O que é educação sexual?
Detrás de todo Tabu que existe sobre a educação sexual, existe um maior que é a educação sexual para crianças. É necessário entender o conceito dessa prática no país, e seus objetivos para desmistifica-la, para que o preconceito seja deixado de lado e para que seja ensinado o que foi inicialmente proposto de forma correta, entender que essa educação não é um meio para incentivar uma vida sexual precoce, ou ensinar as crianças a fazerem sexo, mas na verdade trazer à tona meios para que isso não seja incentivado ou iniciado na hora não adequada para cada indivíduo.
Enfim, pode-se entender por educação sexual: o ensinamento e esclarecimento de questões relacionadas a sexualidade, esse deve ser livre de preconceito e tabus, na busca de preparar as crianças e adolescentes de situações futuras indesejadas, como gravidez na adolescência, infecções sexualmente transmissíveis, abuso sexual, traumas mentais e físicos relacionados ao sexo, ainda esclarecer sobre as mudanças corporais que acontecerão de acordo com cada etapa de seu crescimento, aprendendo a diferença das mudanças e épocas dessas, no corpo biológico masculino, feminino e intersexo.
Segundo a UNAIDS, Unesco, órgãos aliados a ONU e a OMS que promovem a educação integral a sexualidade mundialmente, a educação integral em sexualidade é:
“abordagem apropriada para a faixa etária e culturalmente relevante para o ensino sobre sexo e relacionamentos, por meio do fornecimento de informações cientificamente corretas, realistas e sem juízo de valor.”
“A educação em sexualidade fornece oportunidades para explorar os próprios valores e atitudes, bem como construir habilidades de tomada de decisão, comunicação e redução de riscos sobre muitos aspectos da sexualidade.”
A palavra integral indica “que essa abordagem à educação em sexualidade engloba a gama completa de informações, habilidades e valores para permitir que os jovens possam exercer seus direitos sexuais e reprodutivos e tomar decisões sobre sua saúde e sexualidade.”
Porque essa educação precocemente?
Tendo, portanto, o conceito real da educação em sexualidade em mãos, podemos interpretar e afirmar os porquês de iniciar esse ensino precocemente, no caso, na faixa da infância (0 a 10 anos). Neste período a criança aprende e absorve conhecimento com mais facilidade, devido as conexões cerebrais mais rápidas e a não desistência na hora de aprender algo novo! A avidez de aprender já é algo que devemos usar ao nosso favor para desenvolver um futuro melhor para essa criança, no âmbito da sexualidade, que envolve emoção, saúde física e mental, pensamentos, sentimentos, relação com o outro e muito mais!
Para educar esses pequenos é preciso levar em conta que existem fases de desenvolvimento sexual, desde os primeiros meses de idade, há mudanças no comportamento da criança e aprendizado, com base na pediatria existem 5 fases de desenvolvimento sexual dos 0 a 10 anos de idade da criança. Se há tanto desenvolvimento nesse período por quê deixar essa faixa etária no escuro? Por quê não orientar os pais e responsáveis sobre isso? Alertá-los sobre as repercussões de um desenvolvimento ruim e traumático nessa criança? Vamos deixar o tabu de lado e vamos começar a pensar no bem-estar delas, porque elas são o futuro!
Como será feita essa educação? Por quem? Os médicos entram onde?
O “como” e o “quem” deve realizar essa instrução gera outra polêmica, já que o ensino da sexualidade está presente em todos os âmbitos de relacionamento da criança, como a família, escola, amigos, igreja, trabalho, mídia, etc.; o que nos deixa a pensar como e quem deve instruir afinal a criança?
Pensando nas fases sexuais do desenvolvimento infantil mencionadas, 3 delas são bem no início da formação da criança no meio social, a Fase oral (0-18 meses), a Fase anal (1 ano e meio a 3 anos) e a Fase genital (3-5 anos), ocorrem em esferas mais íntimas, como a familiar, a pré-escolar e escolar, nessa fase então deve-se focar a instrução por meio desses profissionais, além de profissionais da área da saúde que geralmente auxiliam nesse período sanando as dúvidas de pais e educadores.
Desde 2006, têm-se o “Guia para a formação de profissionais de saúde e de educação – Saúde e Prevenção nas Escolas”, mais conhecido como SPE, um guia de instrução formulado pelo Ministério da Saúde, Ministério da Educação, a UNESCO, a UNICEF e a UNFPA, para informar e formar profissionais sobre a educação em saúde e educação sexual nas escolas, que envolve desde a ação de reconhecimento do próprio corpo até questões de sexualidade, gênero, estereotipagem de gêneros e corpos, autoestima, avaliação de pessoas de risco(abuso, gravidez indesejada, gravidez na adolescência, traumas…), até fisiologia humana, métodos contraceptivos, direitos sexuais e reprodutivos e coisas além.
Nesse guia têm-se o planejamento para cada fase de crescimento e ainda a sugestão de acompanhamento durante as atividades de formação desses educadores de um profissional especializado, que pode ser um médico pediatra, hebiatra, MFC, ou outro profissional da área da saúde ou educação, com formação na área de psicossexualidade por exemplo, para auxiliar no bom entendimento e esclarecimento, com função de que o conhecimento seja passado para a população alvo claro e conexo de acordo com o esperado. O Guia é voltado para ações escolares, portanto suas sugestões de práticas podem ser aplicadas até a fase da adolescência e jovens adultos.
Destaca-se esse guia porque é um manual nacional e com ministérios do governo que participaram do seu desenvolvimento, porém a UNESCO e a ONU, também possuem um guia de orientação: Orientações técnicas de educação em sexualidade para o cenário brasileiro; também cheio de informações para a formação desses profissionais para compartilhar enfim o conhecimento com os pais e responsáveis, e também para as próprias crianças.
Quais seriam as vantagens de ensinar sobre sexualidade para uma criança?
Tendo em vista as informações anteriores, pode-se elencar as vantagens de se informar sobre a sexualidade desde a infância. As principais são: prevenir traumas físicos e mentais na criança, em relação ao seu próprio corpo, desenvolvendo a estima pelo seu corpo, sua imagem, assim sabendo como cuidar daquilo que te pertence. Se a criança entende que o corpo pertence a ela, o respeito aos limites é criado no pensamento da criança, vê-se aí um exemplo de uma forma de combate ao abuso sexual, uma vez que a criança sabe que o corpo é dela e que o toque sem a sua permissão a desrespeita, mesmo pequena ela pode informar aos seus responsáveis sobre algo ou alguém que atravessou esses limites. Sobre a sexualidade, de reconhecimento de seus genitais, para que eles servem, como higienizá-los de forma correta, como manuseá-los, ensina-se quem pode ou não os tocar, e o porquê de haver esse cuidado essas ações podem prevenir doenças transmissíveis ou não pelo sexo, mas principalmente as ISTs no caso em questão.
Sabendo a criança que seu corpo passará por mudanças, e sabendo os seus responsáveis como lidar com essas mudanças, como informar e auxiliar no desenvolvimento saudável fisicamente e mentalmente, o crescimento que muitas vezes é relacionado a dor, pode se tornar uma grande fase de aprendizado e baseamento para uma vida futura extraordinária!
Autora: Anna Amarilys
Instagram: @annaamarilys
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Educação sexual para crianças – https://www.iped.com.br/materias/educacao-e-pedagogia/educacao-sexual-criancas.html
Saúde e Prevenção nas Escolas – Guia para formação de profissionais da saúde e educação – https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4938400/mod_resource/content/0/sau%CC%81de%20e%20prevenc%CC%A7a%CC%83o%20nas%20escolas%20MS.pdf
Educação sexual na infância – “Precisamos superar o mito de que a educação sexual pode erotizar crianças.” – https://www.futura.org.br/educacao-sexual-na-infancia/
“Avanços e desafios nas questões de gênero na educação” – http://generoeeducacao.org.br/wp-content/uploads/2016/05/Jimena-Furlani-02-e-03-maio-S%C3%A3o-Paulo-G%C3%AAnero-na-Educa%C3%A7%C3%A3o1.pdf
ORIENTAÇÕES TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO EM SEXUALIDADE PARA O CENÁRIO BRASILEIRO – http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/FIELD/Brasilia/pdf/Orientacoes_educacao_sexualidade_Brasil_preliminar_pt_2013.pdf
Educação Sexual – https://brasilescola.uol.com.br/sexualidade/educacao-sexual.htm
Guia de Terminologia do UNAIDS – https://unaids.org.br/wp-content/uploads/2015/06/WEB_2018_01_18_GuiaTerminologia_UNAIDS.pdf
Sexualidade na adolescência: desenvolvimento, vivência e propostas de intervenção – http://www.jped.com.br/conteudo/01-77-S217/port.asp