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Será a tecnologia o mais novo agente etiológico? | Colunistas

Será a tecnologia o mais novo agente etiológico? | Colunistas

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Heloísa Sanders

5 min há 359 dias

1.A tecnologia e o brasileiro

Mais do que uma ferramenta ocasional, a tecnologia é hoje uma parte importante da vida de muitos. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2019, cerca de 134 milhões de brasileiros acessam a internet, e dentro desse grupo 90% fazem uso dela diariamente (1).

Contudo, não pense que tal uso se restringe aos aplicativos de mensagens, redes sociais e vídeo chamadas, pois muitos já adotaram a internet para verificar serviços de saúde, fazer transações financeiras, se aprimorar profissionalmente, além de muitas outras atividades não relacionadas com o lazer (1).

E quando falamos da forma de acesso, os smartphones se tornam esmagadoramente mais populares e democráticos, pois são usados por 99% daqueles com acesso à internet, em comparação aos 42% de uso dos computadores. Desse modo, pode-se dizer que todo esse avanço está “na palma da mão” e disponível para nós 24 horas por dia (1).

2. Conceitos: uso nocivo e dependência

Estamos familiarizados com tais conceitos quando se fala de substâncias psicoativas, tanto as lícitas quanto as ilícitas. De acordo com o CID-10 (Classificação Internacional das Doenças), o uso nocivo (ou prejudicial) de substâncias pode ser percebido quando o padrão de uso causa um dano real à saúde física ou mental do usuário, sem que sejam preenchidos os critérios de dependência. Podemos dizer que o uso nocivo representa o abuso de substâncias (2).

Já quando falamos da dependência propriamente dita, é necessário que nos últimos 12 meses tenham sido exibidos 3 ou mais critérios dentre cerca de 6 descritos. Para fim de discussão no presente texto, citaremos apenas alguns deles (2):

  • Forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância;
  • Dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substância, em termos de início, término e níveis de consumo;
  • Abandono progressivo de prazeres e interesses alternativos, em favor do uso da substância psicoativa. Aumento, também, da quantidade de tempo necessário para obter ou ingerir a substância, assim como para se recuperar de seus efeitos.

E qual a relevância de revisar esses conceitos quando falamos sobre tecnologia?

Apesar de não haver diagnóstico oficial, o uso da tecnologia, principalmente dos smartphones, tem o potencial de gerar vício. Muitas pesquisas têm identificado que os clássicos sintomas de dependência podem ser aplicados ao uso excessivo desses aparelhos, como perda de controle do tempo que passamos ao celular, sintomas de abstinência e prejuízos na vida social e laboral (3).

Trabalhos relatam que muitos usuários afirmam não poderem viver sem seus celulares, enquanto outros sentem as vibrações de seu celular mesmo na ausência de notificações. Alguns fazem o que é chamado de “uso compensatório”, no qual utilizam os seus aparelhos para fugir de problemas, deveres e emoções negativas do mundo real, o que não representa exatamente uma forma de uso problemático, porém torna clara a motivação para o comportamento descrito (4).

Ainda não está completamente resolvido se a dependência e uso abusivo estão relacionadas ao smartphone em si ou se ele é apenas um meio pelo qual os indivíduos acessam suas fontes de vício, como aplicativos de chats, jogos ou compras (3).

3. E como esse problema nos afeta no dia a dia?

O uso excessivo da tecnologia já apresenta várias consequências possíveis de serem enxergadas no cotidiano. Basta sair de casa para notar diversas pessoas com seus smartphones, e isso se reflete no número de atropelamentos, já que mais pedestres atravessam as ruas completamente distraídos. O mesmo vale para os motoristas, cuja atenção acaba sendo constantemente desviada do trânsito para digitar mensagens ou falar em ligações, levando a acidentes por vezes com gravidade (4).

Dores no pescoço e ombros, assim como disfunção nas mãos podem ser facilmente encontradas nos usuários mais assíduos dos celulares, para os quais o mundo virtual já comprovadamente atrapalha também as performances acadêmicas e de condicionamento físico (3,4).

A produtividade no trabalho, apesar de se utilizar a tecnologia, sofre muito com as interrupções também causadas por ela, o que dificulta a aquisição do estado chamado flow at work, quando se está completamente absorvido pela atividade, esquecendo até sobre espaço e tempo, requerendo além da habilidade, muitos minutos de pura e ininterrupta concentração (3).

A necessidade de estar conectado 100% do tempo, da qual sofrem muitas pessoas, também já possui nome, Fear of missing out (FoMO), isto é, a relutância em perder informações e checar o que as outras pessoas estão fazendo e postando nas redes sociais, o que favorece o uso excessivo de tecnologia (4).

4. Conclusão e perspectivas

Sabe-se que a tecnologia é parte integrante e fundamental da vida das pessoas, sendo uma tendência que essa característica apenas se acentue com o passar dos anos. Desse modo é importante não culpabilizá-la inteiramente, já que ainda precisamos ampliar seu acesso de modo a democratizar oportunidades.

Estudos já finalizados até agora têm demonstrado associação dos smartphones com ansiedade, depressão e estresse, enquanto trabalhos ainda em andamento procuram desvendar os modelos psicológicos das vias que determinam a depressão de forma a poder melhor intervir e implementar um uso mais saudável da tecnologia (4).

Autoria: Heloisa Sanders

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