Introdução
Você alguma vez já sentiu desapontamento próprio ou a sensação de que estava se subestimando? Acreditou que você nunca conseguiu conquistar nada na sua vida, ou que, se conseguiu, foi por pura “sorte” ou por ajuda de outras pessoas? Você já se sentiu como se não merecesse elogios, congratulações, títulos ou qualquer distinção que faça referência às suas capacidades e habilidades?
Provavelmente, a resposta para pelo menos uma dessas perguntas é sim. “Então isso quer dizer que eu tenho síndrome do impostor?” Não necessariamente. Diz-se por aí que muitas pessoas podem apresentar esse sentimento de dúvida sobre si em algum momento da vida. Porém, na síndrome do impostor, não é bem isso que acontece.
Nessa manifestação psicológica, observa-se um quadro persistente de autodúvida, autossabotagem e autodepreciação em um ciclo vicioso. Esses comportamentos são comuns em pessoas perfeccionistas, que, geralmente, impõem-se padrões muito elevados e, quando não conseguem alcançá-los, sentem-se frustrados com sua performance.
Vamos tentar aprender um pouco mais sobre a síndrome do impostor, mas, lembre-se, isso não vale como uma autoavaliação. Se você se identifica muito com alguma das informações especificadas aqui, sugiro procurar acompanhamento médico e/ou psicológico.
A Síndrome do Impostor
Bravata et al. (2019) apresentam uma definição muito apropriada: “[…] indivíduos com alto desempenho que, apesar dos seus sucessos objetivos, falham ao internalizar suas conquistas e apresentam autodúvida persistente e medo de serem expostos como fraudes ou impostores”. Apesar de ainda não constar no DSM-5 (o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), ou seja, não ser considerada uma doença, a síndrome do impostor apresenta uma ampla abrangência entre a população, atingindo desde estudantes a acadêmicos. Especialistas em psiquiatria e psicologia categorizam o fenômeno como um traço de personalidade.
As primeiras pesquisadoras a estudar o fenômeno do impostor foram Pauline Clance e Suzanne Imes, em um artigo publicado pela Psychotherapy: Theory, Research and Practice em 1978. Clance e Imes notaram um padrão comportamental persistente em interações com cerca de 150 mulheres de sucesso: elas se consideravam “impostoras”, acreditando que não eram inteligentes, e, na verdade, deviam seu sucesso a sorte, erros ou enganações. Um dos fatores agravantes desse comportamento era a total negação de comprovações exteriores a elas que contradissessem sua visão de mundo.
Feenstra et al. (2020) fazem uma análise brilhante com relação às diferentes perspectivas que envolvem o fenômeno impostor. Na perspectiva clínico-psicológica, a avaliação e a compreensão individualistas dos sentimentos do impostor – empregando, para tanto, técnicas de evaluação dos tipos de apego, de tendências perfeccionistas e de personalidade – têm sugerido o entendimento do fenômeno como um trato de personalidade, em vez de um estado. Na perspectiva social-psicológica, o fenômeno deve ser entendido como um acontecimento de ordem individual com influência do meio externo (no caso, a sociedade), cujo contexto influencia em como os indivíduos se enxergam.
Deaux (1976, apud Clance et al., 1978) demonstra a existência de dois princípios regentes da dimensão emocional do fenômeno impostor: o primeiro determina a a ocorrência de um resultado inesperado em uma performance atribuído a uma causa temporária; o segundo determina a ocorrência de um resultado esperado em uma performance atribuído a uma causa estável.
Enquanto as mulheres, mais comumente, associam sucesso a fatores temporários e extrínsecos, homens têm uma maior tendência a associar seu sucesso a causas estáveis e intrínsecas. A observação de falhas segue uma regra oposta a esses princípios: as mulheres, normalmente, tentam encontrar na falta de habilidade o motivo de seus erros, e os homens os associam a determinantes como sorte ou dificuldade da tarefa (DEAUX, 1976 apud CLANCE et al., 1978).
Clance e Imes (1978) ainda denotam a interiorização da concepção social estereotípica baseada nos papéis de gênero: “[…] o sucesso das mulheres é contraindicado pelas expectativas sociais […], não surpreende que as mulheres de nossa amostra sintam a necessidade de encontrar explicações para seu sucesso que não sua inteligência […]”.
Como isso afeta um indivíduo?
Atualmente, o fenômeno impostor não se restringe somente às mulheres. Há inúmeros estudos avaliando a prevalência da síndrome do impostor entre estudantes acadêmicos, principalmente em áreas que exigem alta performance, como a medicina.
Jaremka et al. (2020) fazem uma “análise de casos” de estudantes que já vivenciaram um de três fenômenos comuns entre membros acadêmicos sobre os quais pouco se fala: “rejeição repetida”, síndrome do impostor e burnout. Para N. R.:
[…] Atinge mais seriamente acadêmicos que quaisquer outras pessoas. A cultura acadêmica edifica-se no empreendimento científico cujas fundações são ceticismo, dúvida e critérios rigorosos […]. Seria eu, também, apenas mais um erro no meu sucesso profissional? (JAREMKA et al., 2020, p. 10)
O estudo autoetnográfico de Wilkinson (2020) provê um insight à cabeça das pessoas que apresentam o fenômeno impostor. A análise de diários de campo fornecidos pela autora elucida algumas manifestações da síndrome no indivíduo: nervosismo associado à possibilidade de ser descoberto como fraude; insônia secundária; “medo de palco” – descrito como o medo de não ser capaz de exercer uma determinada performance de forma convincente para evitar ser descoberto –; e hipersensibilidade à opinião externa sobre si.
Maqsood et al. (2018) complementa o assessment psicológico ao incluir à sintomatologia o perfeccionismo, o trabalho excessivo (beirando a compulsão), a crítica às próprias conquistas, medo de falhar e minimização (negação de elogios), manifestados, principalmente, pela tríade de pensamentos “eu sou uma fraude”, “não posso falhar”, “eu tive sorte”. O fenômeno foi associado à ansiedade, à baixa autoestima e à insegurança.
A complexa rede psicológica dessas manifestações leva o indivíduo a um nível de estresse crônico que afeta drasticamente sua vida – como notado pela insônia secundária ao nervosismo no estudo de Wilkinson (2020). A ansiedade excessiva pode induzir estados de bloqueio mental, breakdown e “paralisia”, quando o estresse bloqueia as vias de ação e o indivíduo sente-se atônito, imóvel e incapaz de agir.
A autocrítica constante, no geral, conduz à procrastinação, uma vez que o medo de falhar inibe a intenção de iniciar uma tarefa, ou de terminá-la, devido à incapacidade do indivíduo de acreditar que sua performance em uma atividade é adequada para os padrões que dele são, supostamente, esperados. A autossabotagem surge como consequência da procrastinação excessiva, levando à redução da performance e reiniciando o ciclo do fenômeno.
O que fazer?
O estudo de Ghorbanshirodi (2012) demonstra uma estreita correlação de proporção inversa entre a autoestima e a síndrome do impostor. Devido à dimensão autocrítica excessiva e ao “perfeccionismo negativista”, é possível que “[…] isso faça com que os indivíduos tenham incertezas quanto aos seus valores diante do escrutínio público e ajam diferentemente em ambientes educacionais e competitivos”.
Maqsood et al. (2018) relatam a importância de conhecer o fenômeno do impostor para identificar indivíduos que tendem a abandonar sua profissão por não se acharem suficientemente competentes. Wilkinsons (2020) reitera, no seu estudo, que os efeitos secundários do fenômeno impostor “[…] não são, e não devem ser, considerados como cômicos ou como ‘fatos da vida’ […]”, ou seja, não podem ser banalizados ou desacreditados.
Ghorbanshirodi (2012) sugere o emprego de terapia cognitiva ou terapia “Gestalt” para lidar com o aspecto cognitivo negativo do fenômeno. Além disso, Gardner (1948, apud Ghorbanshirodi, 2012, p. 1797-8) determina que as habilidades sociais devem ser balanceadas com a compreensão intelectual dos sentimentos e necessidades de um indivíduo, bem como com os resultados da autorrealização individual.
Por não ser propriamente uma doença, não existe “cura” para o fenômeno do impostor, mas o acompanhamento psicológico é fundamental para auxiliar “pacientes” a desenvolver mecanismos e ferramentas para lidar com as experiências e com os sentimentos negativos gerados pelo fenômeno.
Conclusões
A síndrome do impostor é um fenômeno muito complexo e ainda muito estigmatizado. Além de transcender a esfera psicológica do indivíduo, há, ainda, que se considerar o fator social e como as experiências e o meio influenciam na instabilidade da autoavaliação.
Novamente, é normal que, em algum momento da sua vida, surjam pensamentos negativos questionando sua capacidade de lidar com n situações, especialmente após cometer um erro; porém, se esses pensamentos se tornam parte da rotina e atrapalham ou impedem o pleno funcionamento das suas habilidades cognitivas, procure ajuda psicológica com urgência para lidar com esse problema.
Conviver com a síndrome do impostor é difícil. Conhecendo uma pessoa que apresenta o fenômeno, tenha compreensão, procure ajudá-la a construir uma visão positiva sobre si e a buscar acompanhamento profissional. Lembre-se que, caso se sinta assim, você não está só. A menos que você seja a pessoa mais sortuda do mundo, você não seria capaz de chegar aonde chegou apenas por sorte, por erro dos outros ou enganando a todos. Acredite no seu potencial. Eu acredito se você acreditar.
Autor: Enzo Malveira Nunes Maciel.
Instagram: @enzo_ninguem.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
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