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Síndrome Pós-Covid: o que o futuro nos reserva | Colunistas

Síndrome Pós-Covid: o que o futuro nos reserva | Colunistas

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Lara Brito

8 minanteontem

Desde o surgimento da pandemia da Covid-19, o comportamento, a evolução e o padrão clínico do vírus infectante, o SARS-CoV-2, persistem com muitos segredos a serem desvendados pela comunidade científica. Dentre essas incógnitas está o que recentemente foi intitulado por Síndrome Pós-Covid: manifestações multissistêmicas que têm acometido uma parcela significativa daqueles que foram previamente infectados, causando importantes impactos na vida individual e em comunidade.  

O que é a Síndrome Pós-Covid?

A síndrome pós-Covid consiste em um conjunto de sinais e sintomas multissistêmicos que têm acometido de forma subaguda e crônica os indivíduos que passaram pelo processo de infecção pelo SARS-CoV-2. Acredita-se que grande parte dessas sequelas estejam ligadas ao dano celular, a vigorosa resposta imunológica com a produção de citocinas inflamatórias e ao estado pro-coagulante induzido pelo vírus. Somado a esses fatores existem, também, os efeitos inespecíficos da hospitalização / ventilação prolongada e do isolamento social.

A tese da síndrome pós-Covid ganha subsídio, dentre outros fatores, ao demonstrar uma importante similaridade nos sintomas persistentes pelo SARS-CoV-2 com aqueles encontrados nos sobreviventes de outras epidemias pelo coronavírus, reforçando a ideia das sequelas pós-virais.

O estabelecimento da síndrome

Atualmente, o estabelecimento da síndrome acontece em cerca de 4 semanas após infecção aguda, apresentando sintomas persistentes e/ou complicações tardias pelo SARS-CoV-2. Importante estabelecer que a síndrome não está limitada apenas aos pacientes que tiveram processo agudo de ordem grave; há registros da persistência, também, naqueles com quadro agudo leve e moderado.

A literatura recente divide a síndrome em duas categorias quanto à persistência no tempo:

  • COVID-19 sintomático subagudo ou contínuo: inclui sintomas e anormalidades presentes de 4 a 12 semanas pós-infecção aguda;
  • Síndrome crônica pós-Covid: inclui sintomas e anormalidades persistentes ou presentes além de 12 semanas pós-infecção aguda e não atribuíveis a diagnósticos alternativos.

Independente da categoria, os principais sinais e sintomas relatados foram fadiga, dispneia, ansiedade/depressão, cefaleia, palpitação, tromboembolismos, doença renal crônica, alopécia, além de declínio na qualidade de vida autorreferida.

Fig. 1 | Linha do tempo da Covid-19 pós-aguda: a Covid-19 aguda geralmente dura até 4 semanas após o início dos sintomas. Já a Covid-19 pós-aguda é definida como sintomas persistentes e/ou complicações tardias ou de longo prazo para além das 4 semanas desde o início dos sintomas. Pode-se observar os sintomas pós-agudos mais comuns.
Fonte: Nature Medicine

Determinantes de risco

Alguns fatores contribuem para o desenvolvimento da síndrome pós-Covid e, apesar de os principais estudos sobre os determinantes de risco terem sido mensurados na população chinesa, projeta-se que seus achados sejam semelhantes para as demais  populações.

É possível observar pior prognóstico e evolução para a síndrome pós-viral entre aqueles que obtiveram anormalidades na função pulmonar – medida pela espirometria – e alterações em exames de imagem. Sugere-se, ainda, que as mulheres estejam mais propensas a experimentar fadiga e ansiedade/depressão durante a síndrome pós-Covid. Associações adicionais foram estabelecidas:

  • Doença respiratória pré-existente;
  • Índice de Massa Corporal (IMC) elevado;
  • Idade avançada;
  • Pele negra.

Já está bem estabelecido que as comorbidades como diabetes, obesidade, doença cardiovascular ou renal crônica, câncer e órgãos transplantados aumentam gravidade e mortalidade na Covid-19, mas sua associação  pós-aguda, até o presente momento, ainda não foi determinada.

Manifestações por órgãos e sistemas

Pulmonar

  • ·         Dispneia
  • Redução na capacidade de realização de exercícios físicos
  • Hipóxia

Hematológico

  • Eventos tromboembólicos

Cardiovascular

  • Palpitação
  • Dor precordial

Neuropsiquiátrico

  • Fadiga
  • Mialgia
  • Anosmia
  • Cefaleia
  • Ansiedade / Depressão
  • Distúrbios do sono 

Renal

  • Lesão renal aguda
  • Diminuição crônica da taxa de filtração glomerular

Endócrino

  • Descontrole do diabetes mellitus pré-existente
  • Tireoidite subaguda
  • Desmineralização óssea

Dermatológico

  • Alopécia

Gastrointestinal e Hepatobiliar

Não foram relatadas sequelas gastrointestinais e hepatobiliares significativas até o presente momento. Entretanto, sabe-se que o SARS-CoV-2 tem o potencial de alterar transitóriamente o microbioma intestinal, favorecendo o estabelecimento de organismos infecciosos e enfraquecendo os comensais benéficos. Necessita de mais estudos para avaliar as sequelas pós-Covid no trato gastrointestinal.

Importante salientar que a síndrome pós-Covid requer uma avaliação abrangente das lesões sistêmicas. Com isso, o manejo – tanto ao que diz respeito à investigação, quanto a reabilitação/tratamento – de cada caso deve ser baseado na apresentação clínica do paciente, ou seja, na disfunção orgânica e/ou sistêmica presente naquele indivíduo.

Reabilitação interdisciplinar na síndrome pós-Covid

A reabilitação direcionada é de grande valia para os pacientes no pós-Covid, principalmente no que tange o trabalho interdisciplinar dos profissionais da Saúde, como: fisioterapia, nutrição, educação física, psicologia e medicina.

Grande parte da reabilitação está centrada na função pulmonar, devido ao fato de ser um dos principais alvos na Covid-19, sendo substancial o acompanhamento com o fisioterapeuta respiratório. Especial atenção deve ser dada, também, aos focos extra-pulmonares, como a má nutrição – percebida em cerca de 45% dos pacientes, grande parte devido ao catabolismo próprio da doença – que necessita de um acompanhamento nutricional individualizado e, por vezes, faz jus à suplementação de mineirais e vitaminas como o selênio, zinco, vitamina D e do complexo B. Além disso, os pacientes em condições graves têm uma importante perda muscular (o músculo possui o ECA2, receptor importante para a ação viral), estimando uma perda de massa muscular comparável a 2 anos de perda em idosos saudáveis; nesse contexto, entra o papel do educador físico estimulando, sobretudo, os exercícios resistivos. A psicologia recebe grande destaque em tempos de pandemia, o que tem sido ainda mais percebido pelos sintomas ansiosos/depressivos instalados na síndrome em questão e que precisam ser acompanhados de forma cuidadosa.

A medicina tradicional, integrativa, alternativa e complementar têm mostrado grande valia na recuperação desses pacientes. Algumas dessas práticas são a acupuntura, meditação, homeopatia, medicina tradicional chinesa e Ayurveda. Além de auxiliar na resolução dos sinais/sintomas, os pacientes referiram ganho importante na qualidade de vida.

Conclusão

A sapiência acerca da síndrome pós-Covid é de grande valia no enfrentamento do futuro – já presente – que a pandemia do novo coronavírus reserva aos servidores da Saúde. Identificar precocemente um paciente com sequelas pós-virais auxilia na tomada de decisão, oferecendo tratamento oportuno, reabilitação interdisciplinar e, de forma substancial, o restabelecimento da  qualidade de vida de cada paciente.

Autora: Lara Brito

Instagram: @britolara

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

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