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Síndrome de Burnout em tempos de COVID-19: como reconhecer e tratar a doença | Colunistas

Síndrome de Burnout em tempos de COVID-19: como reconhecer e tratar a doença | Colunistas

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Gabriella Mares

12 min há 269 dias

De acordo com o Ministério da Saúde, a síndrome de burnout, também chamada de “síndrome do esgotamento profissional”, é um distúrbio emocional acompanhado de sinais de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico, gerado por situações profissionais de trabalho intenso e que envolvem grande responsabilidade e competitividade. A principal causa do desencadeamento dessa síndrome é o excesso de trabalho e responsabilidades.

É uma síndrome que precisa ser precocemente reconhecida e tratada, visto que pode evoluir com graves comorbidades, incluindo depressão e até mesmo suicídio, além de incapacitar muito o indivíduo, o que é lamentável. Sabe-se que sua prevalência ocorre de forma mais acentuada entre profissionais da saúde, professores e policiais. Nesse sentido, no contexto de pandemia em que vivemos, é razoável pensar que a classe de profissionais de saúde seja uma das mais gravemente afetadas pela síndrome de burnout, demandando maiores cuidados e intervenções.

Principais sinais e sintomas

Os sintomas e sinais mais vistos na síndrome de burnout incluem desde acometimento mental, até mesmo físico. Os principais sintomas mentais que observamos são dificuldade de concentração, sentimentos de fracasso e insegurança, negatividade constante, sentimentos de derrota e desesperança, sentimento de incompetência, isolamento social. Já os sintomas físicos incluem cansaço excessivo, dor de cabeça frequente, alterações do apetite, insônia, alterações repentinas de humor, fadiga, pressão alta, dores musculares, problemas gastrointestinais e alteração nos batimentos cardíacos.

São sintomas que, quando combinados com a história clínica do paciente, apontam para o diagnóstico da síndrome de burnout, por isso a anamnese se torna tão importante na suspeita clínica. Buscar compreender sobre profissão, carga horária de trabalho, exigências no ambiente laboral, responsabilidades trabalhistas, proximidade com familiares é imprescindível para um melhor entendimento do caso.

Causas e fatores de risco

O desencadear da síndrome de burnout possui um nexo de concausalidade, ou seja, não há uma causa direta para a doença, como um agente infeccioso ou fator hereditário, por exemplo. A causa é indireta, ou seja, o ambiente de trabalho atua como facilitador do desencadeamento da síndrome. Dessa forma, as causas da doença envolvem um quadro multidimensional de fatores individuais e ambientais, relacionados com exaustão mental e sentimento de desvalorização profissional. Trabalhos que exigem muito esforço, grandes responsabilidades e pouco tempo disponível para folgas estão muito relacionados. O ambiente laboral também está associado com o adoecimento do sujeito, tanto que, em muitos casos, quando o paciente desenvolve síndrome de burnout, se é afastado do ambiente de trabalho, melhora consideravelmente o quadro.

Os fatores de risco para a síndrome se associam muito com as causas e envolvem as longas jornadas de trabalho, bem como o número insuficiente de funcionários em um setor, demandando muito esforço por parte de um único sujeito, além da falta de reconhecimento profissional, profissões que lidam constantemente com dor, sofrimento, angústias e morte, escassez de tempo para momentos de lazer e folgas, estresse constante no ambiente laboral, cargos de liderança que exigem grandes competências. Isto é, o ambiente de trabalho e suas atribuições se relacionam muito com as causas e predispõem aos fatores de risco para esta síndrome.

É preciso pensar, nessa perspectiva, que profissionais da saúde estão mais sujeitos a desenvolver a síndrome de burnout quando comparados com outras profissões, porque lidar com a saúde muitas vezes envolve a escassez de recursos em hospitais, o estresse diário de atender muitos pacientes e dar conta das altas demandas, a privação do sono e de momentos de lazer, dados os plantões exaustivos, as altas exigências por parte da própria comunidade médica, do ambiente laboral e de si mesmos, bem como o contato constante com a dor e o sofrimento. São fatores de risco importantes para o desenvolvimento da síndrome supracitada nessa população específica de profissionais de saúde. Pensando então no contexto de pandemia, percebe-se que essa dimensão dos fatores de risco para o setor da saúde aumenta e se torna muito preocupante.

Síndrome de burnout no contexto da pandemia de COVID-19

A pandemia de COVID-19 é um grande desafio para a sociedade mundial, uma doença que veio inesperadamente, movimentando principalmente o setor da saúde no mundo. Segundo o Ministério da Saúde, são mais de 190 mil óbitos no País por COVID-19, mostrando a gravidade da doença.

Os profissionais de saúde se viram trabalhando em jornadas intensivas em unidades de saúde e hospitais, com escassez de recursos para os pacientes e equipamentos de proteção individual, sobretudo do setor público. Outro desafio foi a falta de um tratamento eficaz, a equipe de saúde tinha que atuar com o que havia, vendo milhares de mortes por dia e quadros agravados da doença. Além disso, dado o risco de contaminação da doença, muitos profissionais se viram distantes da família e dos amigos, assim como o distanciamento social imposto colocou esses profissionais e a sociedade como um todo longe de momentos de lazer em comunidade.

As ostensivas jornadas de trabalho, associadas a todas as moléstias da doença, o sofrimento constante visto pelos profissionais, tanto por parte do paciente quanto por parte da família, que precisava se manter distante, além dos óbitos constantes e as mãos atadas no que diz respeito a um tratamento curativo, o medo de se contaminar pela doença, todos esses foram fatores que sobrecarregaram os profissionais. As marcas deixadas nos rostos das equipes devido ao uso constante da máscara e do equipamento de proteção individual refletem as marcas de um trabalho dedicado a cuidar do próximo, mas ao mesmo tempo das dificuldades impostas para essas equipes de saúde, tanto pelas condições do setor de saúde que carecem de maior investimento no país, quanto pela própria pandemia e a exigência que ela traz em termos de cuidados com pacientes.

Isso predispõe à síndrome de burnout, tanto que, segundo dados de um estudo transversal realizado pela plataforma PEBMED, a prevalência da enfermidade aumentou demais em profissionais de saúde durante a pandemia de COVID-19, sobretudo naqueles que atuaram na linha de frente: a prevalência da síndrome é de 83% nos médicos que estão na linha de frente. Mas, mesmo naqueles que não estão na linha de frente, a prevalência ficou em 71%, mostrando que essa comunidade já é afetada fortemente pela síndrome dadas as condições naturais da profissão.

Não se deve naturalizar o sofrimento dos profissionais da saúde, mas sim enxergar que são, antes de tudo, seres humanos. É preciso se atentar ao cuidado de quem cuida, principalmente diante de uma pandemia, a qual impactou demais a vida em sociedade, e das equipes de saúde, que estão lidando diretamente com os entraves da doença e todos os desafios que ela impõe.

Fonte: https://cnts.org.br/noticias/sindrome-de-burnout-afeta-todos-os-que-trabalham-em-hospitais/

Diagnóstico e Tratamento

O tratamento para síndrome de burnout envolve uma abordagem multidimensional e precisa ser feita precocemente, visto que pode gerar outras comorbidades, como depressão. Sabe-se que ela está muito relacionada ao ambiente laboral, então existem casos em que o tratamento consiste no afastamento do trabalho, amenizando os sintomas. Mas não é em todo caso que o profissional vai conseguir se afastar do ambiente de trabalho, podem haver afastamentos temporários, mas a síndrome continuará surgindo se outros tratamentos não forem instituídos.

Fonte: https://www.segurancadopaciente.com.br/seguranca-e-gestao/ativistas-pedem-fim-do-termo-segunda-vitima-para-profissionais-que-erraram/

Torna-se necessário, primeiramente, realizar o correto diagnóstico da síndrome, dimensionar qual o estágio da doença para dar início ao melhor tratamento preconizado. O diagnóstico deve ser feito preferencialmente pela equipe de saúde mental capacitada, incluindo psiquiatra e psicólogo. O diagnóstico é preponderantemente clínico, baseado na anamnese básica, ocupacional e exame físico detalhado, visto que a síndrome de burnout traz sintomas físicos também, como gastrointestinais e dores musculares. Pode-se utilizar como apoio ao diagnóstico alguns questionários, sendo o Maslach BurnOut Inventory, validado e traduzido, o mais utilizado, consistindo de perguntas que são feitas ao paciente e uma pontuação final que faz uma identificação preliminar da síndrome.

Feito o diagnóstico, vamos ao tratamento. Então, no que diz respeito ao medicamentoso, podemos utilizar fármacos como antidepressivos, ansiolíticos, e uma boa classe são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, visando dar mais ânimo para o paciente, que se encontra com desestímulo constante e outros sintomas associados. Logo, esses fármacos podem ser fortes aliados.

Além disso, como tratamento não farmacológico, a psicoterapia se torna muito importante para que o paciente trabalhe suas angústias, libere o conflito mental por meio da estimulação psicoterápica, além de ser uma oportunidade de ele desabafar, falar dos medos, da exaustão, das preocupações, e isso ajuda muito a tirar a atenção do ambiente laboral e entender que não está sozinho e que está sendo ouvido.

Vale ressaltar que seria muito interessante que os hospitais e unidades de saúde oferecessem apoio psicológico exclusivo para a equipe, tanto por meio de atendimento com psicólogo quanto incentivando rodas de conversa para compartilhamento das angústias e experiências, especialmente durante a pandemia, além de proporcionar um certo alívio e tirar o foco do cenário exaustivo e de sofrimento imposto nos leitos e salas de consulta.

Outras medidas, por meio da medicina integrativa, como yoga, meditação, acupuntura, reiki, podem ser indicadas para os pacientes que padecem com a síndrome, inclusive, seria igualmente interessante estimular os profissionais da saúde a procurarem um tempo semanal, mesmo que curto, para realizar algumas dessas atividades, que podem ser feitas em casa ou em qualquer canto com sossego e silêncio, não demandando ferramentas complexas e de difíceis acesso, o que ajuda demais a melhorar o quadro.

Prevenção

A prevenção da doença se torna muito necessária, então podemos indicá-la para todos os trabalhadores que lidam com extensivas jornadas de trabalho, com ambientes laborais que exigem muito, contato constante com dor e sofrimento e afins. O estímulo à prática de exercícios físicos ajuda não somente na prevenção, mas também no tratamento não medicamentoso. Podem ser feitos na própria residência, caso o profissional não tenha muito tempo para praticar em academias. O exercício físico proporciona sensação de alívio das angústias e da ansiedade, à medida em que auxilia o corpo a liberar endorfinas, dando sensação de prazer.

Alimentação adequada também é muito importante para prevenir a síndrome e igualmente serve como tratamento, visto que alimentos balanceados e ricos em nutrientes garantem maior energia, maior concentração, repondo as energias, além de ser importante para equilibrar o sistema gastrointestinal, que pode estar afetado. Além disso, estimular o trabalhador para que ele reorganize seus horários e deixe um tempo frequente para momentos de lazer, como estar com a família e pessoas próximas, buscando relaxamento e descansar a mente e o corpo.

É preciso desconstruir com o profissional a cobrança excessiva para consigo mesmo, precisamos entender que antes de tudo somos seres humanos, não somos máquinas, precisamos dos nossos momentos de relaxamento, entender que nem sempre vamos conseguir atender todas as demandas em curto tempo, nem sempre os profissionais da saúde vão conseguir salvar vidas, mas devem focar em sempre amenizar a dor humana. Trabalhar o peso das cobranças também é muito importante para prevenir o desencadeamento da síndrome de burnout e da exaustão mental. A prática já supracitada de alternativas dentro da medicina integrativa pode também ajudar demais na prevenção e tratamento.

Conclusão

A síndrome de burnout é um transtorno que demanda muita atenção, dada a incapacidade mental e física que acarreta. No contexto de pandemia do coronavírus, a enfermidade se encontra em alta prevalência no setor de profissionais de saúde, sobretudo aos que estão trabalhando na linha de frente.

Então, é preciso saber diagnosticá-la precocemente e então investir em tratamento, que conta com alternativas farmacológicas e não farmacológicas. O afastamento do ambiente laboral também pode ser considerado em alguns casos de alta gravidade da síndrome. É importante proporcionar cuidado, físico e psicológico, para os trabalhadores em geral e principalmente para os profissionais da saúde nesse momento.

Todos somos humanos, independentemente da profissão. Todos têm suas necessidades orgânicas e psíquicas que devem ser consideradas. O trabalho deve dignificar a pessoa humana, fazer com que os indivíduos busquem seu sustento ao mesmo tempo em que contribuem para a sociedade, mas tendo os direitos humanos preservados e o cuidado com a saúde otimizado.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências Bibliográficas

Ministério da Saúde. (2002). Doenças relacionadas com o trabalho: Diagnósticos e condutas -Manual de procedimentos para os serviços de saúde. Brasília: Ministério da Saúde do Brasil.     

PORTAL PEBMED – Prevalência de BurnOut é maior em médicos que atuam na linha de frente da COVID-19 –Disponível em: https://pebmed.com.br/prevalencia-de-burnout-e-maior-em-medicos-que-atuam-na-linha-de-frente-da-covid-19/#:~:text=Segundo%20um%20estudo%20realizado%20pela,no%20combate%20ao%20novo%20coronav%C3%ADrus. Acesso em: 20/12/2020.

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