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Racismo na medicina americana – e mais algumas reflexões | Colunistas

Racismo na medicina americana – e mais algumas reflexões | Colunistas

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Em 2021, tive a felicidade de publicar um artigo na revista Relações Internacionais do Mundo Atual intitulado “A MEDICINA CONTRIBUIU PARA A SEGREGAÇÃO RACIAL AMERICANA INSTITUCIONALIZADA? Neste trabalho, com a ajuda do colega João Marçal e dois professores, avaliei a relação entre medicina e racismo nos Estados Unidos, sobretudo no período em que o racismo era reforçado por leis em alguns estados do Sul americano. Ademais, este artigo serviu também como meu trabalho de conclusão de curso. Dessa forma, o contato repetido com tema não me causou enfado, mas o desejo de escrever um pouco mais sobre o que li, agora livre da preocupação com as normas de trabalhos acadêmicos e mais voltado às minhas impressões e reflexões. Portanto, me sinto justificado para não encher estas linhas com referências, limitando-me a citar o artigo que serviu de base e que, assim, contém toda a bibliografia consultada. 

Inicio explicando as motivações para o tema:

  1. Por que medicina? Me intriga o fato de que uma área tão voltada (ou que pelo menos deveria estar voltada) à ciência e ao ser humano possa ser vítima do racismo. Não caberia à ciência, com sua objetividade, servir de ferramenta para que o ser humano percebesse as limitações em seu julgamento dos fatos? Estaria ela, portanto, selecionando alguns fatos “objetivos” para justificar os preconceitos de certos “cientistas”, incluindo? Seria então a ciência uma mera ferramenta vulnerável ao bel prazer de quem a exerce?
  2. Por que segregação racial americana? É comum que país pobre seja sinônimo de país atrasado. Todavia, não é estranho que os EUA, uma das maiores nações do planeta em diversos aspectos, tenha criado leis que endossaram o racismo? Ou seja, ser um país rico não é sinônimo de desenvolvimento social?
  3. Por que segregação racial americana institucionalizada? Normalmente pensamos que o racismo é uma patologia social, um problema a ser solucionado, e nunca como algo que constitui a sociedade, a qual depende dele para manter-se como está. Sendo assim, não é estranho que, repito, numa das nações mais importantes do planeta, houve agentes públicos que criaram e defenderam  leis com o objetivo de institucionalizar o racismo, de normalizá-lo, impedindo que negros e brancos frequentassem os mesmos espaços públicos, o que resultou para os primeiros a limitação ou mesmo a negação dos direitos à saúde, educação e segurança?

Sim, a medicina estadunidense contribuiu para o racismo, e o fato dos EUA serem considerados um país de Primeiro Mundo não o livrou de ser racista. E não, não foram apenas recalcados ignorantes com roupas da Ku Klux Klan que reforçaram o racismo, mas advogados, juízes, médicos, policiais, políticos, enfim, pessoas que, teoricamente, estariam preparadas para proteger os cidadãos. Agora, além de saber que a medicina contribuiu para o racismo, importa tentar entender por que ela fez isso. Neste sentido, há dois aspectos fundamentais, que são o conceito de racismo estrutural e o peso da economia nas decisões humanas. Comecemos pelo primeiro.

Por racismo estrutural, entende-se que o racismo consiste na identificação de determinados grupos sociais como diferentes, os quais, a longo prazo, terão menor acesso a direitos, gerando assim um ciclo de desigualdade que se perpetua ao longo da História. No caso americano (e também brasileiro), a vida da grande maioria dos negros começou no continente americano pela escravidão, na qual eles existiam enquanto objeto a serviço daqueles que os compravam. O fim da escravidão, entretanto, não representou o fim da segregação, já que, mesmo “livres”, os negros se viram escanteados na sociedade americana, o que se perpetuou com a criação de leis que tornaram o racismo uma prática tornada “legal”. Ou seja, o caso americano mostra que o racismo não é fruto de algumas mentes obscuras, mas uma prática que está na medula das ações humanas e institucionais, garantindo que uma parte da população seja considerada inferior. O racismo é estrutural, isto é, faz parte da estrutura da sociedade, e se expressa nas instituições, nas relações humanas e, portanto, até na medicina da sociedade por ele acometida. Dessa forma, mais do que contribuir com o racismo, a medicina estadunidense refletiu o racismo estadunidense.

Falando agora do peso da economia nas relações humanas, relembremos que os negros entraram no nosso continente pela porta da escravidão, um negócio lucrativo que durou séculos. Como já dito, o racismo se manteve mesmo após a escravidão, com a segregação sendo mantida nas mais diversas instituições públicas e privadas, incluindo hospitais. E, no caso dos hospitais, chama atenção o fato de que o fim da segregação racial nestas instituições não terminou com a revogação das leis estaduais que permitiam a segregação, mas apenas após a criação de um seguro de saúde voltado para a terceira idade (o Medcare), pago pelo governo federal às instituições que não se recusassem a atender pacientes negros. Ou seja, não adiantou que a lei obrigasse, foi só quando o racismo representou prejuízo econômico que muitos hospitais se viram obrigados a “deixar de serem” racistas.

O fator econômico também foi marcante na relação entre medicina e racismo, já que, durante a escravidão, os médicos atuavam como “engenheiros consultores” da saúde dos escravos, além de terem atuado como peritos em contendas judiciais quando um comprador de escravos acusava um “comerciante” de ter vendido uma “peça” com “defeito”. Os hospitais também lucravam ao oferecer atendimento aos escravos nas negro infirmaries, bem como ao criar campos de “residência médica” em negro medicine, já que a medicina de então considerava brancos e negros como serem humanos biologicamente distintos. As tentativas dos primeiros médicos negros de mostrar que as supostas diferenças entre negros e brancos se deviam às diferentes condições de vida não encontraram ressonância na “ciência” de então.

Economia interferindo nas ações deve nos lembrar da pessoa que analisou isso com uma profundidade fora do comum: um cara chamado Karl Marx. Não sou marxista, não me considero “-ista” em coisa alguma, mas é um fato que a economia é um personagem fundamental na história do ser humano. O exemplo a favor disso que me ocorre agora é de ordem pessoal, mas que já pode ter sido notado por alguns de vocês. Me refiro ao fenômeno das formações de grupos nas salas de medicina depois do surgimento das cotas. Não sei se vocês já notaram mas, pelo menos na minha turma, percebo com clareza como os alunos cotistas e não-cotistas acabam se aproximando como que “por acaso”. Afinal, a renda determina os locais que você frequenta e, por extensão, as pessoas que você conhece e, portanto, seu círculo social. Um aluno que precisa cuidar da casa e trabalhar para se sustentar não frequenta aquela casa de shows chique que cobra o olho da cara logo na entrada (mais que um indicativo de valor, o preço também pode ser uma barreira). Por motivos semelhantes, é difícil que esse aluno tenha um parente médico bem relacionado que lhe ofereça uma network  a qual, na verdade, representa um porta aberta para campos de estágio e emprego. Dessa forma, esse aluno acaba se associando “sem querer” aos seus semelhantes, onde encontra mais compreensão e empatia. Não, os alunos abastados não são em si maldosos, nada disso, mas sua vida os habilita a entrar em contato com seus semelhantes, cabendo aos menos abastados destino semelhante no lado menos iluminado da vida.

E não acabam aí as contribuições de Marx na compreensão dos temas que trago aqui. Afinal, para ele, a economia seria a infraestrutura da sociedade, se refletindo na sua superestrutura, isto é, na sua política, leis e até mesmo em sua produção de conhecimento. Para Marx, a religião, as leis, a ciência, enfim, a cultura de uma sociedade, serviriam para a manutenção do status quo econômico. E, nesse sentido, não é de se espantar que a medicina, além de ter lucrado em sua contribuição à escravidão, tenha produzido muita “ciência” no sentido de “justificar” o racismo, tentando provar que a pobreza mais prevalente entre os negros se devesse à sua incapacidade de adaptação à sociedade “moderna”, que a miscigenação racial seria um risco porque negros poderia transmitir anemia falciforme para sua descendência, que os negros deveriam ser médicos para cuidar de “sua gente” (como disse o famigerado Relatório Flexner).

No artigo que serviu de base para esta coluna, não cheguei a abordar com tantos detalhes a questão econômica, tampouco citei Karl Marx, de modo que estas linhas servem para preencher esta lacuna. Num tempo em que se ama ou odeia personalidades e ideias, é importante trazer as contribuições de quem quer que seja para debate e compreensão do mundo, sem intenções panfletárias ou difamatórias. Para além de direita ou esquerda, frente ou traseira, nosso compromisso deve ser com a verdade, venha de onde ou de quem vier.

Acabei falando de cotas, um tema tão ligado à questão racial, mas focando nas implicações econômicas de ter alunos pertencentes a duas realidades econômicas tão distintas. Acho que me empolguei, ou mesmo me distanciei dos propósitos iniciais de abordar o artigo citado no princípio. 

Enfim, esta é uma humilde coluna, não é um artigo ou um TCC. Espero que vocês me perdoem a maneira desgarrada de pensar – normas orientam, mas às vezes limitam, e até racismo já esteve dentro das leis, das “normas”.

Referências

FREIRE NETO, Lourenço de Miranda et al. A MEDICINA CONTRIBUIU PARA A SEGREGAÇÃO RACIAL AMERICANA INSTITUCIONALIZADA?. Relações Internacionais no Mundo Atual, [S.l.], v. 1, n. 30, p. 178 – 204, maio 2021. ISSN 2316-2880. Disponível em: <http://revista.unicuritiba.edu.br/index.php/RIMA/article/view/5360/371373288>. Acesso em: 18 dez. 2021. doi:http://dx.doi.org/10.21902/Revrima.v1i30.5360.

KONDER, Leandro .Marx: vida e obra. São Paulo, Paz e Terra, 1968

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.