Medicina da Família e Comunidade

Punção da tireoide e sua importância na prática clínica | Colunistas

Punção da tireoide e sua importância na prática clínica | Colunistas

Compartilhar
Imagem de perfil de Claudio Afonso Peixoto

Introdução

  Em decorrência principalmente do uso e avanço da ultrassonografia, sabe-se que nos últimos anos a detecção de nódulos tireoidianos aumentou de 2 a 4 vezes. Pensando nisso e sabendo que segundo estudos ressaltados no artigo “Avaliação da indicação das biópsias de tireoide segundo a classificação TI-RADS”: 4% a 7% das mulheres e 1% dos homens adultos possuem algum nódulo palpável; fica evidente a importância do tema na prática clínica diária.

            Nesse contexto e com a evolução das técnicas ultrassonográficas, a punção aspirativa por agulha fina guiada pelo ultrassom (US–PAAF) figura como a mais utilizada técnica de punção da tireoide na atualidade. E isso se deve pelo aumento proporcional de acurácia no diagnóstico dos nódulos tireóideos quando comparada a outras técnicas, principalmente na identificação daquelas lesões ocultas ou ainda aquelas de difícil palpação.

            Considerando as vantagens já mencionadas, a PAAF figura hodiernamente como uma técnica importante para a avaliação do risco de malignidade e identificação de nódulos tireoidianos que não sejam benignos. Classificado como um método de precisão – com elevada sensibilidade (entre 65 e 99%) e especificidade (entre 72 e 100%) – e pouco invasivo, é considerado o procedimento de escolha na exclusão de malignidade de nódulos tireoidianos.

Apesar da punção por agulha fina guiada por ultrassom (PAAF-US) ser considerada por protocolos mundo afora como o principal método de identificação de malignidade em nódulos tireoidianos através do exame citológico, cerca de 10 a 30% dos procedimentos realizados apresentam amostras inadequadas ou indeterminadas resultantes, assim, necessitando de novo procedimento, seja ele outra PAAF-US ou uma biópsia com agulha grossa dirigida por US (BAG-US).

Devido a existência – e persistência – desses erros outra técnica de punção foi criada: a punção não-aspirativa por agulha fina (PNAAF). Essa nova técnica por sua vez apresenta resultados bons e oferece material melhor para análise – pois apresenta menos amostras hemorrágicas diluídas – e assim lidamos com menos falsos positivos e negativos.

Contudo, alguns estudos comparativos realizados entre as duas técnicas: PAAF e a PNAAF, demonstraram igualdade entre ambas as técnicas quanto à capacidade de fornecer material adequado à avaliação citológica satisfatória dos nódulos tireoidianos e um aumento de acurácia quando utilizadas ao mesmo tempo. Logo, neste artigo focaremos na punção aspirativa realizada por meio de agulha fina e guiada por ultrassom, ou seja, a US-PAAF.

Indicações

O fato de que não há nenhum sinal ultrassonográfico que seja patognomônico para malignidade deixou sempre bem claro a necessidade de se realizar algum exame subsequente a esse, mas o questionamento que prevalecia era: “quando realizá-lo?”  Por muito tempo a resposta a essa pergunta foi controversa, contudo, hoje há um consenso para responder a essa dúvida – ainda bem.  O Thyroid Imaging Reporting and Data System (TI-RADS) tem por objetivo agrupar os nódulos encontrados nos exames ultrassonográficos em diferentes categorias e entre elas nos indicar quando é interessante ou não a realização de uma punção da tireoide.

Essa classificação varia entre 1 (quando os resultados são negativos) e 6 (quando é comprovada a malignidade) em que quanto mais alta a pontuação encontrada, maior é o risco de estarmos lidando com malignidade. A seguir encontra-se um quadro retirado do artigo “Using artificial intelligence to revise ACR TI-RADS risk stratification of thyroid nodules: diagnostic accuracy and utility” que especifica os critérios de pontuação:

Fonte: Revista Radiology

Logo, a punção da tireoide é indicada para lesões suspeitas (nódulos classificados entre TR3 e TR5) e quando houver múltiplos nódulos, os dois com maior grau dentro da classificação TI-RADS serão eleitos para realizar o procedimento e não só dois maiores como muitos pensam. Assim, seguindo a figura mostrada acima, as condutas referentes a cada classificação TI-RADS são:

  • TR1: não requer PAAF;
  • TR2: não requer PAAF;
  • TR3: ≥1.5 cm iniciaremos acompanhamento e ≥2.5 cm realizaremos PAAF com seguimento: de 1 a 5 anos;
  • TR4: ≥1,0 cm iniciaremos acompanhamento, ≥1,5 cm realizaremos PAAF com seguimento também de 1 a 5 anos;
  • TR5: ≥0,5 cm iniciaremos acompanhamento e ≥1,0 cm realizaremos PAAF com acompanhamento anual por até 5 anos.

Procedimento

            Quanto ao procedimento, este é realizado em ambulatório sem a necessidade de internamento e salvo casos especiais – sem sedação. Através de uma agulha introduzida no tecido cutâneo até alcançar a tiroide são recolhidas pequenas amostras de tecido que serão enviadas para o exame citológico. Para a realização desse procedimento utiliza-se uma ultrassonografia para guiá-la, possibilitando ao médico visualizar o trajeto da agulha até atingir a tiroide e assim efetuar a recolha das amostras de forma adequada.

Fonte: saudebemestar.pt

Características Indesejáveis

Apesar da PAAF ser o método indicado para a avaliação de nódulos tireoidianos, o procedimento traz consigo alguns efeitos adversos e algumas características indesejadas. Para começar, sabe-se que o procedimento é doloroso e cursa com risco de infecções e hematomas. Além do mais, aproximadamente 20% das PAAF não são diagnosticadas e assim é necessário que seja realizado outro procedimento aumentando o incômodo do cliente e os custos para o diagnóstico de uma possível malignidade. Além do mais, como qualquer outro procedimento invasivo existe o risco de hemorragia, principalmente, dentre aqueles que usam medicamentos anticoagulantes e / ou antiagregantes.

Cuidados Após o Procedimento

Sabendo que se trata de um procedimento seguro e com baixa taxa de complicações, na maioria dos casos o cliente retoma suas atividades normais imediatamente após a realização, sem necessidade de períodos de recuperação. Todavia, devem ser tomados alguns cuidados posteriores como evitar a prática de esportes e atividades que exijam esforços físicos intensos. É comum o surgimento de dor, equimose ou desconfortos locais autolimitados (desaparecendo em algumas horas). Espero que tenha ajudado você leitor ou leitora a compreender um pouco mais sobre esse procedimento e suas características. Bons Estudos!

Autor: Claudio Afonso Caetano Pereira Peixoto

Instagram: @claudioafon

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências

HEEP, Karla Munike Magri Cortez. Avaliação da indicação das biópsias de tireoide segundo a classificação TI-RADS. 2018.

RESENDE, Angelina et al. PUNÇÃO ASPIRATIVA E NÃO ASPIRATIVA POR AGULHA FINA–IMPORTANTES METODOLOGIAS PARA O DIAGNÓSTICO PRECOCE DE LESÕES NA TIREÓIDE. Semana de Pesquisa da Universidade Tiradentes – SEMPESq, n. 19, 2017.

WILDMAN-TOBRINER, Benjamin et al. Using artificial intelligence to revise ACR TI-RADS risk stratification of thyroid nodules: diagnostic accuracy and utility. Radiology, v. 292, n. 1, p. 112-119, 2019.

SOUSA, Pedro. Biópsia da Tireoide. Saúde Bem Estar. Lisboa, 12 de novembro de 2020. Disponível em: https://www.saudebemestar.pt/pt/exame/imagiologia/biopsia-da-tiroide/.