O Delirium Tremens (DTs) é um distúrbio confusional agudo e grave, causado pela abstinência alcoólica, seja ela absoluta ou relativa, em indivíduos com dependência alcoólica severa. Este é o quadro mais crítico da síndrome de abstinência alcoólica (SAA), caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas que surgem após a cessação ou redução abrupta do consumo crônico de álcool. Os sintomas mais comuns incluem tremores, insônia e agitação psicomotora.
Quem está suscetível ao delirium tremens?
De acordo com os critérios diagnósticos para o abuso de álcool do DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª edição), estima-se que aproximadamente 14% da população americana tenha experimentado dependência ou uso abusivo de etanol ao longo da vida. No entanto, a síndrome de abstinência alcoólica costuma ser autolimitada e, na maioria dos casos, se manifesta de forma leve a moderada.
Dessa forma, menos de 50% dos dependentes alcoólicos desenvolvem sintomas que exigem tratamento farmacológico. Porém, cerca de 5% a 10% dos pacientes apresentam sintomas graves, como o delirium tremens.
A mortalidade associada ao delirium tremens varia de 5% a 25%, sendo as principais causas a disfunção respiratória e as arritmias cardíacas.
Mecanismos fisiopatológicos do delirium tremens
O álcool atua como um depressor do sistema nervoso central, e o abuso crônico de etanol resulta em um aumento da atividade do ácido γ-aminobutírico (GABA), que é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro. Esse aumento de atividade ocorre devido a modificações tanto na expressão genética neuronal quanto na fosforilação dos receptores de GABA, o que altera a disponibilidade desses receptores durante a sinapse.
Com a abstinência do etanol, ocorre uma diminuição fisiológica dos níveis de GABA, levando a uma redução no controle inibitório dos neurotransmissores excitatórios, como a norepinefrina, o glutamato e a dopamina. Esse desequilíbrio resulta no aumento da atividade excitatória, causando as manifestações clínicas típicas do delirium tremens, como tremores, agitação, alucinações, taquicardia, hipertermia e hipertensão.
Além disso, o etanol age como antagonista dos receptores NMDA (N-Metil-D-Aspartato). Sua interrupção provoca um aumento na atividade excitatória desses receptores, o que contribui para as manifestações clínicas observadas no DTs.
Manifestações clínicas do delirium tremens
A síndrome de abstinência alcoólica inicia-se, geralmente, com sintomas leves, que surgem 24 a 48 horas após a interrupção do consumo de álcool. Já os sintomas mais graves, incluindo o delirium tremens, podem aparecer de 3 a 4 dias após a abstinência.
O delirium tremens caracteriza-se por sintomas clássicos do delirium, como rebaixamento do nível de consciência, confusão mental e desorientação temporoespacial. Além disso, observa-se uma hiperatividade autonômica, com hipertensão, taquicardia, taquipneia, e hipertermia. Outro sintoma comum são as alucinações, que podem ser visuais e táteis, frequentemente envolvendo percepções de insetos ou pequenos animais (zoopsias).
É importante destacar que deve-se diferenciar a alucinose alcoólica, um quadro relacionado à síndrome de abstinência, do delirium tremens. Enquanto o DTs caracteriza-se por alucinações e uma alteração no nível de consciência, na alucinose alcoólica ocorre principalmente alucinações auditivas sem alteração do estado de consciência e sem envolvimento autonômico.
Como diagnosticar o delirium tremens?
O diagnóstico do delirium tremens começa com a identificação do quadro de síndrome de abstinência alcoólica. Para tanto, é fundamental obter a história do uso de álcool e avaliar a redução ou interrupção do consumo. Em seguida, deve-se analisar a gravidade da síndrome de abstinência alcoólica (SAA) e a presença de comorbidades.
O risco de desenvolvimento do delirium tremens pode ser previsto com o uso do escore CIWA-Ar. Caso o escore seja superior a 15 e haja uma pressão arterial sistólica (PAS) maior que 150 mmHg ou frequência cardíaca (FC) superior a 100 bpm, é indicativo de maior risco para o desenvolvimento de DTs.
Fatores de risco para o desenvolvimento do delirium tremens
Os principais fatores de risco incluem:
- História de convulsões associadas à abstinência alcoólica
- História prévia de delirium tremens
- Comorbidades médicas relevantes
- Consumo diário excessivo de etanol a longo prazo
- Abstinência alcoólica prolongada
- Idade avançada
- Trombocitopenia
- Níveis elevados de homocisteína
- Lesões estruturais cerebrais
Tratamento do delirium tremens
O tratamento do delirium tremens é uma emergência médica, e a internação hospitalar é necessária. O manejo clínico envolve a monitorização contínua dos sinais vitais, a redução dos estímulos auditivos e visuais, e a dieta leve ou jejum.
A terapia farmacológica inclui o uso de benzodiazepínicos (preferencialmente por via intravenosa) e a reposicação de tiamina para prevenir a encefalopatia de Wernicke. A dose recomendada de tiamina é de 500 mg, administrada por via intramuscular uma ou duas vezes ao dia, por um período de três dias.
Caso o paciente não responda adequadamente aos benzodiazepínicos, o uso de propofol pode ser indicado. Além disso, antipsicóticos, como haloperidol, podem ser usados para controle de agitação ou alucinações resistentes ao tratamento.
Assim, é imprescindível realizar exames laboratoriais para avaliar comorbidades que possam contribuir para o quadro de delirium, como a função hepática, níveis de eletrólitos, hematócrito e coagulograma.
Prevenção
O tratamento da síndrome de abstinência alcoólica e das comorbidades associadas é essencial para a prevenção do delirium tremens. Deve-se evitar a administração indiscriminada de glicose pois pode precipitar a encefalopatia de Wernicke. A glicose só deve ser administrada após a reposição de tiamina.
Outro ponto importante é evitar o uso de fenitoína (difenil-hidantoína), pois não é eficaz no controle das crises convulsivas associadas à SAA.
Em relação à contenção física, ela deve ser cuidadosamente avaliada para evitar lesões no paciente.
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Referências bibliográficas
- MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Diretrizes para o manejo de pacientes com síndrome de abstinência alcoólica. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: http://www.saude.gov.br. Acesso em: 7 jun. 2025.