O Transtorno do Espectro Autista é um transtorno do desenvolvimento neurológico pervasivo e permanente, ou seja, não há cura. Ele é caracterizado pela dificuldade de comunicação e interação social, e pela presença de comportamentos repetitivos e interesses limitados.
Como o próprio nome já diz, o TEA é um espectro, por isso, ele varia do grau leve ao mais severo, sendo que a Associação de Amigos do Autista (AMA) considera como os principais pilares do espectro a dificuldade de comunicação, socialização e uso da imaginação.
Epidemiologia
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde Brasil (OPAS Brasil), em 2017, 1 em cada 160 crianças no mundo foram diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista. De acordo com estudos realizados nos últimos 50 anos, a prevalência do TEA está cada vez mais alta. Esse aumento é explicado pela ampliação de critérios diagnósticos, instrumentos de rastreamento e diagnósticos com propriedades psicométricas adequadas; ou seja, não é o número de crianças com TEA que está aumentando, mas sim a quantidade de diagnósticos corretos.
Infelizmente, este dado não representa integralmente todas as crianças, já que crianças brancas são mais frequentemente diagnosticadas com TEA que crianças negras e hispânicas. Por isso, mesmo que o TEA ocorra em diversas etnias e grupos socioeconômicos, o diagnóstico do transtorno e a intervenção precoce é muito menor naqueles de baixa renda familiar.
Outro dado importante sobre a epidemiologia do transtorno é que a prevalência em meninos é maior que em meninas, seguindo uma proporção de 4:1. Alguns estudos recentes de metanálise sugerem a proporção de 3:1, entretanto esses estudos não usaram os critérios da DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Sinais de Alerta
A atenção aos sinais de alerta é de extrema importância, uma vez que a identificação destes torna possível o diagnóstico precoce e, assim, maior probabilidade de uma interferência terapêutica benéfica no desenvolvimento neuropsicomotor do paciente.
Nesse sentido, são comuns sinais de alerta como: atraso no sorriso social, preferir objetos a pessoas, dificuldade em fazer ou manter contato visual, inadequada interação social (baixa reciprocidade, possui engajamento social restrito), atraso no desenvolvimento da linguagem e incômodo anormal com sons altos. Além disso, crianças com TEA podem apresentar regressão, isto é, perder habilidades que já tinham sido adquiridas.
Etiologia
Ainda não há causas conhecidas estabelecidas para o Transtorno do Espectro Autista, entretanto, alguns estudos com gêmeos monozigóticos (idênticos) e dizigóticos (fraternos) indicam que o TEA é causado por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, sendo o comportamento genético muito forte na etiologia do transtorno justamente pela concordância do TEA ser maior nos gêmeos idênticos do que nos gêmeos fraternos.
Quanto aos fatores ambientais, são considerados como possíveis causadores a idade avançada dos pais na concepção da criança, a exposição a medicações no período pré-natal, a negligência dos cuidados às crianças, o nascimento prematuro e o baixo peso ao nascer.
Diagnóstico
O primeiro passo para o diagnóstico do TEA é a realização de uma boa triagem para o espectro na rotina de consultas da criança, mesmo sem sinais clínicos evidentes do diagnóstico ou de outros atrasos do desenvolvimento. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) indica que toda criança entre 18 e 24 meses seja triada e que seja usado o M-CHAT-R (disponível em https://mchatscreen.com/wp-content/uploads/2015/09/M-CHAT-R_F_Rev_Aug2018.pdf).
Vale lembrar que esse teste é uma triagem e não um diagnóstico, por isso nem todas as crianças que obtiverem pontuação de risco serão diagnosticadas com TEA. Essa pontuação varia entre baixo risco, risco moderado e alto risco, de acordo com a pontuação obtida no questionário. Assim, quando é obtida uma pontuação igual ou superior a 2 na Entrevista de Seguimento, no caso do risco moderado, ou obtiver pontuação de alto risco já na primeira triagem, deve-se encaminhar a criança para uma avaliação diagnóstica.
A avaliação diagnóstica consiste em exame físico completo, exame neurológico completo, entrevista com os pais, familiares e cuidadores, teste de função auditiva e visual, avaliação clínica da capacidade cognitiva, linguagem e relatos da escola sobre o aprendizado da criança. É importante a observação sobre interação social, comunicação, linguagem, interesses restritos e comportamentos estereotipados.
As manifestações clínicas mais comuns no transtorno são transtorno de ansiedade, deficiência intelectual, transtornos de déficit de atenção e hiperatividade, déficit de linguagem, alterações sensoriais, doenças genéticas, transtornos gastrointestinais, alterações alimentares, distúrbios neurológicos e comprometimento motor.
Várias escalas podem ser usadas para o diagnóstico, sendo o Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais (DSM- 5) o mais comum.
Tratamento
O tratamento de uma criança com TEA deve começar o mais precocemente possível através de uma equipe interdisciplinar, composta por equipe de saúde, equipe pedagógica e a família. Assim, sempre deve ser visado proteger o funcionamento intelectual da criança e desenvolver o potencial social e comunicativo, a fim de expandir a autonomia e melhorar sua qualidade de vida.
Várias modalidades terapêuticas podem ser utilizadas, e devem ser escolhidas de acordo com a individualidade de cada criança, levando em consideração a dinâmica familiar e os recursos disponíveis. Entre as diversas modalidades terapêuticas pode-se citar:
- TEACCH (Tratamento e educação para crianças com autismo e com distúrbios correlatos da comunicação): é muito usado no campo da educação e utiliza o Perfil Psicoeducacional Revisado (PEP-R) para avaliar as maiores dificuldades da criança e criar um programa individualizado. Esse método se baseia na organização do ambiente físico através de rotinas para adaptá-lo de forma que a criança consiga compreendê-lo e entender o que se espera dela.
- ABA (Análise aplicada do comportamento): tem como objetivo ensinar à criança habilidades que ela não possui, ensinando cada uma delas de forma individual e associada a indicações ou instruções.
- PECS (Sistema de comunicação através da troca de figuras): é utilizado principalmente com aqueles que possuem baixa comunicação ou não se comunicam. Esse método tem como objetivo ajudar a criança entender que é muito mais fácil e rápido conseguir as coisas que deseja através da comunicação, estimulando-a a se comunicar. O método consiste em 6 fases e começa ensinando a criança a dar uma figura de um item ou ação desejada a um “parceiro de comunicação”, que imediatamente faz a troca como se fosse um pedido.
O tratamento do TEA também pode ser feito com medicamentos para controlar sintomas associados ao transtorno que interfiram negativamente na qualidade de vida. Portanto, a SBP indica o uso de tratamento psicofarmacológico apenas se a criança apresentar comportamentos disruptivos, como ações autolesivas (bater a cabeça, se morder), agressões (agridem outras pessoas) e destrutividade. Ainda segundo a SBP, as medicações mais usadas são risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, clozapina e aripiprazol.
Autores e revisores
Autor: Giulia Beatriz Gasparini Silva
Revisor: Letícia Ribeiro da Cunha
Liga: Liga Acadêmica de Pediatria – LaPed
Instagram: @lapeduel
O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DE PEDIATRIA DO DESENVOLVIMENTO E COMPORTAMENTO. Transtorno do Espectro Autista. Manual de Orientação, n. 5, abr. 2019. Sociedade Brasileira de Pediatria. Acesso em: 05 fev. 2021.
HODGES, H.; FEALKO, C.; SOARES, N. Autism Spectrum disorder: definition, epidemiology, causes and clinical evaluation. Translational Pediatrics, v. 9, p. S55-S65, fev. 2020. DOI:
MELLO, A. M. S. R. Autismo: guia prático. 7. ed. São Paulo: AMA; Brasília: CORDE, 2007. Acesso em: 05 fev. 2020.
OPAS BRASIL. Folha Informativa: Transtorno do Espectro Autista. Abr. 2017. Acesso em: 05 fev. 2021.
ROBINS, D. L.; FEIN, D.; BARTON, M. Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised, with Follow-Up. 10 ago. 2018. Acesso em: 05 fev. 2021. Disponível em: https://mchatscreen.com/wp-content/uploads/2015/09/M-CHAT-R_F_Rev_Aug2018.pd