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Tumores cerebrais: uma revisão | Colunistas

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Imagem de perfil de Marina Baeta

Tumores cerebrais são comuns na população geral e sua prevalência tem aumentado devido não somente aos avanços no diagnóstico, como também no manejo e sobrevida dos pacientes com esses tumores. Para o Brasil, estimam-se 5.870 casos novos de câncer do sistema nervoso central (cérebro principalmente) em homens e 5.220 em mulheres, para cada ano do triênio 2020-2022. Diante deste cenário, ressalta-se o papel vital dos profissionais da saúde no diagnóstico adequado dos tumores cerebrais e na complexa coordenação do cuidado do paciente.

Definição e classificação quanto à origem

Tumores cerebrais constituem massas de células anormais, neoplásicas ou não, compreendidas dentro do crânio. Independentemente do sítio primário do qual as células tumorais no cérebro advenham, todos os tumores cerebrais são potencialmente fatais (figura 1). Considerando ainda que o cérebro está confinado ao crânio, não há possibilidade de expansão à medida que a massa tumoral cresce.

Por conseguinte, o tumor pode comprimir e deslocar o cérebro, podendo causar edema do tecido e bloqueio da dinâmica do líquido cefalorraquidiano com consequente aumento da pressão intracraniana e herniação do tecido cerebral.

Tumores cerebrais primários tem sua origem no cérebro e costumam não metastizar para outras partes do corpo. Esses tumores podem ser benignos ou malignos. Os tumores primários benignos são indolentes com margens bem definidas que raramente se disseminam. Ainda que as células deste tumor não sejam malignas, elas podem configurar um risco de vida a depender da localização, acometendo uma área vital do cérebro. Os tumores primários malignos crescem rapidamente sem regularidade de margem, acometendo regiões cerebrais próximas.

Tumores cerebrais secundários, referidos também como metástases intracranianas, têm sua origem em outra localização do corpo. Os tumores primários que comumente originam metástases cerebrais são as neoplasias de pulmão, mama e melanoma.

Figura 1. Tumores cerebrais podem crescer a partir de nervos (neuroma), da dura máter (meningioma), da hipófise (craniofaringioma ou adenoma de hipófise), ou do próprio parênquima cerebral (glioma). Fonte: Mayfield Clinic

Tipos de tumores cerebrais

Há mais de 120 tipos de tumores cerebrais, sendo os mais prevalentes as metástases intracranianas, os meningiomas e os gliomas. Quanto aos tumores mais comuns temos:

  • Gliomas:
    • Astrocitoma: pilocítico (grau I), difuso (grau II), anaplásico (grau III) e glioblastoma (grau IV);
    • Oligodendroglioma (grau II): anaplásico (grau III);
    • Ependimoma (grau II): anaplásico (grau III).
  • Craniofaringioma;
  • Epidermoide;
  • Linfoma;
  • Meningioma;
  • Schwannoma (neuroma);
  • Adenoma hipofisário;
  • Pinealoma;
  • Meduloblastoma.

Os tumores cerebrais são classificados com base no tipo celular (neurônios e células gliais, especificando qual célula da glia) e no grau (tabela 1). Os tumores cerebrais costumam ter diferentes graus em um mesmo tumor, podendo mudar enquanto crescem.

Sintomas dos tumores cerebrais

Os tumores comprometem o cérebro por destruição do tecido normal, compressão e aumento da pressão intracraniana. Os sintomas associados à doença dependem do tipo, do tamanho e do local do tumor (figura 2):

Figura 2. Topografia cerebral. Fonte: Mayfield Clinic.

Lobo frontal: mudanças emocionais e de comportamento; julgamento, motivação e inibição prejudicados; perda de visão e olfato prejudicado; paralisia de um lado do corpo; habilidades mentais reduzidas e perda de memória.

Lobo parietal: fala comprometida; problemas para escrever, desenhar e nomear; desordens espaciais e de coordenação.

Lobo occipital: perda de visão uni ou bilateral; visão turva; alucinações.

Lobo temporal: dificuldade de fala e compreensão da linguagem; problemas de memória de longo e curto prazo; comportamento agressivo.

Tronco encefálico: mudanças emocionais e de comportamento; dificuldade para falar e deglutir; tontura; perda auditiva; fraqueza muscular de um lado da face ou do corpo; marcha sem coordenação; pálpebra caída ou visão dupla; vômito.

Hipófise: aumento de secreção hormonal (síndrome de Cushing, acromegalia); amenorreia; secreção de leite; libido diminuída.

Diagnóstico dos tumores cerebrais

Exames neurológicos como checagem do estado mental e memória, função dos nervos cranianos, força muscular, coordenação, reflexo e resposta a estímulo doloroso fazem parte da linha de frente para o diagnóstico.

Exames de imagem também auxiliam no diagnóstico. A tomografia computadorizada (TC), associada ou não a contraste, utiliza raio-x e permite a visualização do cérebro em cortes. A TC é muito útil para visualizar estruturas ósseas. A ressonância magnética (RM) utiliza um campo magnético e ondas de radiofrequência para prover uma visão detalhada de tecidos moles do cérebro. A RM associada ou não a contraste analisa o cérebro em cortes sob uma dimensão 3D e é muito útil para detectar lesões cerebrais e seu efeito nos tecidos adjacentes (figura 3).

Figura 3. Ressonância magnética de tumor benigno e maligno. Tumores benignos possuem margens bem definidas, enquanto que os malignos tem bordas mais irregulares, com invasão de tecidos adjacentes. Fonte: Mayfield Clinic.

A biópsia do tumor cerebral é feita quando um diagnóstico não for claramente identificado, permitindo determinar que tipo de tumor está presente. A biópsia pode ser feita durante a cirurgia ou como um procedimento utilizando agulha (figura 4).

Figura 4. Biópsia por agulha, em que uma cânula é introduzida até o tumor e uma amostra é retirada para avaliação pelo patologista. Fonte: Mayfield Clinic.

Tratamento dos tumores cerebrais

O tratamento varia de acordo com o tipo de tumor, estadio, tamanho, localização, se ocorreu disseminação, e condições do paciente (idade e estado geral). O tratamento pode ser curativo ou paliativo, sendo o objetivo a remoção cirúrgica total ou mais abrangente possível para minimizar a chance de recidiva. Caso a cirurgia não consiga remover completamente o tumor, a radio e a quimioterapia podem ser empregadas.

Observação: a observação também é uma opção válida de tratamento, especialmente para tumores benignos e indolentes que apresentam poucos sintomas.

Medicamentos: esteróides (dexametasona) são usados para controle do edema ao redor do tumor e devem ser prescritos em associação a protetores gástricos (famotidina, pantoprazol). Furosemida ou manitol também são empregados para controlar o edema e inchaço cerebrais. Anticonvulsivantes (fenitoína, ácido valproico, carbamazepina e levetiracetam) também são recomendados para esses pacientes.

Cirurgia: é o tratamento de escolha para tumores que possam ser alcançados sem causar grandes danos a partes vitais do cérebro. O procedimento envolve uma craniotomia (figura 5), cirurgia guiada por imagem, fluorescência tumoral, TC ou RM intraoperatória e mapeamento funcional do cérebro.

Figura 5. Craniotomia para excisão de tumor cerebral. Fonte: Mayfield Clinic.

Termoablação a laser: tratamento minimamente invasivo utilizando um cateter guiado em tempo real por RM.

Radioterapia: a técnica utiliza raios de alta energia que danificam o DNA das células, impossibilitando-as da divisão e crescimento. Tumores agressivos tendem a responder rapidamente à radiação. Tumores benignos têm efeito demorado devido à indolência da sua replicação. Os feixes de radiação são moldados para o tumor, minimizando a exposição do tecido normal ao tratamento.

Figura 6. Radioterapia. Fonte: Mayfield Clinic.

Quimioterapia: o tratamento envolve o dano das células anormais, impedindo sua divisão. Apesar de também alvejar células normais, estas se recuperam melhor que as células anormais. O tratamento é administrado em ciclos com períodos de recuperação de células sadias. As drogas mais comumente empregadas no tratamento dos tumores cerebrais são a temozolamida e o bevacizumabe. A quimioterapia também pode ser empregada para aumentar a morte tumoral durante a radioterapia. Ressalta-se que essa modalidade é tipicamente usada no tratamento de gliomas de alto grau (não é rotina no tratamento de tumores benignos).

Terapia adjuvantes: compreendem imunoterapia, terapia gênica e câmara hiperbárica – esta última para otimizar a resposta do tumor à radioterapia.

Seguimento e prevenção

Medidas de suporte variam de acordo com o comprometimento sofrido pelo paciente (por exemplo cadeira de rodas, bengala ou andador). Mudanças no estado mental também devem ser monitoradas. Reabilitação pode envolver avaliação do controle do movimento, da fala, da visão e do raciocínio, além do estado emocional, comportamental e cognitivo do paciente. Fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia também podem ser necessárias para melhorar ou corrigir funções perdidas.

Quando da recorrência da doença, depende muito do tipo e localização do tumor. Um seguimento deve ser estabelecido para cada paciente a fim de monitorizar recidivas utilizando exames de imagem a cada 3, 6 ou 12 meses, dependendo do tumor.

Autora: Marina Baeta, Estudande de Medicina

Instagram: @mmbaeta

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