Clínica Médica

Resumo de hanseníase: principais aspectos | Ligas

Resumo de hanseníase: principais aspectos | Ligas

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O Brasil é um dos países que mais possuem casos registrados de hanseníase no mundo, constituindo um problema de saúde pública que reflete desigualdades socioeconômicas e que necessita de um empenho intensivo em prol de sua prevenção e de sua detecção precoce. Para isso, é de suma importância estimular o esclarecimento sobre as particularidades dessa doença infecciosa.

1.     Aspectos epidemiológicos

A hanseníase é uma doença crônica causada pelo Mycobacterium leprae, estando, atualmente, num contexto de erradicação do cenário mundial, a não ser no Brasil, onde ocupa a segunda posição no mundo entre os países que registram casos novos. No Brasil, as áreas economicamente menos desenvolvidas são mais endêmicas, como Nordeste, Norte e Centro-oeste, havendo uma relação direta da incidência da doença com o aspecto socioeconômico de cada região.

Aproximadamente 55% dos novos casos são registrados em homens, o que ainda não se torna significativo para afirmar que há predileção pelo sexo masculino. No que se refere a idade, é mais incidente em adultos jovens (30 a 59 anos).

2.     Fisiopatologia

A hanseníase tem como principal via de inoculação a mucosa das vias aéreas superiores. Em alguns casos, soluções de continuidade na pele podem ser via de ingresso do bacilo.

Após a sua entrada no organismo do hospedeiro, o bacilo de Hansen ocupa dois sítios principais; a pele e as células de Scwann, com tropismo especial pela segunda. Essa célula não tem capacidade fagocítica natural, assim, o M. leprae consegue multiplicar-se de forma contínua e permanece protegido dos mecanismos de defesa do indivíduo. A permanência do bacilo nas células de Schwann pode trazer comprometimento da função neural.

A defesa contra o bacilo é efetuada pela imunidade celular, entretanto, sua exacerbação pode se tornar lesiva ao organismo do hospedeiro. Como consequência da ação das citocinas e mediadores da oxidação, podem ocorrer paralisia periférica e lesões cutâneas e neurais.

3.     Aspectos clínicos

A hanseníase tem sua manifestação clínica, principalmente, em forma de lesões dermatológicas ou neurológicas. As lesões dermatológicas têm uma característica importante: Diminuição ou ausência da sensibilidade.

Os sinais e sintomas clínicos mais comuns da hanseníase são:

  • Manchas pigmentares ou discrômicas com alterações de sensibilidade ao tato, térmica ou a dor.
  • Formigamentos, choques e câimbras nos braços e pernas
  • Caroços, que podem ser pápulas, tubérculos ou nódulos, que, normalmente, são assintomáticos.
  • Madarose: diminuição dos pelos da sobrancelha, de forma localizada ou difusa
  • Pele avermelhada, com atenção à diminuição de produção de suor no local.
  • Sintoma importante: sensação de choque nos nervos periféricos. (dor ou espessamento dos nervos também podem ocorrer)
  • Edema de extremidades com presença de cianose periférica
  • Febre
  •  Artralgia: dor nas articulações, que está associado ao aparecimento de nódulos dolorosos, de aparecimento súbito
  • Sensação de areia nos olhos e olhos vermelhos de maneira crônica (conjuntivite)
  • Linfadenomegalias indolores no pescoço, as quais também podem aparecer nas axilas e virilhas
  • Hepatomegalia e esplenomegalia
  • Obstrução, ressecamento ou sangramento da mucosa nasal
  • Edema na região do osso do nariz

Vale salientar que essas são diversas manifestações da hanseníase, que, ao estarem presentes no paciente, podem orientar o raciocínio clínico para essa doença. Contudo, a hanseníase é dividida em 4 subtipos e, em cada um deles, é possível enumerar, de maneira específica, os principais sinais e sintomas clínicos. 

4.     Classificação

Seguindo a classificação e Madrid (1953), a hanseníase pode ser categorizada em:

  • Hanseníase indeterminada (paucibacilar): fase comum para todos os pacientes no inicio da doença, podendo ser perceptível ou não. A lesão de pele geralmente é única, branca lisa, mal delimitada, a qual não coça, não dói, não arde e há uma diminuição da sensibilidade. Não há comprometimento de troncos nervosos nem grau de incapacidade. Evolui espontaneamente para a cura em 75% dos casos, e a grande maioria dos exames laboratoriais negativam a doença nessa fase (sendo, portanto, importante o diagnóstico clínico). É comum em crianças.
  • Hanseníase tuberculóide (paucibacilar): forma na qual o sistema imune é capaz de atuar combatendo a doença; caracteriza-se, em geral, por lesões únicas, ou em pequeno numero, com bordas elevadas e bem delimitadas, sendo o comprometimento neural intenso e localizado. Pode ocorrer a lesão em “raquete de tênis”, característica da hanseníase tuberculóide, que consiste em um ramo nervoso espessado, emergindo de uma placa tuberculóide, resultando em perda total da sensibilidade de sua área de inervação. Exames subsidiários raramente são necessários para diagnostico, pois sempre há perda total de sensibilidade, associada ou não à alteração de função motora, porem de forma localizada.
  • Hanseníase dimofa (multibacilar): configura-se, sobretudo, por evidenciar muitas manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na pele, com bordas elevadas e mal delimitadas na periferia, ou múltiplas lesões bem delimitadas, mas com a borda externa pouco definida. O paciente pode apresentar perda total ou parcial da sensibilidade comprometendo as funções autonômicas. Ocorre após um longo período de incubação (aproximadamente 10 anos) por conta da lenta multiplicação do bacilo (14 dias). É a forma mais comum de apresentação da doença.]
  • Hanseníase virchowiana (multibacilar): configura a forma mais contagiosa da doença. Não possui manchas visíveis, a pele se apresenta avermelhada, seca, infiltrada, com poros dilatados (casca de laranja), poupando as áreas quentes. Conforme a evolução da doença. é comum surgirem pápulas e nódulos endurecidos, escuros e assintomáticos (hanseomas), bem como a perda dos pelos faciais, exceto do couro cabeludo. O rosto costuma ser liso, a pele e os olhos ficam ressecada, pés e mãos edemaciados e arroxeados. O suor está diminuído ou ausente de forma generalizada, exceto nas áreas não atingidas pela doença, como couro cabeludo e axilas. Dor nas articulações também são frequentes e os exames reumatológicos costumam dar positivo. Em idosos do sexo masculino é comum casos de azospermia, ginecomastia e impotência. Os ramos superficiais dos nervos periféricos são simetricamente espessados, por isso é de fundamental importância uma avaliação completa.
Apresentações de hanseníase - Sanar Medicina

5.     Diagnóstico da hanseníase

O diagnóstico da hanseníase é eminentemente clínico, devendo levar-se em conta a epidemiologia e os achados do exame físico.

Os principais sinais e sintomas que sugerem a doença são áreas da pele (ou manchas) hipocrômicas, acastanhadas ou avermelhadas que possuam alterações de sensibilidade térmica e/ou dolorosa, e/ou tátil; a presença de parestesias que evoluem para dormências; o surgimento de pápulas, tubérculos e nódulos, geralmente assintomáticos; a diminuição ou queda de pelos, podendo ser localizada ou difusa, especialmente na região das sobrancelhas; e a pele infiltrada, com diminuição ou ausência da produção de suor no local.

É necessário avaliar tanto os acometimentos neurológicos, o que pode ser feito por meio da palpação dos nervos à procura de espessamento e alterações das sensibilidades supracitadas, quanto as lesões cutâneas, que se forem associadas a diminuição ou ausência de sensibilidade corroboram fortemente para fechar o diagnóstico, podendo ser utilizados o teste da histamina e/ou da pilocarpina (anidrose) para auxiliar.

Exames complementares, como a bacterioscopia e a histopatologia da lesão cutânea são importantes, pois ajudam a classificar o paciente como paucibacilar (PB) ou multibacilar (MB), orientando o tratamento adequado para cada tipo.

É importante lembrar que um resultado positivo na bacterioscopia confirma o caso como MB, entratanto, um resultado negativo não exclui o diagnostico da doença, e nem obrigatoriamente a classifica como PB.

6.     Tratamento da hanseníase

A hanseníase é uma doença de notificação compulsória, e seu tratamento é feito por meio do Sistema Único de Saúde, que tem o dever de disponibilizar gratuitamente todas as medicações a serem utilizadas pelos portadores dessa enfermidade. O tratamento se dá em parte de forma supervisionada (o indivíduo faz o uso da medicação na própria UBS) e em parte de forma autoadministrada (o indivíduo toma a medicação em casa).

No caso de Hanseníase paucibacilar, em adultos, na parte supervisionada, é feita a administração de Rifampicina, 600mg, e de Dapsona, 100mg, 1x por mês por 6 meses. Na parte autoadministrada, o paciente faz uso de 100mg de Dapsona, 1x por dia durante 28 dias. Repete-se esse ciclo 6x, em no máximo 9 meses.

Já na Hanseníase multibacilar, também em adultos, a parte supervisionada se constitui na administração de Rifampicina, 600 mg, Dapsona, 100 mg, e de Clofazimina, 300mg, 1x por mes por 12 meses.

Na parte autoadministrada, o paciente faz uso de 100mg de Dapsona durante 28 dias e de 50mg de Clofazimina por 27 dias. Repete-se esse ciclo 12x, em no máximo 18 meses.

7.     Prevenção da hanseníase

A Hanseníase, assim como outras doenças causadas por infecções bacterianas, é prevenida levando-se em conta algumas medidas por parte das pessoas.

Primeiramente, ter hábitos alimentares saudáveis, praticar atividades físicas regulares e manter uma boa higiene contribui para uma diminuição do contato com agentes transmissores, lembrando que isso por si só não previne totalmente a Hanseníase.

Outro ponto a ser considerado é que a prevenção de pessoas saudáveis também é influenciada pelo quadro de pessoas portadoras da Hanseníase que convivem em sociedade.

Logo, obter o diagnóstico precocemente e realizar o tratamento correto e efetivo contribuirá para que essas pessoas doentes não transmitam para outras, lembrando que a Hanseníase é transmitida apenas com o contato prolongado.

Por fim, é importante incentivar a tomada da vacina BCG para pessoas que tiveram contato com portadores da Hanseníase, dependendo do quadro vacinal individual.

Confira o vídeo:

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