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Tecnologia e Medicina: incapacidade médica de extrair dados e como a tecnologia resolverá isso! | Especialistas

Tecnologia e Medicina: incapacidade médica de extrair dados e como a tecnologia resolverá isso! | Especialistas

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Imagem de perfil de Vinicius Côgo Destefani

“ALERTA de frequência cardíaca (FC) elevada: sua FC esteve acima de 120 batimentos por minuto durante o repouso”

Em uma série de 4 artigos, faremos uma análise crítica e apontaremos os 4 pilares do declínio da relação médico-paciente e como a Tecnologia, particularmente a face mais sedutora dessa — Inteligência Artificial, poderá ajudar no resgate ao Juramento de Hipócrates. Enxergaremos o problema pelo ângulo do paciente e prescreveremos — perdão pela presunção, um modelo de resgate do compromisso que jamais será atingido pela máquina: a empatia pelo seu semelhante — humanologia.

Para a execução de qualquer diagnóstico ou conduta é necessário que o médico entreviste o paciente, através da anamnese, e, em seguida, o examine. A capacidade do médico em extrair dados do paciente, seja à anamnese, seja ao exame físico é dependente de habilidades adquiridas individualmente.Ao compararmos o médico a uma máquina, é nessa fase que ocorre o input dos dados. Seja na anamnese, exame físico ou a partir de exames complementares, o médico sempre estará formando uma espécie de data lake, para a partir daí extrair um esboço de plano de seguimento para o paciente.

A forma como o paciente expõe suas queixas nem sempre é linear. Os exames complementares muita vezes não auxiliam na busca do problema originário.

A habilidade dos médicos em extrair dados, tem declinado de forma assustadora ao longo de décadas, mesmo nas melhores faculdades. Se antigamente as técnicas para entrevistar e examinar os pacientes eram exaustivamente ensinadas, hoje, seja pelo desinteresse dos médicos no binômio de ensino-aprendizagem, pela abundância dos exames complementares ou pelo aumento exponencial das informações a serem adquiridas ao longo da formação médica, a semiologia perdeu a sua primazia. Além disso, a reprodutibilidade não é garantida, bem como o impacto intangível da mais diversa miríade de vieses. Ao final, o risco da transformação de ruído em sinal não é desprezível.

Na esteira do tempo gasto e eventual imprecisão na fase de input dos dados, segue-se um outro fenômeno emergente na prática médica: a escassez de tempo para demonstrar empatia ao sofrimento do outro, contrariando frontalmente o princípio maior do juramento médico. Dos 15 minutos de uma consulta, o médico tem dedicado apenas dois para “olhar” o paciente. Isso reduz drasticamente a possibilidade de uma coleta de dados adequada, tornando a consulta médica um rito de preenchimento de um checklist, escolhido de forma quase aleatória, baseado majoritariamente em experiências anteriores, enviesando cada vez mais o processo analítico. Não se pode esquecer que a variabilidade entre os médicos, inerente a heterogeneidade curricular, é mais um ingrediente na imprecisão de reconhecimento dos dados. A culpa não é dos mais de 430.000 médicos que existem no país, mas do sistema como um todo.

O médico sai da faculdade com a noção de “curar a doença”, é pressionado profissionalmente pelo modelo econômico do setor e por isso realiza consultas rápidas e superficiais.

Analisando este contexto, fica claro que precisamos salvar a medicina. Ela em si, está doente. É onde entra a tecnologia digital, o uso de smartphone e a Inteligência Artificial (IA). Elas, juntas, podem ajudar em muito a melhorar a prática médica. Não é a substituição do médico por robôs, mas da possibilidade de tirarmos os robôs de dentro dos médicos. É uma complementação da prática médica. Com menos atividades robóticas, ela passará a ter condições de estreitar relações mais humanas e empáticas com seus pacientes. Nós já usamos IA em muitas atividades do nosso dia a dia. Recomendações de filmes e músicas, buscas no Google, reconhecer colegas em fotos no facebook e assim por diante. Cremos que devemos usar com mais intensidade a IA para as coisas que realmente importam, como nossa saúde.

Vamos ver na prática, no nosso dia a dia como essas tecnologias mudarão a relação médico-paciente. Imaginem que você está acordando em torno das 6:30 da manhã. Essa é a hora que o seu smartphone considera ideal para você acordar hoje, baseado nas horas de sono que você precisa, no sono dos dias anteriores e na sua agenda de hoje. Com uma vibração suave e uma música agradável ele o desperta. Você então o pega para desligar o alarme inteligente. Ao fazer isso, seu smartphone pede sua permissão para usar os sensores e a câmera para executar sua varredura matinal. Ele analisa sua voz; avalia seu nível de estresse com base na análise facial; verifica seus sinais vitais; e notifica você para tirar uma foto dessa verruga em seu braço esquerdo, a fim de detectar qualquer anomalia. Qualquer coisa fora do normal ele avisará o seu médico.

O smartphone motorizado por algoritmos de IA pode ajudar a detectar dados para antecipação sinais de Alzheimer, pneumonia (ouvindo sua tosse), Parkinson (pelo seu modo de teclar), eventual sinal de AVC (pela análise das pupilas e de micro contrações musculares no seu rosto) e inclusive arritmias cardíacas, com peso científico de publicação equivalente à medical trials, e que avisam o paciente quando procurar o médico através de mensagens como: “ALERTA de frequência cardíaca (FC) elevada: sua FC esteve acima de 120 batimentos por minuto durante o repouso”.

Inúmeras empresas já pensam em como se tornar mineradoras de dados dos pacientes de forma independente da variabildiade humana. Citamos como exemplos a americana Spire Health, uma plataforma de monitoramento remoto de pacientes para transformar o cuidado respiratório. Seu wearable é fixado permanentemente à roupa e não requer carregamento. Os sensores rastreiam continuamente e com precisão os parâmetros respiratórios (tempo de inalação e exalação, eventos de apnéia, etc.), atividade, duração e qualidade do sono e frequência cardíaca em um dispositivo discreto que se conecta a um smartphone ou relógio. Outra start-up é Sano que construiu uma plataforma de hardware + software para a detecção contínua e transmissão de dados metabólicos (por exemplo, açúcar, eletrólitos, etc.).

Seja na Spire Health ou na Sano, perguntas rotineiras da anamnese médica sobre hábitos, dosagens de exames e quantidade de exercícios físicos, — que, ou tem respostas desencontradas pelos pacientes ou são negligenciadas pelos médicos — podem ser respondidas com exatidão, antes da entrada da porta do consultório.

Isso nos mostra uma nova medicina. Uma medicina que caminha na direção de ser personalizada, focada na saúde e não na doença, com interação contínua e não esporádica entre médicos e pacientes, e principalmente, em uma relação empática e mais humana entre pessoas, estejam elas com jalecos ou em bermudas. A tecnologia e a IA podem e provavelmente vão se tornar a nova anamnese, o novo estetoscópio, o novo exame físico. Elas definitivamente serão a ferramenta padrão para extrair todos os tipos de dados, com reprodutibilidade e exatidão. Elas farão parte do dia a dia da medicina.

Co-publicado por Cesar Tarion, Vinícius C. Destefani e Felipe M. da Costa