Psiquiatria

Transtorno do Espectro Autista e sua relação com a suplementação de ácidos graxos poli-insaturados | Colunistas

Transtorno do Espectro Autista e sua relação com a suplementação de ácidos graxos poli-insaturados | Colunistas

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O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é considerado um distúrbio neuropsiquiátrico, marcado por alterações no desenvolvimento neurológico que podem ocasionar comprometimentos na interação social e comunicação, com comportamentos restritivos e estereotipados. Geralmente, os sintomas do paciente com TEA variam de leve a grave, com alterações neurológicas e digestivas. Fato este que enfatiza a importância de uma dieta adequada, rica em vitamina B6, magnésio e os ácidos graxos, como a suplementação de ômega-3. Dessa forma, as intervenções nutricionais para esses indivíduos são mais promissoras para amenizar a sintomatologia clínica.

A Organização Mundial de Saúde revela que a prevalência mundial, no ano de 2019, de TEA é de 1 em cada 160 crianças e sua tendência é só crescer, uma vez que o diagnóstico está cada vez mais precoce, com melhoria e ampliação de dispositivos de diagnóstico, além do crescimento das pesquisas e desmistificação da população, diante da difusão de informações sobre o tema que tem facilitado a identificação pelos pais.

Assim, é necessário pontuar a etiologia do distúrbio, que está fixado em paradigmas que facilitam a compreensão, eles são o paradigma biológico-genético, que disserta sobre a prevalência da influência dos genes dos progenitores no aparecimento da doença ou mutações aleatórias que possam determinar a manifestação do distúrbio, os estudos afirmam que ambos são determinantes para o Autismo. Outra vertente seria a relacional, que associa o aparecimento do distúrbio a ausência ou excesso no comportamento materno durante e após a gestação, sobre o assunto ainda há muitas controvérsias. Como também, o paradigma ambiental que se refere aos acontecimentos no período pré-natal, perinatal e pós-natal, que causam lesões neurológicas que difundem o TEA. E por fim a neuro diversidade que dialoga sobre a singularidade de cada ser humano e respeito a suas particularidades, desse modo encarando o autismo como uma condição que não deve ser tratado como uma doença.

No que concerne a sintomatologia da doença, os déficits variam de leve a grave, com alterações neurológicas e digestivas. Alguns pacientes apresentam maior dificuldade na interação social, assim como na comunicação e linguagem e na manifestação de comportamentos repetitivos e estereotipados. Assim, é possível notar que nos primeiros anos de idade é comum na maioria das crianças, regressão da habilidade social e da linguagem oral. Ademais, os comportamentos repetitivos, o movimento dos músculos de forma sistemática, tem alto grau de incidência em pessoas com TEA. No entanto, essas características ainda são pouco compreendidas, sendo necessário mais estudos para uma melhor análise.

O tratamento do TEA é voltado para a atenção psicossocial com direcionamentos que buscam minimizar os sintomas comuns do autismo, portanto, é pouco difundido o tratamento medicamentoso na infância, porém há uma vasta opção de remédios para disfunções específicas muito utilizados na idade adulta.

Suplementação de ácidos graxos poli-insaturados

Intervenções na dieta alimentar é descrito como fator que pode interferir de modo positivo na sintomatologia do quadro clínico, envolvendo o eixo intestino-cérebro, no qual o TEA está inserido.  A comunicação bidirecional do sistema nervoso central e entérico, conectando os centros emocional e cognitivo do cérebro às funções intestinais periféricas por meio de ligações neurais, endócrinas, imunes e humorais, é chamada de eixo intestino – cérebro. Sendo destacada a possibilidade de melhoria do espectro a partir da suplementação nutricional, como por exemplo, de ácidos graxos poli-insaturados. 

O consumo alimentar ou suplementação de ácidos graxos poli-insaturados da família do ômega-3 em crianças com TEA pode trazer benefícios, uma vez que os níveis de ômega-3 circulante são baixos, assim a suplementação age na correção de alterações no metabolismo. Além disso, o uso do ômega-3 potencializa a atividade cerebral, estando relacionado com a redução de sintomas de hiperatividade e comportamentos estereotipados em crianças com TEA.

Ácidos graxos poli-insaturados (PUFA) são moléculas que apresentam em sua estrutura duas ou mais ligações insaturadas carbono-carbono, e pode-se subdividir em dois grupos: o ácido linoléico (ômega 6) e o ácido linolênico (ômega 3), que, por sua vez, dão origem a outros ácidos essenciais de cadeias mais longas.  Os ácidos graxos poliinsaturados essenciais não são sintetizados pelas corpo humano e tem importância bioquímica e fisiológica no metabolismo e na saúde humano.

A família do ômega 3 inclui o ácido eicosapentaenóico (EPA) e ácido docosahexaenóico (DHA), tendo como principal fonte alimentícia os peixes e frutos do mar.  Agem com ação anti-inflamatória via inibição da geração de radicais livres bem como, também interferem na regulação dos neurotransmissores e no sistema imunológico.Ademais, muitos são os benefícios associados com a ingestão de ômega 3, dentre as tais, vale salientar: prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares, doenças inflamatórias do trato gastrointestinal, infecções, lesões e alterações imunológicas.

O chamado “desequilíbrio de ácidos graxos”, com deficiência em gorduras ômega-3 ou excesso de gorduras ômega-6, constitui-se como princípio que impede o potencial benéfico terapêutico de ômega-3. Déficits de ômega 3, na proporção 1:1 de ômega 3 e ômega-6, tem sido relacionado a vários distúrbios do neurodesenvolvimento, como TEA, transtorno de deficiência de atenção, hiperatividade, dislexia e dispraxia.

Vale salientar que, o DHA ao ser incorporado às membranas celulares dos neurônios, pode levar à melhor ligação dos neurotransmissores aos seus receptores, sua deficiência está relacionada com disfunções na estabilidade da membrana neuronal, na neuroplasticidade e na transmissão da serotonina, norepinefrina e dopamina, que podem ter ligação à etiologia dos distúrbios do humor e com as manifestações cognitivas da depressão. Por outro lado, o EPA é associado ao aumento do suprimento de oxigênio e glicose para o cérebro e proteger contra o estresse oxidativo.

Autora: Fávilla Pinto

Instagram: @favillav_

Referências:

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