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Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade: reflexo nos tempos modernos | Colunistas

Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade: reflexo nos tempos modernos | Colunistas

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Gabriella Mares

11 min há 41 dias

O TDAH, como é comumente chamado o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, é um transtorno que já se autodenomina, cursando com hiperatividade e desatenção, além de impulsividade, fatores listados como critérios para o estabelecimento do diagnóstico, segundo o DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, em média 4% da população adulta, a nível mundial, sofre com o TDAH. Já no Brasil, o transtorno atinge cerca de 2 milhões de pessoas adultas.  Embora os dados se refiram a pessoas adultas, sabe-se que o TDAH surge logo na infância, na maioria dos casos, perdurando para a vida adulta. Os sintomas podem ser distintos entre a faixa etária infantil e adulta, porém o alicerce que compõe o transtorno (hiperatividade-impulsividade-desatenção) pode permanecer presente ao longo da vida.

A desatenção, juntamente com outros sintomas, podem indicar TDAH e merece atenção.
Fonte da imagem: https://mundoeducacao.uol.com.br/psicologia/transtorno-deficit-atencao.htm

Sintomas em Crianças 

No que concerne as crianças e adolescentes, os principais sintomas que são observamos, englobam agitação, inquietação, movimentação extensiva pelo ambiente, mexem em diversos objetos, possuem dificuldade em se manterem parados, acabam falando muito e muitas vezes sem sentido entre um assunto do outro, além de serem facilmente influenciados por distrações no ambiente. 

Os pais normalmente relatam que as crianças portadoras de TDAH costumam se esquecer muito das atividades corriqueiras da vida, como o material escolar e as lições de casa. Outra característica é a impulsividade, então é comum o púbere interromper os outros, agir sem pensar antes nas consequências, responder uma pergunta antes que o interrogador termine de fazê-la. 

Outro traço bem perceptível é o baixo rendimento escolar, porque justamente não conseguem focar nos assuntos que são apresentados. Acredita-se que indivíduos do sexo feminino apresentem menores taxas de hiperatividade e impulsividade, quando comparadas aos meninos, porém ambos os sexos apresentam elevadas e parecidas taxas de déficit de atenção.

Fonte da imagem: https://institutopensi.org.br/blog-saude-infantil/dificuldades-no-tratamento-do-tdah/

Sintomas em Adultos 

Estima-se que cerca de 60% das crianças/adolescentes que manifestaram sintomas de TDAH na infância, entrarão na vida adulta mantendo alguns dos sintomas, mas tendem a estabilização, até porque com o passar do tempo e com as interações sociais, o sujeito começa a perceber sua dificuldade de atenção e foco, ou sua inquietação, e vai trabalhando acerca disso.

Adultos possuem dificuldade em organizar atividades do cotidiano, sobretudo decidir o que é prioritário. Acaba assumindo diversos compromissos, através da impulsividade, e depois demonstra dificuldade em saber por onde começar. Possuem dificuldade em iniciar suas tarefas sozinhos, costumam se esquecer com frequência de compromissos, demonstram dificuldade em manter diálogos, pois desfocam facilmente, pensando em outros assuntos em uma mesma conversa.

Infelizmente, o TDAH na vida adulta traz um maior desalinho na vida social, profissional e pessoal do sujeito, porque o sujeito passa a depender de si mesmo nas suas atividades, contudo, possuindo desatenção e hiperatividade, as relações interpessoais, bem como os compromissos laborais acabam ficando prejudicados e o indivíduo sofre os danos do transtorno. 

Causas do TDAH

Estudos amplos vêm sendo feitos, de forma a elucidar possíveis causas do TDAH, o que se sabe é que há uma alteração na região frontal do cérebro dos indivíduos portadores do transtorno. A área frontal é responsável pela inibição do comportamento (aqueles que não são apropriados, por exemplo), além da capacidade de focar, memória, autocontrole, organização e planejamento das atividades. Então, acredita-se que no TDAH, há uma alteração nessa região frontal, envolvendo ainda neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, impactando na capacidade de agir, pensar e se comportar. 

Acredita-se ainda que possíveis causas para essas alterações em nível cerebral, se relacionem com a hereditariedade, pois já se sabe que alguns genes estão envolvidos na predisposição do sujeito ter TDAH. Além disso, alguns fatores relacionados com a gestação do indivíduo também se relacionam o surgimento do transtorno, como substâncias ingeridas na gravidez, a exemplo da nicotina, por meio do tabagismo, e do álcool em excesso, os quais predispõe danos na região frontal do cérebro do feto, podendo cursar em desatenção e hiperatividade na vida adulta. O sofrimento fetal é outro fator que pode causar danos ao cérebro e cursar com TDAH. 

Não obstante, outro aspecto que pode predispor o transtorno são problemas familiares extensivos, pois a criança que está sujeita a uma desorganização familiar, com brigas frequentes, convívio com apenas um dos pais, nível socioeconômico baixo, pode ter maior chance de desenvolver o transtorno.

Diagnóstico 

Em nível diagnóstico, a priori têm-se a suspeita clínica do transtorno, traduzida nos sintomas observados no comportamento do sujeito. São necessárias avaliações médicas, psicológicas e pedagógicas para afirmação do diagnóstico. E além disso, o DSM-V traz critérios para o estabelecimento do diagnóstico de TDAH, a saber:

O DSM-V preconiza 9 sinais e sintomas de desatenção e 9 sinais e sintomas de hiperatividade-impulsividade. Para que se firme o diagnóstico de TDAH, é demandada a presença de 6 ou mais sinais e sintomas de um ou ambos os grupos. Ademais, é preciso que os sintomas estejam presentes muitas vezes na vida do sujeito, mais do que seis meses, e que sejam mais pronunciados do que o esperado durante o desenvolvimento infantil. Também é preciso que ocorram em pelo menos 2 situações distintas e estejam presentes antes dos 12 anos de idade. Outro aspecto diz respeito sobre a interferência na capacidade funcional escolar ou profissional, pessoal. Observadas a clínica e os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-V, se fecha então o diagnóstico de TDAH.

Tratamento

Acerca do tratamento, este é multifatorial, se baseando em terapia comportamental e terapia medicamentosa com estimulantes neurológicos, sendo que a combinação entre essas duas terapias supracitadas é mais eficiente, em estudos randomizados, do que isoladamente. A terapia comportamental se baseia principalmente na TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental), tendo bons resultados no que concerne o entendimento e a consequente modulação do comportamento pelo sujeito. Mas é preciso lembrar que a terapia comportamental isolada, tem menos efeito prático do que o uso de terapia medicamentoso. Porém, é comprovado que mesclando a TCC com mudanças comportamentais escolares, incluindo maior interação com professore e colegas e o estímulo audiovisual, colaboram em grande monta para amenizar o quadro de TDAH na infância.

Já a terapia medicamentosa, se baseia no uso de neuroestimulantes, como Metilfenidato, a famosa Ritalina (nome comercial) e Dextroanfetamina, porém é de extrema necessidade que a prescrição destes fármacos seja feita por profissionais qualificados, porque a dose utilizada deve ser necessária para que se obtenha o efeito desejado, com o mínimo de efeitos adversos possíveis. Entre os efeitos colaterais vistos, podemos citar os distúrbios do sono, como insônia, depressão, cefaleia, inapetência, taquicardia, hipertensão, palpitações cardíacas, dentre outros. Por isso, não é indicado que estes medicamentos sejam feitos por automedicação, inclusive porque seu uso será feito para crianças, que precisam de um olhar mais criterioso.

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Fonte da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-46202403

Outros fármacos que podem ser utilizados no tratamento do TDAH são fármacos não neuroestimulantes, como Atomoxetina, um inibidor seletivo da recaptação de noradrenalina, porém sua eficácia não é comparada à de fármacos estimulantes. Antidepressivos como Bupropiona e Clonidina também podem ser utilizados, sobretudo dada a pequena probabilidade de ocorrerem eventos adversos, principalmente quando se trata de um público infantil. Mas, também não possuem eficácia comprovada como a dos fármacos estimulantes. 

Uma vez que é feito o diagnóstico de TDAH, as terapias medicamentosa e comportamental devem se aliar, tanto visando o público infantil, quanto o público adulto, garantindo assim maior bem estar para as pessoas portadoras de TDAH que, apesar do transtorno, merecem uma vida com o máximo de qualidade.

Reflexo do TDAH nos tempos modernos

Vivemos uma pandemia de COVID-19, em que o próprio cenário de uma doença nova, milhões de mortes e uma crise socio-econômica decorrente, trazem medo e insegurança para as pessoas. Se até para quem não tem nenhum transtorno, a capacidade de manter a atenção e a calma ficou dificultada pelas angústias inerentes ao contexto vivido. Então, para quem já tinha algum transtorno prévio, certamente se viu mais alterado ainda, principalmente quando falamos de TDAH. 

Para as crianças, isso se acentua à medida em que deixaram de ir à escola e ter o contato com professores e amigos, tendo que se adequar a uma realidade de ensino remoto, que por si só já causa grandes distrações. O mesmo é válido para os adultos que sofrem com o transtorno e se viram diante de home office e distanciamento social.

A problemática gira em torno do fato de que mesmo com essas dificuldades, essas pessoas são cobradas, em termos de rendimento, quer seja na escola, quer seja no trabalho e até mesmo nas relações interpessoais. Entretanto, é preciso que haja flexibilidade e acolhimento, por parte de todos, para que seja dada uma atenção diferenciada aos pacientes que sofrem de TDAH, sobretudo em um contexto conturbado em todos os âmbitos, como o que se formou em resultado a pandemia. 

Não banalizar a doença também é importante, afinal muitas pessoas que possuem dificuldade de concentração ou ficaram mais inquietas durante a pandemia, costumam a generalizar a situação, dizendo que estão com TDAH e até mesmo passam a utilizar neuroestimulantes, isso sem nenhuma indicação médica ou diagnóstico firmado, com a desculpa de que estão se sentindo desanimados e desatentos e precisam “otimizar” seu rendimento. 

iStock
Fonte da imagem: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/03/01/qualquer-desatencao-e-tdah-como-diferenciar-de-outros-problemas.htm

Mas com isso, pessoas que não precisam de medicação estimulante começam a utilizar sem prescrição, podendo causar riscos à saúde, e além disso começam a banalizar a doença TDAH, como se fosse generalizado para quem se encontra hiperativo e desatento por conta de um cenário apenas transitório, enquanto veridicamente se trata de um transtorno mental fatídico, que cursa com dificuldades que refletem em praticamente todos os âmbitos da vida dos portadores, necessitando ser encarada de forma séria.

Conclusão

O TDAH é um transtorno que atinge crianças e adultos, mas principalmente na infância, deve haver intervenção, para que o sujeito consiga desenvolver uma vida adulta com menores consequências. Essas pessoas precisam ter uma atenção diferenciada, tanto pelas instituições as quais estão inseridos, quanto pelas pessoas que as cercam, pois, seu comportamento não é uma escolha, mas fruto de um distúrbio neuropsicológico como diversos outros listados na literatura.

Principalmente em um contexto de pandemia, é preciso que as pessoas com TDAH sejam cuidadosamente acompanhadas, pela equipe de saúde e pela rede de apoio, para evitar agravos a essa condição de saúde que impacta diretamente nos diversos âmbitos da vida. O acolhimento e a melhor terapêutica devem ser aliados no tratamento de pessoas, visando o aumento de sua qualidade de vida e a dignificação de sua condição humana, principalmente quando o foco recai sob pacientes em sofrimento mental, incluindo os portadores de TDAH. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências Bibliográficas

CALIMAN, Luciana Vieira. O TDAH: entre as funções, disfunções e otimização da atenção. Psicologia em estudo, v. 13, p. 559-566, 2008.

CHEROLT, Nidia da Rosa. Défict de atenção e hiperatividade e os desafios no ensino e na aprendizagem em tempos de pandemia da Covid 19. 2020.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Inquietas: TDAH-desatenção, hiperatividade e impulsividade. Principium, 2014.

TDAH já atinge cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil – Tribuna de Ituverava – Disponível em: https://www.tribunadeituverava.com.br/tdah-ja-atinge-cerca-de-2-milhoes-de-pessoas-no-brasil/. Acesso em 12/10/2021.

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