Urgência e Emergência

Resumo: Primeiros Socorros à Vítima de Afogamento

Resumo: Primeiros Socorros à Vítima de Afogamento

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Segundo David Spilzamn, afogamento é definido como resultado de asfixia por imersão ou submersão em qualquer meio líquido, provocado pela entrada de água em vias aéreas, dificultando parcialmente ou por completo a ventilação ou a troca de oxigênio com o ar atmosférico.

Dados do DATASUS revelam que, em 2019, o número de óbitos por afogamento e submersões acidentais no Brasil foi de 4.869, ficando a região Nordeste em primeiro lugar com 1.541 casos. Dessa região, a Bahia ganha destaque sendo o estado com maior número de óbitos.

Quando analisados com base na faixa etária, os dados epidemiológicos mostram que os adultos entre 20 e 29 anos são as principais vítimas, seguidos dos adultos entre 40 e 49 anos, 50 e 59 anos e das crianças de 1 a 4 anos.

Em relação ao sexo, homens morreram por afogamento 6,7 vezes mais que as mulheres, sendo 4.233 casos.

Mecanismo da lesão no afogamento

No afogamento, devido a entrada de líquido nas vias aéreas, a função respiratória sofre prejuízos que podem ocorrer devido a uma obstrução completa ou incompleta das vias aéreas superiores, ou pela aspiração gradual de líquido até os alvéolos.   À medida que a situação progride, a aspiração de água contínua leva à hipoxemia que, após segundos ou minutos, culmina em perda de consciência e apneia. Em sequência, têm se bradicardia, redução da atividade elétrica do coração e assistolia.

Quando há o resgate da vítima, seu quadro clínico é determinado pela quantidade de líquido aspirado e, caso seja necessária a reanimação cardiopulmonar, o risco de dano neurológico é semelhante ao de outros casos de parada cardíaca. Entretanto, mecanismos como a hipotermia reduzem o consumo de oxigênio cerebral, diminuindo a hipóxia celular e, consequentemente, retardando os danos causados pelo afogamento.

Quadro Clínico

A vítima de afogamento pode se manifestar com agitação, dificuldade respiratória, inconsciência, parada respiratória e parada cardíaca. Isso acontece devido à aspiração de líquido não corporal, que causa asfixia por conta do encharcamento dos alvéolos pulmonares ou por espasmo da glote, que pode se fechar e obstruir a passagem de ar pelas vias aéreas.

No caso da aspiração da água, a hematose é diminuída ou até mesmo paralisada, uma vez que o líquido nos alvéolos não permite que o oxigênio passe para a corrente sanguínea, tampouco que o gás carbônico saia do organismo. Por conseguinte, células que antes produziam energia aerobicamente passam a produzi-la anaerobicamente, resultando na produção de ácido lático, que se acumula no organismo proporcionalmente ao tempo e ao grau de hipóxia. O acúmulo de ácido lático e CO2, em associação à hipóxia, causam distúrbios principalmente no cérebro e no coração.

Além disso, a baixa de O2 e o estresse causado pelo incidente resultam em uma descarga adrenérgica, causando aumento da frequência cardíaca – a qual pode resultar em arritmias cardíacas, que podem levar à parada do miocárdio -, bem como a vasoconstrição dos vasos sanguíneos na pele, que se torna fria e cianótica. Caso o afogamento ocorra em água salgada, cuja concentração de NaCl é muito maior que a do plasma sanguíneo, a água do mar aspirada, mais densa, pode promover uma espécie de infiltração, por osmose, do plasma no pulmão, o qual fica encharcado, ocorrendo também a hemoconcentração, dificultando ainda mais a troca gasosa.

Por outro lado, na água doce – cuja concentração de NaCl é menor que a do plasma sanguíneo -, em decorrência de o plasma ser mais denso que a água, esta passa para a corrente sanguínea e causa hemodiluição e hipervolemia.

Ademais, a vítima de afogamento geralmente desenvolve um quadro de inflamação pulmonar, que pode evoluir para pneumonia, devido à água aspirada e às impurezas e microrganismos nela encontrados.

Somado a isso, o processo de afogamento envolve três fases:

1) Angústia: fase na qual o indivíduo é submetido a grande esforço ou dificuldade, ou ainda se encontra receoso ou perturbado. Pode haver período de aumento da angústia antes do período real da emergência do afogamento. À medida em que a força do nadador se esgota, a ocorrência da angústia progredirá para o pânico se a vítima não for resgatada ou ficar em segurança;

2) Pânico: pode progredir da fase acima ou começar imediatamente após a imersão da vítima na água. O indivíduo torna-se incapaz de manter sua flutuabilidade devido à fadiga, à falta de habilidade natatória ou a algum problema físico;

3) Submersão: pessoas sem um equipamento flutuante que perdem sua habilidade para se manter flutuando submergem e vão até o fundo. Isso pode ocorrer mais rapidamente na água doce, que proporciona menor flutuabilidade que a água salgada. Uma vez ocorrida a submersão, a chance de um resgate bem-sucedido diminui drasticamente.

Se uma pessoa é resgatada viva, o quadro clínico é determinado pela quantidade de água que foi aspirada e os seus efeitos. Todos os casos de afogamento podem apresentar hipotermia, náuseas, vômitos, distensão abdominal, tremores, cefaleia, mal-estar, cansaço, dores musculares, dor torácica, diarreia e outros sintomas inespecíficos. Diante disso, a vítima de afogamento pode ser classificada em 6 diferentes graus, de acordo com alguns critérios como frequência cardíaca e sinais de insuficiência respiratória aguda.

Manual resumido de Emergências Aquáticas – 2019
Dr David Szplilman. Tabela com graus do afogamento, sinais, sintomas e condutas.

Por fim, para saber a gravidade do afogamento, o socorrista deve avaliar o nível de consciência, por estímulo tátil ou sonoro, a eficiência circulatória – pela verificação do pulso carotídeo -, e a eficiência respiratória – mediante inspeção e ausculta pulmonar. Na ausculta pulmonar, algumas anormalidades podem ser detectadas, como a presença de sibilos, roncos e estertores.

Tratamento

A priori, é necessário observar o cenário do incidente: a profundidade do local, a quantidade de vítimas e a presença ou não de equipamento disponível para o resgate. Depois dessa avaliação, deve-se tentar, primeiramente, realizar o resgate sem entrar na água, principalmente se o socorrista não for uma pessoa com treinamento especializado ou não tiver uma boa natação.

Assim, se a vítima se encontra a menos de 4 m estenda uma corda, galho, ou cabo de vassoura para ela – se estiver muito próxima, é mais seguro oferecer o pé em vez da mão. Caso a vítima esteja entre 4 e 10 m – como em rios, encostas e canais – deve ser priorizado fornecer flutuação a ela, evitando sua submersão – pode-se atirar, para ser   utilizado como boia, garrafas de plástico de 2L vazias e tampadas, materiais em isopor, bola, espumas diversas, madeiras.

Em seguida, caso seja necessário entrar na água, deve-se fazê-lo diagonalmente e garantir que a vítima visualize o socorrista. Em situações de afogamento, em geral, a vítima encontra-se em estado de pânico, debatendo-se na superfície de modo quase incontrolável; por isso, mantendo uma distância segura, acalmando-a verbalmente.

No caso de a vítima se agarrar ao socorrista, ele deve se afundar com ela para que consiga se soltar. A abordagem física consiste em agarrar o afogado pelas costas, para rebocá-lo: o braço de dominância de quem atende deve ficar livre para ajudar no nado, já o braço não dominante será utilizado para segurar a vítima por baixo da axila e apoiando o peito. Ademais, o posicionamento da vítima para o primeiro atendimento em área seca deve ser paralelo à água, o mais horizontal possível, deitado em decúbito dorsal.

Se estiver consciente, coloque o afogado em decúbito dorsal a 30º. Se estiver ventilando, porém inconsciente coloque-o em decúbito lateral direito. É imprescindível manter as vias aéreas permeáveis, deixar que o líquido aspirado seja expelido naturalmente e evitar a incidência de vômitos, desse modo, não é recomendado tentar retirar a água – que provém não só dos pulmões, mas também do estômago – por intermédio da Manobra de Heimlich (indução de tosse artificial por meio de pressão com as mãos no músculo diafragma, de modo a comprimir os pulmões para que objetos estranhos deixem a traqueia).

Além disso, é possível classificar o afogado em consciente – aproximadamente 99% das ocorrências – e inconsciente. Nos casos em que a vítima encontra-se consciente, o resgate   deve conduzir a pessoa até a terra sem demais cuidados médicos. Por outro lado, afogados inconscientes exigem como medida mais importante a instituição imediata de ventilação ainda dentro da água. O socorrista que encontra uma vítima inconsciente deve iniciar a   respiração boca a boca ainda na água caso seja seguro para ambos, uma vez que, de acordo com pesquisas, isso proporciona à vítima uma chance 4 vezes maior de sobrevivência sem sequelas.

Por fim, para melhor prestar os primeiros socorros ao afogado já em terra firme, é necessário classificar a gravidade do afogamento e estabelecer seu tratamento básico. No Suporte Básico de Vida, aplica-se o “ABC” sendo:

  1. Airway: avaliar se as vias aéreas estão desobstruídas testando a responsividade do paciente por meio de perguntas como “Você está me ouvindo?” e mantê-las pérvias. Abra as vias aéreas, colocando dois dedos da mão direita no queixo e a mão esquerda na testa, e estenda o pescoço da vítima.
Observação de vias aéreas. Fonte: http:// www.szpilman.com

2. Breathing: checar se existe respiração – ver, ouvir e sentir – e garantir a ventilação pelos pulmões, observando os movimentos do tórax. Se houver respiração, colocar o afogado em decúbito lateral direito e aplicar o tratamento adequado. Caso não haja respiração, iniciar ventilação boca a boca: obstrua o nariz dele utilizando a mão esquerda, abra a boca dele com os dois dedos da outra mão e realize 5 ventilações boca a boca iniciais observando um intervalo de segundos entre cada uma que possibilite a elevação do tórax, e logo em seguida o seu esvaziamento. É recomendável a utilização de barreira de proteção – máscara – se possível

3. Circulação: Em seguida, verifica-se os batimentos. Caso estejam muito fracos ou ausentes, é extremamente importante realizar a RCP – Reanimação Cardiopulmonar. Fazer duas respirações a cada trinta massagens (2 x 30). Por fim, lembrar também de aquecer a vítima.

Autores, revisores e orientadores:

Autor(a) : Lara Marques Galhardo – @laramarquess

Coautora(a): Letícia Queiroz Limeira – @letql

Autora Mapa mental: Maryana Guimarães de Morais 

Coautora Mapa Mental: Maria Antônia Borges de Almeida Pacheco

Revisor(a): Kauane Moura de Bastos Correia – @kauanemoura Orientador(a): Vinícius Teixeira Macedo

Liga: Liga de Emergência e Trauma (LETES) – @letes.escs

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Referências:

AFOGAMENTO. In: CORRÊA, Rubens; CRIVELLARO, João; FILHO, Ubaldino. Medicina do Trabalho e Primeiros Socorros. Curitiba/PR: [s. n.], 2012.

BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Banco de dados do Sistema Único de Saúde – DATASUS. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/ ext10uf.def. Acesso em: 11 mar. 2021.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR (Espírito Santo). Manual Técnico de Salvamento Aquático. Vitória/ES, 2017. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/ Manual%20Técnico%20de%20Salvamento%20Aquático%20-%20CBMES.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021.

SZPILZAMN, David. Afogamento. Rev Bras Med Esporte. Vol. 6, Nº 4 – Jul/Ago, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbme/v6n4/a05v6n4.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021.

SZPILMAN, David; SOCIEDADE BRASILEIRA DE SALVAMENTO AQUÁTICO

(SOBRASA). Afogamentos: Manual resumido de Emergências Aquáticas. Rio de Janeiro/

RJ, 2019. Disponível em: https://www.sobrasa.org/new_sobrasa/arquivos/baixar/ Manual_de_emergencias_aquaticas.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021.

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