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Tudo que você precisa saber sobre a vitamina K: fontes, importância e deficiência | Colunistas

Tudo que você precisa saber sobre a vitamina K: fontes, importância e deficiência | Colunistas

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Maria Gabriela Gouvea

10 minhá 42 dias

Você sabia que vitamina K é o nome genérico dado a um grupo de compostos que atuam como coenzima? Está por dentro de que sua importância vai muito além da coagulação sanguínea? Conhece as causas e os grupos mais vulneráveis a esta deficiência vitamínica? Os próximos tópicos te auxiliam a entender tudo isso, vamos lá!

Fontes e estruturas moleculares da vitamina K

Primeiramente, é importante entender que não existe “uma vitamina K”, mas sim um grupo de compostos, os quais são sintetizados por diferentes organismos e possuem diversas – porém parecidas – estruturas moleculares.  O que os caracteriza como vitamina K é atuarem como coenzima na síntese pós-translacional (modificação que ocorre após a tradução da proteína) de ácido y-carboxiglutâmico (Gla).

A vitamina K sintetizada pelos vegetais é denominada vitamina K1 ou filoquinona. Está presente em alimentos como óleo de soja e hortaliças verde-escuro (couve e espinafre, por exemplo) e é armazenada preferencialmente no fígado. Já a menaquinona ou K2 é sintetizada pela microbiota intestinal, sendo, após a absorção, armazenada majoritariamente no tecido adiposo periférico. 

Existe, também, a dihidrofiloquinona (dK), a qual é sintetizada industrialmente na hidrogenação de óleos vegetais (produção de margarina) e a vitamina K sintética, utilizada como suplemento e denominada K3 ou menadiona.   

Há estudos que apontem que a fonte de vitamina K influencia a eficiência da absorção e a atividade biológica, porém ainda faltam evidências sobre o assunto, principalmente em relação à menaquinona.

Lipossolubilidade e os distúrbios vitamínicos (hipervitaminose, hipovitaminose)

A vitamina K é uma das quatro vitaminas lipossolúveis do organismo – as outras são a A, D e E –, de modo que ela é absorvida com as micelas lipídicas no intestino delgado e armazenada no tecido adiposo. Devido a esta característica, as vitaminas lipossolúveis tendem à hipervitaminose ([pref.; grego]: superior, acima do normal) e toxidade, devido à maior chance de acúmulo. Entretanto, isso é raro para a vitamina K, pois grande parte da filoquinona absorvida é excretada nas fezes e urina.  Ao mesmo passo, a hipovitaminose (pref.; grego]: abaixo) é rara nos adultos em virtude da síntese pela microbiota intestinal, por ser reciclada a nível celular – no ciclo da vitamina K – e pela grande distribuição na dieta balanceada. Vale ressaltar, também, que a vitamina K é a única das lipossolúveis que atua como cofator.

Importância

Coagulação

Você já deve conhecer o famoso macete: vitamina K de “koagulação”. Isso se dá porque a biodisponibilidade desse micronutriente é fundamental para a ocorrência da cascata de coagulação. Como dito acima, a vitamina K atua como uma coenzima, o que significa que ela é fundamental para que a reação catalisada pela enzima carboxilase, vitamina k-dependente, aconteça.  Esta é uma reação de oxirredução, onde a vitamina K (na forma de hidroquinona) atua como agente redutor e o resíduo de glutamato é reduzido a y-carboxiglutamato (outra nomenclatura paro o Gla).                                                          

O ácido y-carboxiglutâmico é um bom quelante (capaz de se ligar a íons metálicos), o que facilita a ligação da proteína ao Ca2+, e é essencial para a atividade biológica da proteína. Sete proteínas (os fatores: II, VII, IX, X; e as proteínas: C, S e Z) relacionadas à coagulação sanguínea são dependentes de vitamina K para serem produzidas e/ou ativadas. Para exemplificar como a ativação ocorre, veja o caso da protrombina:

A carboxilase vitamina k-dependente catalisa a formação do resíduo de y-carboxiglutamato na protrombina, capacitando-a a se ligar ao Ca2+. O complexo protrombina-Ca2+ formado é atraído às cargas negativas dos fosfolipídios das plaquetas e do endotélio. A ligação às plaquetas fomenta a conversão proteolítica de protrombina a trombina.

Anticoagulantes

A hidroquinona, ao atuar como cofator, é oxidada a forma de epóxido. Uma enzima redutase catalisa a conversão da forma inativa (epóxido) à forma reduzida e ativa: a hidroquinona – o que é conhecido como ciclo da vitamina K. Medicamentos anticoagulantes, como a varfarina e o dicumarol, atuam inibindo a atividade da redutase, impedindo, assim, a cascata de coagulação.

Muito além da coagulação

Outra proteína dependente da vitamina K para sua atividade é a Gas 6. A Gas 6 possui uma série de receptores de enzimas quinases, estando envolvida no ciclo celular e sendo objeto de estudo promissor, devido a sua relação com o câncer, a inflamação e a homeostase.

Metabolismo ósseo

A osteocalcina é a proteína não colágena mais abundante do tecido ósseo e necessita do resíduo de ácido gama carboxiglutâmico para se ligar aos cristais de hidroxipatita, estando relacionada à mineralização óssea normal. A proteína Gla da matriz também está relacionada à manutenção do osso maduro saudável, além de prevenir a calcificação vascular.

Causas da deficiência de vitamina K

Apesar de rara, a deficiência de vitamina K pode acarretar distúrbios de coagulação, demora para a formação dos coágulos e agravo dos sangramentos. A hipovitaminose pode ser secundária às condições listadas a seguir:

Deficiência na absorção de gordura

Icterícia obstrutiva

Icterícia (pele amarelada) proveniente da obstrução parcial ou completa do fluxo da bile do fígado para o trato digestivo, o que é chamado colestase. A principal causa de colestase é a coledocolitíase (cálculos nos ductos biliares). Neste contexto, a ausência de bile prejudica a absorção de lipídios e, consequentemente, de vitamina K.

Fibrose cística

Esta doença hereditária autossômica recessiva caracteriza-se pela disfunção múltipla dos órgãos. Isso ocorre devido à secreção anormal pelas glândulas exócrinas de um muco pegajoso, o qual bloqueia os alvéolos pulmonares e o ducto pancreático – sem o suco pancreático, a absorção fica extremamente comprometida, sendo necessária suplementação das vitaminas lipossolúveis.

Síndrome do Intestino curto (SIC)                 

O comprimento do intestino delgado é insuficiente para manter a nutrição adequada, via oral. Pode ser secundária a cirurgias (doença de Crohn e bariátrica), fístulas, radioterapia, infecções e isquemia, por exemplo.

Terapia longa com antibióticos

Como a microbiota intestinal sintetiza importante quantidade de vitamina K2, o uso prolongado de antibióticos – em especial as cefaloporinas de segunda geração (cefoperazona, cefamandol e moxalactam) – pode acarretar a diminuição da população bacteriana do intestino e, a partir disso, hipoprotrombinemia. Pacientes mais suscetíveis a isso são os marginalmente subnutridos, como idosos com debilidades crônicas, os quais requerem maior atenção, quanto à necessidade de suplementação vitamínica adjunta à medicação.

Vitamina K e o recém-nascido

A hipovitaminose de vitamina K é relativamente comum em recém-nascidos, posto que essa vitamina não atravessa bem a placenta, de forma que a criança possui poucas reservas ao nascimento. Ademais, o trato gastrointestinal e a microbiota intestinal ainda estão em desenvolvimento, o que prejudica a absorção e síntese de vitamina K. Somado a isso, o leite materno é pobre em vitamina K. Vale ressaltar que, quanto mais prematuro o nascimento, maior tende a ser a deficiência vitamínica.

Doença hemorrágica do recém-nascido

A hipovitaminose de vitamina K no recém-nascido pode desencadear o quadro hemorrágico, o qual se manifesta por meio de equimoses, fezes sanguinolentas e vômitos. Ela pode se manifestar do primeiro ao sétimo dia de vida (clássica) ou da 2ª a 12ª semana de vida pós-natal (doença hemorrágica tardia).

Um fator de risco para a doença hemorrágica do recém-nascido é a exposição intraútero às medicações das mães que fazem terapia anticonvulsivante.

Neste contexto, o Ministério da Saúde, visando evitar distúrbios de coagulação, recomenda a administração de uma dose de vitamina K1 1 mg, via intramuscular ou subcutânea, a qual é administrada no ambiente hospitalar, logo após o nascimento.

Hipervitaminose

São extremamente raras, contudo a administração prolongada de vitamina K, pode acarretar efeitos tóxicos na membrana celular dos eritrócitos evoluindo para icterícia e anemia hemolítica no bebê.

Conclusão

A vitamina K é uma vitamina lipossolúvel essencial para o organismo. Está relacionada, não apenas a coagulação sanguínea, mas também a integridade óssea e a homeostase. É encontrada abundantemente nos alimentos de origem vegetal e é sintetizada pela microbiota intestinal, de modo que a deficiência de vitamina K é incomum. Contudo, recém-nascidos, idosos, o uso prolongado de antibióticos e portadores de deficiências absortivas lipídicas são mais suscetíveis à hipovitaminose e consequentes distúrbios de coagulação, portanto urge que os médicos e estudantes de medicina saibam manejar e prevenir esta condição.

Autoria: Maria Gabriela Gouvea

Referências:

  1. DEVLIN, Thomas M.. Textbook of Biochemistry: with clinical correlations. 7. ed. Philadelphia: John Wiley & Sons, Inc., 2011.
  2. HAMPE, Pamela C. HARVEY, Richard A. FERRIER, Denise R.. Bioquímica Ilustrada. 3. ed. Porto Alegre: Artmed SA, 2006.
  3. MELCHIOR, Cláudia. Interações entre ingestão de vitamina K, vitamina K sérica, tempo de protrombina e a dose de varfarina e polimorfismo do gene CYP2C9 em pacientes cardiopatas usuários de anticoagulantes orais de um Instituto de Cardiologia de São Paulo. 2010. 70 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível em: http://www.repositorio.unifesp.br/bitstream/handle/11600/9770/Publico-276a.pdf?sequence=1&isAllowed=y  Acesso em: 13 nov. 2020.
  4. BELLIDO-MARTÍN, Lola. FRUTOS, Pablo G.. Vitamin K‐Dependent Actions of Gas6. Vitamins & Hormones, Academic Press, Volume 78, 2008. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S008367290700009X?via%3Dihub Acesso em: 13 nov. 2020.
  5. Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral. Terapia Nutricional na Síndrome do Intestino Curto – Insuficiência/Falência Intestina. Projeto Diretrizes: Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. 2011. Disponível em: https://diretrizes.amb.org.br/_BibliotecaAntiga/terapia_nutricional_na_sindrome_do_intestino_curto_insuficiencia_falencia_intestinal.pdf Acesso em: 13 nov. 2020.
  6. PUCKETT RM, OFFRINGA M. Vitamina K profilática para hemorragia por deficiência de vitamina K nos recém-nascidos. Biblioteca Cochrane. 2000. Disponível em: https://www.cochrane.org/pt/CD002776/NEONATAL_vitamina-k-profilatica-para-hemorragia-por-deficiencia-de-vitamina-k-nos-recem-nascidos#:~:text=A%20doen%C3%A7a%20hemorr%C3%A1gica%20do%20rec%C3%A9m%2Dnascido%20(HDN)%20%C3%A9%20causada,do%20nascimento%20at%C3%A9%20alguns%20meses. Acesso em: 13 nov. 2020.

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