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Tétano: uma infecção que requer atenção | Colunistas

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Fisiopatologia

O tétano é uma infecção bacteriana causada pelo agente Clostridium tetani, um organismo anaeróbico que sobrevive no meio ambiente por meio de esporos, os quais ao entrar em contato com o organismo humano, em geral por meio de lesões na pele, passa a liberar toxinas que irão ser responsáveis por desencadear a sintomatologia da doença. Dentre as exotoxinas eliminadas pelo patógeno, a tetanolisina e a tetanospasmina se destacam. A tetanolisina, apesar de não ter o seu mecanismo de ação tão bem explicado, acredita-se que seja a responsável por danificar o tecido sadio localizado ao redor de uma lesão, agindo para diminuir o potencial de oxirredução do local, o tornando um ambiente anaeróbio propício para o desenvolvimento do Clostridium tetani. Já a tetanospasmina, possui a capacidade de inibir a liberação de neurotransmissores pela membrana pré-sináptica, a exemplo do Ácido gama-aminobutírico (GABA), o que leva a uma desregulação do sistema nervoso, caracterizado, por exemplo, pela presença de espasmos musculares.

Epidemiologia

Apesar de existir vacina contra o tétano e a mesma está disponível no Plano Nacional de Imunização (PNI), o índice de letalidade da doença no Brasil ainda apresenta números elevados. Segundo dados do Boletim Epidemiológico 25 da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, a taxa de taxa de mortalidade pela doença foi de 33,1% entre os anos de 2007 e 2016. Além disso, o alto número de internamentos pelo tétano geram gastos para a saúde do país, tendo em vista que o valor pago por indivíduo que necessita de assistência hospitalar se sobressai de forma significativa ao valor paga por uma dose da vacina.

Quadro clínico

O tétano pode se apresentar de diferentes formas, levando-se em conta a sintomatologia do paciente e ou até mesmo a ordem cronológica com a qual os sintomas vão surgindo.

  • Tétano localizado: caracteriza-se pela existência de hipertonia em apenas em um grupo muscular, podendo permanecer nessa região ou se disseminar para outros grupos musculares vizinhos de forma gradativa. Pode acometer a região cefálica, sendo denominado de tétano cefálico.
  • Tétano generalizado: Caracterizado pela hipertonia de diversos grupos musculares, desatacando-se a contração dos masseteres (o que caracteriza o trismo) e os músculos da mímica facial (o que caracteriza o riso sardômico). Os espasmos paroxísticos levam a um quadro de convulsão generalizada.
  • Tétano neonatal: Inicialmente, pode-se perceber a existência do trismo e a dificuldade do bebê em pegar o seio. Posteriormente, percebe-se uma hipertonia dos membros superiores, acoplados ao tórax, com os membros inferiores permanecendo em hipotensão.

Ademais, o tétano pode cursar com complicações, tais como problemas cardiovasculares e fraturas vertebrais (decorrentes da pressão provocada pelos espasmos dos musculares).

Prevenção

  • Vacinação (esquema vacinal completo e atualizado)
  • Para profissionais de saúde que lidam com riscos biológicos, exige-se que façam o uso correto de EPIs e que em caso de acidentes, principalmente, com materiais perfurocortantes, procure ajuda médica.
  • Proteção dos membros inferiores com o uso de roupas e sapatos, principalmente, em ambientes com risco para cortes com materiais descartados no solo, a exemplo de pregos enferrujados.
  • Ao se ferir, procurar higienizar a região afetada.
  • Ter assistência obstétrica durante a gravidez e o parto.

Diagnóstico

O diagnóstico é meramente clínico, podendo-se pedir exames complementares como hemograma, sumário de urina e raio x da coluna vertebral.

Tratamento      

Em casos leves, moderados e graves de tétano acidental, deve-se fazer a hospitalização imediata do paciente de preferência em um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Medidas gerais

  • Sedar o paciente antes de qualquer procedimento e manipular o menos possível; Se necessário, oxigênio e suporte ventilatório;
  • Administrar (SAT ou IGHTA) o mais breve possível;
  • Limpar local com água, sabão e soro fisiológico;
  • Realizar assepsia com água oxigenada ou solução de permanganato de potássio a 1:5000;
  • Obrigatório desbridamento e retirada de corpo estranho. Deverá ser de uma a seis horas após administração de SAT ou IGHTA;
  • Em caso de ferimento puntiforme profundo, abrir em cruz e lavar com abundância com solução antisséptica (álcool a 70%, clorexidina ou solução de permanganato de potássio 1:5000);
  • Verificar histórico vacinal e completar o esquema;

Formatos moderadas e graves

  • Soro Antitetânico (SAT)

– Uso profilático: 5000 UI IM;

– Uso terapêutico: dose de 20000 UI em duas massas musculares diferentes. Quando EV diluir em soro glicosado 5% lento;

  • Imunoglobulina Humana Antitetânica (IGHTA)

– Uso profilático: Dose de 250 UI;

– Uso terapêutico: 500 UI;

– Somente IM em duas massas musculares diferentes;

Erradicação do Clostridium tetani

  • ADULTO

– Penicilina G Cristalina: 2000000 UI/dose EV de 4 em 4 horas, de sete a dez dias;

 Ou

– Metronidazol: 500 mg EV de 8 em 8 horas, de sete a dez dias;

  • CRIANÇA

– Penicilina G Cristalina: 50000 a 100000 UI/Kg/dia EV de 4 em 4 horas, de sete a dez dias;

Ou

– Metronidazol (500 mg): 7,5 mg EV de 8 em 8 horas, de sete a dez dias.

Referências

OHAMA, Victor Hideo et al. Tétano acidental em adultos: uma proposta de abordagem inicial. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo, São Paulo, vol. 64, n. 2, p. 120-124, mai./ago., 2019.

FOCACCIA, Roberto; VERONESI, Ricardo. Tratado de Infectologia. 5 ed. São Paulo: Atheneu, 2015.

Equipe CEDIPI. Com alta taxa de letalidade, tétano continua a ser um grave problema na saúde brasileira. CEDIPI, São Paulo, 23 de jan. de 2020.

Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE). Fluxograma do Tratamento de Tétano Acidental.

Autoria: Cristovão Pereira dos Santos Júnior

Instagram pessoal: @cristovao.junior1


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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