Colunistas

Um breve resumo sobre dispepsias | Colunistas

Um breve resumo sobre dispepsias | Colunistas

Compartilhar

As dispepsias são definidas por presença de dor e/ou desconforto no abdômen superior, podendo apresentar uma grande variedade de sintomas e causas diversas. Entre os sintomas mais comuns encontram-se as sensações de distensão abdominal, saciedade precoce, plenitude pós-prandial, epigastralgia em queimação, eructação, náuseas e vômitos, muitas vezes, referidos como “má digestão”.

É importante que se saiba distinguir o termo dispepsia e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), visto que pacientes com queixa de pirose e regurgitação como sintomas predominantes apresentam elevado valor preditivo positivo para DRGE.

Doença do refluxo gastroesofágico

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é uma afecção crônica onde há um fluxo retrógrado de parte do conteúdo gastroduodenal para o esôfago, acarretando um espectro variável de sinais e sintomas. Esses sintomas podem ou não estar associados a lesões teciduais. A pirose (sensação de queimação retroesternal – referida de 30 minutos a 2 horas após refeição), de natureza intermitente, é a manifestação clínica mais comum da DRGE.

Raramente causa óbito, mas costuma comprometer a qualidade de vida de seus portadores, além da morbidade associada, pelo desenvolvimento de úlceras, hemorragia, esôfago de Barrett e até mesmo adenocarcinoma.

O desenvolvimento da doença se dá pela redução dos fatores de defesa (barreira anti-refluxo), constituída por componentes anatômicos e fisiológicos que atuam em conjunto para manter a integridade da mucosa.

Dispepsias

Têm prevalência elevada na população geral, são responsáveis por cerca de 7% das consultas com clínico geral e mais de 50% nos consultórios de gastroenterologistas.

A dispepsia pode ser dividia em dois grandes grupos: orgânica, quando existe um marcador biológico relacionado às queixas do paciente e funcional, quando um marcador biológico não é encontrado.

Fisiopatologia

As principais hipóteses fisiopatológicas da dispepsia funcional são:

■ Alterações da motilidade gastroduodenal, com alteração da acomodação gástrica (alteração na capacidade de acomodar o alimento na parte proximal do estômago – pode ser medicamentosa) e retardo do esvaziamento gástrico (relacionado com sintomas de plenitude pós-prandial);

■ Hipersensibilidade visceral (sensibilidade à distensão gástrica). As hipóteses estão relacionadas à sensibilização nos mecanorreceptores intragástricos por inflamação, injúria ou defeitos intrínsecos.

■ Fatores psicossociais (alta incidência associada a depressão, síndrome do pânico, ansiedade generalizada e doenças somatoformes). Estudos mostraram que abusos sexuais, emocionais ou verbais, tanto em adultos quanto em crianças, estão significativamente associados com dispepsia (alterações irreversíveis no sistema de resposta ao estresse – disfunções autonômicas).

Diagnóstico

Na avaliação dos pacientes é necessário que se conheça a história clínica cuidadosamente, para diferenciar dispepsia funcional ou orgânica (análise pelos critérios de Roma). Logo, o médico deve decidir se, e quais estudos diagnósticos são necessários, especialmente a endoscopia digestiva alta.

A história familiar e social do paciente pode auxiliar a descobrir como o estresse contribui para piora dos sintomas ou assuntos atuais sobre sintomas agudos ou crônicos. Deve-se tranquilizar o paciente sobre os sintomas e sugerir modificações dietéticas e no estilo de vida.

Dispepsia funcional

Presença de dor e/ou desconforto, persistente ou recorrente na região do epigástrio. Na ausência de anormalidades estruturais ou irregularidades metabólicas e bioquímicas que justificam a sintomatologia. A frequência é maior entre as mulheres

Fisiopatologia não muito bem elucidada, a lentificação do esvaziamento gástrico e os distúrbios na acomodação gástrica estão relacionados principalmente com a saciedade precoce e plenitude pós-prandial. É possivelmente, associada a hipersensibilidade visceral, disfunção motora, fatores psicossociais (estresse, ansiedade, depressão) e/ou infecção por H pylori.

Segundo o critério de Roma IV, a dispepsia funcional engloba duas síndromes clínicas diferentes: a síndrome da dor epigástrica e a síndrome do desconforto pós-prandial.

Doença ulcerosa péptica

A prevalência da doença ulcerosa é maior entre os homens maiores de 40 anos com quadro de dor noturna que melhora com ingestão de alimentos ou antiácidos, fumantes, pacientes com história pessoal prévia ou familiar de úlcera com infecção por Helicobacter pylori e uso de anti-inflamatórios previamente.

É definida como a lesão que ultrapassa a camada muscular no revestimento do estômago, podendo acometer também o duodeno e o final do esôfago. Há perda de tecido por exposição à secreção gástrica (HCl + pepsina).

Alguns alimentos têm sido implicados como responsáveis por quadros dispépticos. São frequentes as queixas de pacientes associadas a um tipo de alimento em particular como café; alimentos muito condimentados, em particular a pimenta; abuso do álcool e alimentos ricos em gorduras; bem como frutas cítricas.

Úlcera gástrica: Geralmente confinada a mucosa/submucosa em quadros agudos e invade a musculatura de parede em casos crônicos. Como complicações pode haver perfuração (dor intensa, peritonite química e pneumoperitônio) ou hemorragia (dores mais frequentes, melena e enterorragia).

Úlcera duodenal: Tipo mais comum de úlcera péptica, geralmente associada a infecção por H. pylori, gera epigastralgia (2 – 3h após refeição e comumente à noite, irradia para o dorso, alivia com a ingestão alimentar (diferente da úlcera gástrica).

Gastrite

As gastrites são caracterizadas por reações inflamatórias na parede do estômago e quando essa barreira mucosa é danificada permite que o suco gástrico cause erosões ou possibilite infecções no revestimento de proteção do estômago. O conceito de gastrite deve ser utilizado nos casos em que coexiste lesão celular, processo regenerativo e infiltração inflamatória, acrescidos da presença de folículos linfoides na mucosa gástrica, como também neutrófilos, plasmócitos, linfócitos e eosinófilos, de evolução aguda ou crônica. Pode ser aguda ou crônica, sendo que a falta de tratamento adequado cronifica os casos.

Neoplasias gástricas e esofágicas

A prevalência de neoplasia em pacientes dispépticos é de 2%8, sendo que 98% desses têm mais de 45 anos. O risco aumenta nos pacientes com história prévia de cirurgia gástrica, história familiar de câncer gástrico e em pacientes com infecção por H. pylori. Os sintomas de alarme que indicam maiores riscos de neoplasias são vômitos frequentes, sangramentos gastrintestinais, anemia ferropriva, disfagia, emagrecimento não explicável e massas abdominais palpáveis.

Doenças gastrintestinais não pépticas

A presença de parasitoses, muitas vezes, é negligenciada como causa de sintomas dispépticos; sendo giárdia e estrongiloide os agentes mais comumente associados a esses sintomas.

Exames

O exame físico cuidadoso é obrigatório para detectar evidências de doenças orgânicas. 

A endoscopia digestiva alta permite visualização direta de úlceras pépticas, esofagite e neoplasias com alta acurácia diagnóstica; sendo este o exame mais comumente empregado na avaliação diagnóstica da dispepsia.

O exame radiológico contrastado do esôfago tem importância apenas em casos de esofagite complicada, sendo útil na avaliação morfológica de estenoses, úlceras e retrações, além de hérnia hiatal.

A manometria esofágica tem como finalidade avaliar a motilidade esofágica. Atualmente, as indicações desse exame na DRGE são limitadas.

A pHmetria de 24 horas é o melhor método disponível para caracterizar o refluxo gastroesofágico e permitir a correlação dos sintomas com os episódios de refluxo.

Medicação

A prescrição ou não de medicamentos deve ser revista. Medicações como aspirina e anti-inflamatórios não hormonais, devem ser suspensas quando possível. Caso não seja possível, deve-se testar terapia empírica com inibidor da bomba de prótons ou um antagonista do receptor H2.

Vários medicamentos são empregados no tratamento dos pacientes dispépticos funcionais, destacando-se antiácidos, drogas anti-secretoras, procinéticos, antibióticos para erradicação do H. pylori, ansiolíticos e antidepressivos.

Sinais de alerta

São sinais de alerta (red-flags) a perda de peso sem dieta, disfagia, febre, vômitos frequentes, sangramento, anemia, icterícia, massa palpável, história familiar de câncer no trato gastrointestinal e mudança nos padrões dos sintomas.

Conclusão

As dispepsias têm uma significância alta, pois além da alta prevalência em consultas, também interfere na qualidade de vida de muitos pacientes. Também não devem ser desconsiderados os fatores emocionais que podem agravar o caso.

As ferramentas de diagnóstico estão bem relacionadas ao histórico do paciente e histórico familiar, devendo pautar o prosseguimento do atendimento em relação aos exames a serem pedidos e o tratamento medicamentoso.

É necessário que o médico esteja atento aos sinais de alerta, que estão relacionados à incidência de câncer no trato gastrointestinal, a fim de realizar o diagnóstico precoce e aumentar as taxas de sobrevida do paciente.

Autora: Gabrielle Schneid

Instagram: @g.schneid

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências:

KUNEN, Lúcia Cláudia Barcellos; RODRIGUEZ, Tomás Navarro. Avaliação da motilidade esofágica em pacientes idosos e comparação com indivíduos não idosos, ambos sintomáticos nas doenças esofágicas. 2016.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: .

GUEDES, Fernando Soares; CASTILHO, Euclides Ayres de; CATAPANI, Wilson Roberto. Encontro terapêutico: avaliação de uma abordagem integral em pacientes com dispepsia funcional, ensaio clínico controlado aleatorizado. 2014.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Disponível em: .

NAVARRO-RODRIGUEZ, Tomás; MORAES FILHO, Joaquim Prado Pinto de; SILVA, Fernando Marcuz. Dispepsia funcional. In: Tratado de clínica médica/ vol. 1[S.l: s.n.], 2009.

http://www.sbmdn.org.br/dispepsia/

https://opas.org.br/dispepsia-indigestao-o-que-e-sintomas-remedios-e-tipos/

https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-gastrointestinais/sintomas-dos-dist%C3%BArbios-gastrointestinais/dispepsia

https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/03/881599/dispepsia-funcional-diagnostico-e-tratamento.pdf

Compartilhe com seus amigos: