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Quem cuida de nós? Uma reflexão sobre a saúde do estudante de medicina e do profissional médico | Colunistas

Quem cuida de nós? Uma reflexão sobre a saúde do estudante de medicina e do profissional médico | Colunistas

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Ian Garrido Kraychete

5 minhá 649 dias

Estudantes de medicina e médicos são conhecidos e exaltados por sua vital contribuição para a saúde da população. No entanto, a trajetória desgastante e a rotina estressante causam transtornos à saúde física e mental, contribuindo para uma problemática que chegou a ceifar a vida tanto de estudantes quanto de profissionais, quando os papéis se invertem.

Desde o período do vestibular, a concorrência absurda e a “pressa” de passar na faculdade já servem de gatilho para o desenvolvimento de doenças como ansiedade, síndrome do pânico e depressão. “‘Fulano de tal’ passou de primeira numa das melhores faculdade do país; Tá estudando muito né? É só estudar que passa; Você quer medicina? Elimina sua vida social que aí você passa.” Em paralelo, a mídia vangloria alunos que foram aprovados e relatam que “fora do horário que eu comia e dormia, eu estava estudando”. Sim, essas são algumas situações que atormentam e podem destruir o estado físico-emocional de alguém que tem em ser médico, um dos seus maiores sonhos.

Ao passar no vestibular, o início da vida acadêmica, com um novo método de aprendizagem, novas matérias, colegas e professores novos, a carga horária longa, o grande volume de conteúdo em um espaço de tempo curto e provas de diferentes modelos são fatores estressantes.

Estudar cerca de 10 horas por dia, não pode ter nenhuma dificuldade, tem que ter nota alta. Quando sai de casa, o assunto é aquele no qual você quer menos ouvir falar, de tão cansada que está sua mente.

– Tá amando a faculdade? Depois de tanta luta pra passar tem que amar né?

– Tô amando!

– E tá feliz?

– Tô feliz! (?)

A imersão na faculdade de medicina muitas vezes faz esta parecer ser a única fonte de felicidade e realização da vida do estudante, quando, na verdade, é apenas um aspecto dentre tantas dimensões sociais, físicas, psicológicas e profissionais da vida.

Na formatura, há quem acredite que o diploma é a solução para todos os seus problemas. ALERTA DE SPOILER: não é. As incertezas sobre o futuro, escolha sobre fazer uma residência e qual gostaria de fazer, a maior autonomia de ter um carimbo e se responsabilizar pela vida de outro indivíduo, a rotina de trabalho e plantões, a competição no meio médico e a falta de infraestrutura de alguns locais de trabalho são questões que exaurem o bem estar físico e mental dos profissionais.

Essa trajetória é comum e a ameaça à integridade física, psicológica e social se tornam um problema de saúde. Afinal, como pessoas que precisam tanto de cuidado conseguem transcender essa necessidade, em prol de assistir outro ser humano com toda sensibilidade e cuidado?

É pertinente refletir acerca dessa problemática que desrespeita não somente o conceito de saúde da OMS de “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”, como também o de qualidade de vida sendo “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”.

Esse impacto leva o indivíduo a tomar medidas drásticas numa tentativa desesperada de tornar menos exaustivo o cotidiano. O aumento alarmante da utilização de anestésicos, da ritalina e do fenômeno do suicídio faz necessária a reflexão: a opressão midiática e social sobre o estudante e o médico, os desumanizam.

O médico e o estudante não podem se ver, nem serem vistos, como máquinas. Assim como qualquer outra profissão, existe um indivíduo por trás do jaleco que precisa dormir, comer, ter momentos de lazer, estar com a família, sair com os amigos, namorar, e, o mais importante: ser feliz. E se, ao ler isso, for difícil identificar pessoas desse meio que conseguem ter essa qualidade de vida, qualquer semelhança não é mera coincidência.

No fim das contas, são apenas pessoas, que cuidam de outras, mas que também precisam ser cuidadas. Pessoas que também têm sentimentos, frustrações, sonhos, que choram, sofrem, brigam, que têm filhos para cuidar, que têm questões pessoais para processar, que necessitam de carinho, afeto, compaixão e empatia. Por isso, vá à academia, à terapia, ao cinema, ao shopping, àquele encontro de família que você sempre falta por causa dos estudos ou do desgaste do trabalho. Vá praticar sua religião. Vá tomar um café com seus avós, vá passar um tempo com seus pais, saia com seus amigos. E não se culpe por nada disso. Você não está fazendo nada de errado. Está apenas cuidando da sua própria saúde. Você merece.

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