Autor(a): Clara Ferrari Oliveira Savastano
Revisor(a): Luísa de Freitas Bomfim
Orientador(a): Nádia Regina Caldas Ribeiro
Liga: Liga Acadêmica de Gastroenterologia e Hepatologia (LAGH)
Instagram: @laghbahiana
Definição
A gastrite pode ser definida como a presença de inflamação da mucosa gástrica, de forma aguda ou crônica, acompanhada de lesão epitelial e regeneração da mucosa. Geralmente, ela é classificada de acordo com seus aspectos endoscópicos e histológicos, de acordo com o Sistema Sidney, o mais utilizado atualmente. Existem diversas formas de apresentação da gastrite; entretanto, a manifestação mais comum é a gastrite crônica induzida por Helicobacter pylori. A H. pylori é uma bactéria espiralada e gram negativa, que possui boa adaptação ao ambiente gástrico, colonizando o muco de revestimento do estômago. Ela é considerada um carcinógeno do tipo I.
Epidemiologia
A
predominância da gastrite está associada à colonização pela bactéria
Helicobacter pylori, que chega a infectar cerca de metade da população mundial.
A prevalência da infecção por H. pylori aumenta com a idade e é praticamente igual
em homens e mulheres. Além disso, há uma elevada prevalência de comprometimento
em países em desenvolvimento, comparada à uma diminuição dela em países
desenvolvidos.
Fisiopatologia
Cerca de 95%
dos casos de gastrite crônica são causados pela infecção por H. pylori, sendo
uma das infecções mais comuns em seres humanos. A evolução clínica depende de aspectos
do hospedeiro e da própria bactéria, em interação. A lesão do epitélio pode
ocorrer diretamente, através da liberação de enzimas e toxinas, ou por meio da
indução de resposta inflamatória do hospedeiro. Apesar da indução dessa
resposta imune local, uma vez adquirida, a infecção persiste para sempre e
raramente regride naturalmente. Depois da fase aguda, o padrão da gastrite vai
depender do curso da infecção.
A região de
antro é frequentemente a primeira a ser acometida e esses indivíduos mantém a
produção de secreção gástrica ácida normal, visto que a mucosa oxíntica é
preservada. Entretanto, esses pacientes têm mais chances de desenvolver úlcera péptica.
O
acometimento da região de corpo gástrico indica comprometimento de secreção e a
inflamação pode resultar no desenvolvimento de atrofia da mucosa, que predispõe
ao câncer gástrico.
Assim, é
possível estabelecer a sequência: infecção pelo H. pylori → gastrite crônica
→ atrofia glandular → metaplasia intestinal.
A
possibilidade de a gastrite crônica evoluir para atrofia gástrica, metaplasia
intestinal, displasia e neoplasia dá suporte para a classificação do H. pylori
como carcinógeno tipo I, segundo a Associação Internacional para Pesquisa contra
o Câncer, da OMS.
Quadro clínico
Em geral, a
gastrite é descrita como assintomática e silenciosa. Entretanto, podem surgir
alguns sintomas inespecíficos, como dor em epigástrio que pode irradiar para
tórax ou outras regiões abdominais, pirose, náuseas e vômitos.
Dessa forma,
o maior significado clínico da gastrite crônica por H. pylori é o risco de
aparecimento de úlcera péptica e carcinoma gástrico.
Diagnóstico
Uma boa anamnese e exame físico são
importantes no diagnóstico de gastrites, bem como o exame histológico da mucosa,
que é mandatório, nesse caso. Assim, é importante a realização de endoscopia
com biópsia para a diferenciação de outras afecções gástricas. Além disso, pode
ser realizado teste para presença de Helicobacter pylori com anticorpos no
soro, teste de antígeno nas fezes e teste respiratório com ureia marcada com
carbono-13.
Tratamento
Não há
consenso em relação ao tratamento da gastrite crônica induzida por H. pylori. A
erradicação da bactéria promove resolução do processo inflamatório, ou seja, da
gastrite ativa e reduz a incidência/recorrência da doença ulcerosa. Além disso,
parece ser capaz de impedir o progresso de complicações como atrofia e
metaplasia intestinal. Entretanto, a
melhora da sintomatologia foi observada em menos de 10% dos casos. Como existe
um maior risco de câncer a longo prazo, pacientes com histórico familiar
positivo de câncer gástrico devem ser tratados. Ainda são necessários mais
estudos e associações para estabelecer o valor da erradicação do H. pylori.
Já é um consenso que a erradicação do H. pylori deve ser feita com esquema tríplice, sendo os esquemas monoterápicos ou duplos de pouco valor.