Antigamente, a malária era conhecida como “príncipes dos demônios” pelos judeos, ària cattiva ou mal’ aria (ar ruim) pelos italianos e ingleses. Muitos personagens históricos como o faraó Tutankâmon, Santo Agostinho, e Dante Alighieri faleceram do que hoje conhecemos como malária.
Essa é uma doença infecciosa desencadeada por protozoários parasitas do gênero Plasmodium, transmitida pela picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles.
Definida como uma doença febril aguda, a qual infecta um grande número de eritrócitos e desenvolve sintomas como calafrios e febres recorrentes. Existem 4 tipos da doença; P. vivax, P. ovale e P. malariae, P. knowlesi e P. falciparum, o qual é o mais comum e extremamente grave.
Epidemiologia da Malária
A Malária é uma doença endêmica na maior parte dos trópicos. No Brasil, a região endêmica para essa patologia é a Amazônia, fatores socioambientais, variação climática e bioma estão integralmente relacionados com a incidência da doença, devido a isso, na região Norte, há um favorecimento da proliferação do protozoário.
Ademais, é um local precário financeiramente, com baixa assistência médica, o que beneficia o alto índice da doença. Estima-se que no ano de 2019 houveram cerca de 219 milhões de casos confirmados no mundo, além disso, todos os anos são relatados cerca de 2000 casos da doença nos EUA em pessoas que viajam para regiões tropicais.
Fisiopatologia
Ciclo de vida do parasita
A transmissão da malária ocorre pela picada do mosquito fêmea que esteja infectado da espécie Anopheles. Durante a picada o mosquito infectado injeta os parasitos no sangue, o qual entra no ciclo pré-eritrocítico (exo-eritrocitário) no fígado, e um ciclo eritrocítico no sangue, que tem duração de 24 a 72 horas de acordo com o parasito, após adentrar a corrente sanguínea, o esporozoito adentra o fígado (hipnozoítos responsável pela forma latente) infectando os hepatócitos, local esse que ocorrerá o desenvolvimento dos esquizonte que posteriormente irão se romper e liberar os merozoítos que infectaram os eritrócitos (glóbulos vermelhos) e formam os trofozoítos móveis; após divisão e multiplicação os esquizontes se desenvolve nos glóbulos vermelhos e rompem-se liberando mais merozoítos que irão infectar outros eritrócitos. Eventualmente, os merozoítos se diferenciam em gametócitos masculino e feminino nos eritrócitos que irão desencadear uma nova produção de material infeccioso caso o sangue seja ingerido por um outro mosquito

Imagem: Relata o ciclo de vida da malária
Características da doença
A principal característica da patologia é a febre, essa é desencadeada pela ruptura de diversos eritrócitos infectados pelos esquizontes no final do ciclo eritrocitário, além disso, apresenta um alto nível de TNF-alfa principalmente na malária grave (P. falciparum).
Quadro clínico de Malária
Os sintomas são inespecíficos e muitas vezes podem ser confundidos com uma gripe, apresentando pródromo, dor de cabeça, fadiga, febre alta e sudorese. No início, a febre é intermitente ou irregular, caso não haja o tratamento necessário, pode se tornar regular com ciclos de 48 ou 72 horas, além disso, é comum o paciente apresentar dor de cabeça, mal-estar, mialgia, artralgia, calafrios, confusão, tosse, dor torácica, anorexia, náuseas, vômitos, diarreia e em alguns casos, podendo apresentar episódios de convulsões. Ao exame físico é capaz de evidenciar anemia, icterícia, esplenomegalia e hepatomegalia leve.
Diagnóstico de Malária
Uma boa anamnese é sempre importante para diagnosticar uma doença, por isso é importante questionar se o paciente fez alguma viagem recente para regiões endêmicas uma vez que o período de incubação após a picada é de 14 dias para P. falciparum e duas semanas para as demais espécies.
Para auxiliar no diagnóstico podem ser solicitados alguns exames laboratoriais que podem evidenciar anemia, trombocitopenia e alterações nos exames de função hepática e função renal, ainda assim, pode ser solicitado esfregaço sanguíneo que é o padrão ouro para o diagnóstico em áreas endêmicas, detecção de antígenos e o PCR (Reação em cadeia de polimerase).
Tratamento da Malária
Para o tratamento podem ser utilizados alguns tipos de antiparasitários como:
- Cloroquina associada a uma aminoquinolona: tratamento de primeira escolha tanto para malária falciparum como para não falciparum;
- Mefloquina, halofantrina e lumefantrina: atuam nas cepas resistentes a cloroquina;
- Quinina e quinidina: tem uma ação rápida e podem atuar nos tipos de malária não grave;
- Primaquina: é a única que atua na forma hepática latente da P. vivax e do P. ovale;
- Inibidores do metabolismo de folato: utilizados para o tratamento e a prevenção;
- Artemisininas: auxiliam na eliminação rápida da circulação de parasitas e agem contra os gametócitos para limitar a transmissão;
- Malarone (associação de Atrovaquona-Proguanil): essa combinação atua eficazmente contra a maioria das infecções P.falciparum;
- Antibióticos: tetraciclinas, clindamicina, ambos de ação lenta podem ser utilizados.
Prevenção da Malária
Infelizmente, para essa doença, não há vacina para a prevenção, sendo assim, para se prevenir é necessário que nas regiões endêmicas seja feito o controle dos mosquitos vetores com pulverização intradomiciliar de inseticidas, utilização de mosquiteiros com inseticidas, além de consultar um médico para ver se há indicação de tratamento preventivo.
Autor(a): Mariane Capitani Fraia – @marii_fraia
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Boletim Epidemiológico: Malária 2020. Secretaria de Vigilância da Saúde, novembro 2020. Acesso em: 24 jun. 2021.
BEST PRACTICE – BMJ – Infecção malárica, 2020. Acesso em: 24 jun. 2021.
https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/161/case-history
DALE, H. P. Rang et al. Rang & Dale Farmacologia. 8ª. ed. Elsevier, 2016. Capítulo 54 – Fármacos Antiprotozoários. Acesso em: 24 jun. 2021. Disponível em: PDF
ROSENTHAL, Philip J. et al. Malária. In: GOLDMAN, Lee; SCHAFER, Andrew I. Goldman Cecil Medicina. 24ª. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. v. 24, cap. 353, p. 2330. Consulta em livro físico: 24 jun. 2021.