Anúncio

Doença de Huntington: fisiopatologia, quadro clínico, tratamento e mais!

Índice

ÚLTIMA CHANCE | SÓ ATÉ 30/05

Você só tem +2 dias para garantir sua pós em medicina com até 54% DE DESCONTO no aniversário Sanar.

A sua aprovação no ENAMED 2026, com quem dominou a prova em 2025

A Doença de Huntington (DH) é uma afecção heredodegenerativa (isto é, herdada geneticamente e progressiva) autossômica dominante, do sistema nervoso central, cujos sintomas são causados pela perda marcante de células em uma parte essencial do cérebro denominada gânglios da base.

Epidemiologia da Doença de Huntington

A Doença de Huntington tem uma prevalência global de 4,88 casos para cada 100.000 pessoas. Essa taxa varia conforme a região, sendo mais alta na América do Norte e na Europa.

Além disso, estima-se que a incidência mundial é de cerca de 0,48 novos casos anuais para cada 100.000 pessoas.

A DH pode surgir em diferentes faixas etárias, desde a infância até aproximadamente 80 anos, sendo mais frequente na meia-idade. A forma juvenil, conhecida como variante de Westphal, ocorre antes dos 20 anos e representa menos de 10% dos casos.

Fisiopatologia da Doença de Huntington

A Doença de Huntington é causada pela mutação do gene de uma proteína que todos possuímos, a huntingtina.

A nível cerebral, a huntingtina mutante causa a morte seletiva de neurônios do estriado, córtex e hipotálamo. Esta mutação é constituída por uma expansão contínua de repetições do tripleto CAG, ou seja, o alelo normal transmite-se de geração em geração conforme a regra mendeliana. No entanto, o alelo mutante é instável durante a meiose levando ao aumento de 1-4 unidades do tripleto CAG.

Cabe salientar, também, que apesar de não resultar diretamente da proteína mutante, os mecanismos de toxicidade dopaminérgica, desregulação metabólica, disfunção mitocondrial, stress oxidativo e autofagia são implicados na patologia da DH.

Nota-se que muitos desses mecanismos, somado a degeneração progressiva das células cerebrais, desenvolvem-se lentamente, tornando-se mais evidentes em fases tardias da doença

Quadro clínico da Doença de Huntington

Clinicamente, a Doença de Huntington manifesta-se por uma combinação de sintomas motores, psiquiátricos e cognitivos, sendo a coreia, os distúrbios psiquiátricos e a demência as principais características.

Os primeiros sinais costumam surgir de forma sutil, podendo incluir alterações nos movimentos, bem como mudanças comportamentais e cognitivas.

Todavia, com o avanço da idade, as manifestações motoras tornam-se mais evidentes, e a doença evolui de maneira progressiva e irreversível, levando a um declínio contínuo das funções cognitivas e motoras.

Sintomas e sinais motores

O sintoma mais comum e, por vezes sendo até usado como um sinônimo da Doença de Huntington, é o chamado movimento de Coreia. A coreia caracteriza-se por movimentos involuntários súbitos, breves, espontâneos, sem objetivo e imprevisíveis, que fluem de uma parte do corpo para outra, envolvendo face, tronco e membros.

Devido a degeneração dos núcleos da base, principalmente o putâmen, percebe-se a falha no circuito motor (muito regularizada pela dopamina), o que explica tais movimentos.

Além disso, nos estágios iniciais da doença, a hipotonia associada à hiperreflexia é um achado característico. A distonia, caracterizada por posturas anormais e sustentadas, pode ser observada durante atividades como a marcha. Ademais, pode ocorrer bradicinesia leve.

A perda gradual do controle motor voluntário é um dos principais aspectos da DH. Em fases mais avançadas, essa condição também pode comprometer o diafragma, a faringe e a laringe, resultando em dificuldades na fala (disartria), na deglutição (disfagia) e levando a vocalizações involuntárias.

À medida que a doença progride, há um agravamento na função motora, e a coreia pode ser gradualmente substituída por um quadro rígido-acinético semelhante ao parkinsonismo nos estágios finais. A locomoção torna-se cada vez mais instável, pois tanto a coreia quanto o parkinsonismo prejudicam os mecanismos compensatórios necessários para um caminhar seguro.

Movimentos oculares

Anormalidades nos movimentos oculares podem ser uma característica marcante da Doença de Huntington, especialmente em adultos mais jovens.

Em casos de DH precoce, observa-se um atraso na iniciação dos movimentos de sacadas volitivas (deslocamentos rápidos dos olhos entre diferentes pontos de fixação), além de redução na velocidade desses movimentos.

Essa alteração manifesta-se pela ausência de sacadas eficazes, enquanto a perseguição suave dos olhos permanece preservada. Nos estágios iniciais, também pode haver comprometimento do nistagmo optocinético.

Sintomas psiquiátricos

Pacientes com Doença de Huntington podem manifestar irritabilidade, depressão e dificuldades nos relacionamentos sociais anos antes do surgimento da coreia.

Além disso, sintomas como depressão, paranoia, delírios e alucinações podem ocorrer em qualquer estágio da doença.

A DH também associa-se a um maior risco de suicídio, tanto para os indivíduos diagnosticados quanto para aqueles com predisposição genética.

Comprometimento cognitivo e demência

O declínio cognitivo na Doença de Huntington é inevitável, embora, em casos raros, pacientes que desenvolvem a doença mais tardiamente possam apresentar apenas sintomas motores, devido ao tempo de vida reduzido para a manifestação dos déficits cognitivos.

O principal comprometimento cognitivo na DH envolve disfunções executivas, afetando a tomada de decisões, a capacidade de realizar múltiplas tarefas e a alternância entre diferentes objetivos cognitivos. Além disso, os pacientes costumam não reconhecer suas próprias limitações, incluindo dificuldades perceptivas, motoras e psiquiátricas.

Outras manifestações clínicas

A perda de peso e a caquexia são manifestações comuns na Doença de Huntington, mesmo quando há tentativas de manter uma ingestão calórica adequada.

A causa exata dessa perda de peso não é totalmente compreendida, mas fatores como o aumento do gasto energético devido a movimentos hipercinéticos e alterações no metabolismo celular no músculo ou tecido adiposo podem estar envolvidos.

Em relação a apresentações atípicas, casos raros de DH com início na idade adulta podem envolver sintomas como ataxia nos membros e marcha cerebelar, mioclonia, convulsões ou distonia generalizada. Esses sintomas são mais frequentes em pacientes com início precoce da doença, como na adolescência ou no início da idade adulta.

Diagnóstico da Doença de Huntington

O diagnóstico da Doença de Huntington (DH) baseia-se na avaliação clínica, histórico familiar (quando disponível) e confirmação genética por meio de testes moleculares.

O teste genético identifica a expansão patológica do gene HTT, confirmando com alta sensibilidade e especificidade (98,8% e 100%, respectivamente). Com os testes moleculares, confirma-se qualquer caso suspeito de DH, além de evitar investigações desnecessárias. Além disso, a neuroimagem não é mais usada para confirmar a DH, mas é útil para excluir outras doenças estruturais.

Diagnóstico diferencial da Doença de Huntington

Os diagnósticos diferenciais da Doença de Huntington (DH) incluem uma ampla gama de causas hereditárias e adquiridas.

Entre as causas hereditárias, destacam-se síndromes de fenocópia da DH, como a doença neurodegenerativa devido à expansão do gene C9orf72, atrofia palidoluysiana dentatorubral (DRPLA) e doença de Huntington semelhante à 2 (HDL2). Essas condições podem apresentar sintomas semelhantes à DH, incluindo coreia e demência, mas possuem causas genéticas diferentes.

Entre as causas adquiridas, a coreia pode resultar de acidente vascular cerebral (AVC) nos gânglios da base, exposição a toxinas, distúrbios infecciosos ou autoimunes. Nesses casos, a ressonância magnética (RM) do cérebro pode ajudar a identificar condições como infarto isquêmico, neurodegeneração associada à pantotenato quinase, esclerose múltipla, neoplasias ou doença de Creutzfeldt-Jakob.

Tratamento da Doença de Huntington

O tratamento da Doença de Huntington é focado em proporcionar suporte, com o objetivo de controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida, sendo mais eficaz quando realizado por uma equipe multidisciplinar.

Com base nos mecanismos fisiológicos já descritos e sabendo-se que a dopamina facilita os neurônios estriatopalidais, pode-se concluir que existe uma correlação entre a atividade da dopamina e aparecimento da Coreia.

Ademais, é importante lembrar que a Coreia pode ser uma manifestação menor da doença, sendo necessária uma abordagem individual, levando-se em consideração as limitações do paciente.

Entretanto, nenhuma droga mostrou, até hoje, modificar o curso da doença. Apesar dos avanços na compreensão da fisiopatologia da DH, ainda não há tratamento capaz de interromper ou retardar a evolução da doença.

Tratamento sintomático da coreia

O tratamento da coreia na Doença de Huntington restringe-se para pacientes cujos sintomas afetam significativamente a funcionalidade, pois o tratamento pode agravar outros aspectos da doença, como o parkinsonismo, a cognição e o humor.

Para os pacientes que necessitam de intervenção, a escolha do tratamento depende da presença de sintomas psiquiátricos ou comorbidades.

Portanto, para a maioria dos pacientes sem depressão, mas com coreia incapacitante, recomenda-se o uso de inibidores do transportador vesicular de monoamina tipo 2 (VMAT2), como deutetrabenazina, valbenazina ou tetrabenazina. No entanto, esses medicamentos podem causar risco de depressão e suicídio, por isso o aconselhamento e monitoramento antes do tratamento são essenciais.

Por outro lado, se houver sintomas psiquiátricos como depressão, agitação ou psicose, os antipsicóticos de segunda geração são considerados a primeira linha de tratamento, sendo as principais opções drogas como risperidona, olanzapina ou aripiprazol. Esses medicamentos apresentam um perfil de eficácia e efeitos adversos mais equilibrado em comparação com antipsicóticos de primeira geração.

Em casos de coreia grave, recomenda-se o uso de cadeiras reclináveis acolchoadas e forro de cama para evitar lesões.

Manejo de sintomas psicóticos

Para pacientes com Doença de Huntington que apresentam psicose e/ou comportamentos disruptivos, mas não possuem coreia debilitante, recomenda-se o uso de quetiapina. Outras opções, como olanzapina, aripiprazol ou risperidona, podem ser alternativas preferenciais para pacientes que também apresentam coreia.

Manejo da depressão e ansiedade

A depressão e a ansiedade são sintomas frequentes na Doença de Huntington, tratados normalmente com inibidores seletivos da recaptação de serotonina ou antidepressivos tricíclicos. Ademais, para a ansiedade, os ansiolíticos podem ser uma opção.

Outros tratamentos

Vale salientar que os recursos de terapia ocupacional, fisioterapia e fonoaudiologia podem ser úteis para melhorar a qualidade de vida dos pacientes com DH. Transplantes de células tronco ainda estão em estudo.

Conheça o Sanarflix

A Doença de Huntington é um distúrbio genético neurodegenerativo, com sintomas que afetam o movimento, a cognição e a personalidade.

Com a abordagem certa, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem fazer toda a diferença na qualidade de vida dos pacientes. Conheça o Sanarflix e saiba mais sobre essa e outras condições!

Sugestão de leitura recomendada

Referências

  • SUCHOWERSKY, O. Huntington disease: Clinical features and diagnosis. UpToDate, 2025.
  • SUCHOWERSKY, O. Huntington disease: Management. UpToDate, 2025.

Compartilhe este artigo:

Cursos gratuitos para estudantes de medicina

Anúncio