Entenda as indicações para aplicação da técnica e como é realizado o procedimento de colocação de slings, que aumenta a sustentação da uretra e melhora a incontinência urinária
Incontinência Urinária
A incontinência urinária é definida como qualquer perda urinária involuntária, motivada ou não por esforço ou vontade. Há quatro tipos principais:
- Incontinência de esforço, quando a perda urinária é desencadeada por esforços como a tosse com aumento da pressão intra-abdominal;
- Incontinência de urgência, quando há incapacidade de conter a urina até chegar a um sanitário ou local adequado;
- Incontinência mista, quando há fatores de esforço e de urgência envolvidos simultaneamente
- Incontinência funcional, quando alguma outra condição orgânica causa a perda de urina, como em pacientes acamados que não conseguem alcançar o sanitário a tempo e função da mobilidade reduzida, com consequente perda de urina
A etiologia da incontinência urinária pode estar relacionada a um enfraquecimento do assoalho pélvico, como em casos de grandes multíparas com consequente isquemia e lesão da musculatura e inervação pélvica, ou em pacientes menopausadas em hipoestrogenismo com consequente enfraquecimento do assoalho pélvico. Outra etiologia é a bexiga hiperdistendida, que por manobras de esforço podem cursar com escape de urina, ou mesmo por manobras de esforço desencadeadas por patologias que cursam com aumento da pressão intra-abdominal, comum em pacientes portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Dentre os fatores de risco para a incontinência urinária, cabe destacar o hipoestrogenismo associado à menopausa, obesidade, DPOC e tipos de gestação e paridade. Tal afecção cursa com sérias repercussões à qualidade de vida da mulher, modificando aspectos sociais, emocionais e econômicos.
Há possibilidade de tratamento conservador em alguns casos, com exercícios para tonificação do assoalho pélvico e biofeedback; todavia, em casos de incontinência urinária de esforço, pode ser necessária associação com abordagem cirúrgica por técnicas como o slings de uretra média, que aumenta a sustentação da uretra e melhoram a incontinência. Já foram descritas aproximadamente 100 técnicas cirúrgicas para a correção do quadro, e algumas, como a de Kelly-Kennedy foram abandonadas.
Técnica de Slings
Esse procedimento foi descrito pela primeira vez em 1907 por Giordano, que utilizou uma dobra do músculo grácil para auxiliar na sustentação da uretra e reduzir as perdas urinárias. Atualmente, são utilizadas vias de acesso combinadas para a colocação de uma faixa (slings) sob a uretra, que serve de suporte e funciona como um mecanismo esfincteriano. Tal técnica é indicada para todos os tipos de incontinência urinária de esforço, especialmente se houver defeito esfincteriano e em casos de falha do tratamento comportamental e fisioterápico, com índices de cura variando entre 80 e 100%. Tem efeito protetor contra a cistocele. Sua principal complicação é a retenção urinária por hiperatividade do detrusor, e as taxas de sucesso são menores em pacientes obesas. As técnicas descritas podem diferir em aspectos como material utilizado (orgânico ou sintético), vias de acesso (retropúbico ou transobuturatório) e tipos de fixação.
A técnica atualmente mais utilizada, com intervenção eficaz, baixa morbidade e minimamente invasiva é a TVT (Tension-free Vaginal Tape), em que uma faixa de polipropileno auto-fixante e livre de tensão é inserida sob a uretra média, preferencialmente por via retropúbica, sob anestesia geral. O pós-operatório costuma ocorrer sem complicações, e a paciente retoma suas atividades rotineiras em três a quatro dias. É recomendado que nesse período a paciente se abstenha das atividades sexuais por um período de 40 dias, além de evitar esforços miccionais ou evacuatórios.

Fonte: https://www.mayoclinic.org
Conclusão
A incontinência urinária traz sérias repercussões à qualidade de vida de qualquer mulher, com importante impacto social, emocional e econômico. Sua prevalência pode chegar a 55% em mulheres na pós-menopausa, o que reafirma a relevância clínica dessa condição. A incontinência está frequentemente associada a condições como prolapso uterino ou distopia de parede vaginal anterior, e nesses casos ambas as afecções devem ser tratadas. A escolha da abordagem terapêutica mais adequada depende da análise minuciosa da história clínica da paciente, e especialmente em casos de incontinência urinária de esforço com evolução progressiva e quando há falha terapêutica com abordagens não cirúrgicas, podemos lançar mão da cirurgia de slings, que embora apresente variações nas técnicas, objetiva sempre auxiliar na sustentação da uretra e reduzir as perdas urinárias. O procedimento tem altas taxas de sucesso, com um pós-operatório sem complicações.
Autora: Maria Fernanda Jardim
Instagram: @mafejardim
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Referências:
Urinary incontinence – https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/urinary-incontinence/diagnosis-treatment/drc-20352814
Sling Vesical na Bexiga Neurogênica e Incontinência Urinária – https://mieloblog.com.br/sling-vesical-na-bexiga-neurogenica-e-incontinencia-urinaria/
CASTRO, Rodrigo A. et al. Tratamento cirúrgico da incontinência urinária de esforço. Rev. de Uroginecologia. Escola Paulista de Medicina, São Paulo, v. 2, n. 5, p. 125-30, 2009.
TANURI, Andrea Lopes Salzedas et al. ” Sling” retropúbico e transobturatório no tratamento da incontinênca urinária de esforço. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 56, n. 3, p. 348-354, 2010.