palpados do que observados. Ocorrem frequentemente em membros inferiores, como resultado de reação imunológica que pode ser desencadeada por diversos fatores como: infecções β-hemolíticos, tuberculose e, menos comumente, coccidioidomicose, histoplasmose e hanseníase (estreptococo , enteropatias, carcinoma, linfomas, leucemias e drogas (sulfonamidas, anticoncepcionais orais e os brometos). Febre e mal-estar podem acompanhar as alterações cutâneas. No curso de semanas, as lesões geralmente tornam-se planas e ficam semelhantes a equimoses, sem deixar cicatrizes clínicas residuais, enquanto novas lesões se desenvolvem. Geralmente, é necessária a realização de uma biópsia profunda em cunha do tecido com o intuito de obter uma amostra generosa do tecido subcutâneo para se estabelecer o diagnóstico histológico. O tratamento é feito com antiinflamatórios não-hormonais, corticosteróides sistêmicos, ácido acetilsalicílico e iodeto de potássio. 

  • Eritema nodoso hansênico
  • Eritema indurado de Bazin

É um processo inflamatório granulomatoso com necrose caseosa dos lóbulos, podendo acometer até a derme com ulceração. É localizado mais comumente nos membros inferiores, em especial nas panturrilhas. Tem sido associado à tuberculose, porém raramente são encontrados bacilos.

  • Tromboflebite migratória superficial

A tromboflebite de veias superficiais ocorre como uma complicação de veias varicosas e estados de hipercoagulação sanguínea. Os nódulos ocorrem com frequentemente nos membros inferiores, dispostos linearmente. 

  • Poliarterite nodosa cutânea

Tem sido associada a infecções estreptocócicas, hepatites virais e enterite regional. Normalmente surge nos membros inferiores, em que os nódulos são circundados por livedo reticular. Além da arterite necrosante nas artérias musculares da junção derme-subcutâneo, as artérias de pequeno e médio calibre da junção derme-epiderme e são envolvidas, podendo haver ulceração.

Classificação

Sua classificação leva em conta a histopatologia e a localização do processo inflamatório.

Fonte: Bondi, Margolis e Lazarus, 2005. 

Diagnóstico

Esse quadro muitas vezes representa um grande desafio diagnóstico tanto para o clínico como para o patologista, uma vez que os achados clínicos e histopatológicos nas várias doenças inflamatórias do tecido adiposo possuem características que se sobrepõem. 

A especificidade no diagnóstico é potencialmente difícil, pois apresentações clínicas similares às vezes são associadas a características histopatológicas distintas. Da mesma forma, apresentações clínicas bem diferentes podem ter achados histopatológicos similares. 

Outro fator limitante na avaliação histológica da lesão é o uso de punches para biópsia, fornecendo material limitado para análise de fenômenos muito extensos. 

Tratamento

Não existe um tratamento específico para a paniculite.

Os médicos podem administrar medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) para alívio da dor e da inflamação, além de antibióticos, troca total do sangue e terapia de reposição de alfa 1 proteína. Corticosteróides e outros medicamentos que suprimem o sistema imunológico (imunossupressores) ou quimioterápicos podem ser administrados a pessoas cujos sintomas estejam piorando.  Infelizmente, nenhum tratamento para paniculite tem sido inteiramente efetivo. 

Conclusão

Os estudos sobre a paniculite são escassos e divergentes. Torna-se necessário que o corpo acadêmico de reumatológica e dermatológica produzam mais trabalhos e levantam mais discussões sobre essa patologia para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

1 – Wolff, K., Goldsmith, L., Katz, S., Gilchrest, B., Paller, A. S., & Leffell, D. (2011). Fitzpatrick’s Dermatology in General Medicine, 8th Edition. New York: McGraw-Hill.- Disponível em: http://psbe.ufrn.br/index.php?option=com_content&view=article&id=35&Itemid=247  Acesso via portal saúde baseada em evidência. 2 – Rivitti, E. A. (2014). Manual de Dermatologia Clinica de Sampaio e Rivitti. 3ª Edição.  São Paulo Artes Médicas.

2- ROBBINS, S. L.; KUMAR, V. (ed.); ABBAS, A.K. (ed.); FAUSTO, N. (ed.). Patologia: Bases Patológicas das doenças. 9ª ed.

3- Onofre Alves Neto, Carlos Maurício de Castro Costa, José Tadeu T. de Siqueira, Manoel Jacobsen Teixeira (SBED). (Org.). Dor: Princípios e Prática. 1 ed.

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