Introdução
Por muito tempo o médico foi conhecido como o detentor da arte de curar, algo correspondente a um alto patamar social e intelectual. Atualmente, numa era em que novos métodos de diagnóstico e de tratamento surgem constantemente, a prática médica deixou um pouco de lado o seu antigo caráter místico e passou a ser guiada pela ciência e protocolos internacionais. Com isso, em muitos aspectos a medicina se tornou mecanizada, preocupando-se não com o paciente em sua totalidade, mas restringindo o olhar do profissional aos aspectos biológicos da doença.
A Relação médico paciente
Como acontece?
A Psicologia Médica é uma área de estudo que contribui muito no entendimento
da relação médico-paciente. Ela busca estudar a psicologia do médico, do
paciente, da relação entre eles, da família do paciente, e de todo o contexto
externo que abrange tais relações, de modo que direcione a conduta do
profissional de saúde. Nesse sentido, ao passo que a interação médico-paciente
envolve uma comunicação entre esses indivíduos, ela também abrange dois fenômenos
psicológicos em especial: a transferência e a contratransferência.
A transferência, segundo Marques Filho (2003, p.1)1, ocorre quando ações de uma pessoa se baseiam em experiências passadas, principalmente do seu desenvolvimento durante a infância e adolescência.
Situações de doença são momentos de vulnerabilidade, então muitas vezes as pessoas direcionam sentimentos de decepção e expectativas para o médico – profissional em quem elas procuram alívio para o sofrimento. Mas ela também pode ser positiva, em que a segurança se torna um sentimento predominante e importante para o sucesso do processo terapêutico.
Já a contratransferência, de acordo com Marques Filho (2003, p.2)1,
parte dos médicos, os quais podem transferir aos pacientes suas frustrações do
presente e trata-los de modo inadequado sem uma causa aparente. Por outro lado,
muitas vezes é positiva, frequentemente respondendo à transferência também
positiva com manifestações de afeto e empatia, de forma que o médico se
solidariza com a dor do paciente.
O que mudou com os anos?
O surgimento de novos recursos diagnósticos e terapêuticos, a influência da indústria farmacêutica, e novas diretrizes na contratação de médicos – as quais envolvem aumento da carga horária, ausência do reajuste e até redução de salários – têm afetado o serviço desses profissionais.
A esfera de relação entre médico e paciente sofre com os reflexos dessa situação, e fatores como a atenção antes dada à anamnese e ao exame físico, importantes para que o paciente desenvolvesse sua confiança pelo profissional, são muitas vezes deixados de lado. Ao passo que isso acontece, cria-se um distanciamento entre tais partes, congelando seu relacionamento e comprometendo intensamente o processo de recuperação do doente.
Por que é tão importante?
Quando o médico tem ciência das diversas esferas da vida do paciente, como o contexto sócio-econômico-cultural em que ele está inserido, e principalmente de uma vida mental3 inerente àquele, torna-se mais fácil tratá-lo.
A compreensão de diversos eventos externos, além da doença, permite que o médico lide melhor com transferências positivas e negativas, entendendo que aquela pessoa precisa de cuidado e a partir disso moldar sua contratransferência, ganhar confiança do paciente, e assim prosseguir com uma conduta terapêutica mais adequada.
Conclusão
O médico deve desenvolver uma atitude psicoterápica frente ao paciente, que muitas vezes não busca só retornar à saúde física, mas também reverter os danos da doença em outras esferas de sua vida. O médico não precisa assumir a postura de um psicólogo, mas se mostrar solidário ao sofrimento alheio.
Desse modo, destaca-se a importância também de incluir a dimensão psicológica na formação do estudante de Medicina, para que a sua formação enquanto profissional permita o exercício de uma medicina mais humanizada e focada no paciente.
Autora: Beatriz Cunta Gonçalves, Estudante de Medicina
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