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Uso Medicinal do Canabidiol | Colunistas

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João Pedro Franco

8 min há 308 dias

1. Introdução

O canabidiol (CBD) é um componente não psicotrópico derivado do Cannabis sativa L., que possui alto potencial terapêutico e vem fornecendo diversos benefícios e alívio de sintomas aos pacientes ao longo dos séculos.

Os primeiros registros do uso do cannabis para fins medicinais apontam para o Império Chinês nos anos 3.000 a.C., que o utilizava para o tratamento de dores reumáticas, tuberculose, malária, e outras doenças. Dessa maneira, a substância ganhou notoriedade e teve seu uso medicinal expandido pela Ásia, Europa, Oriente Médio e África, sendo prescrito por médicos como intervenção para diversas enfermidades, como inflamações, dores articulares, neuropáticas, insônia, ansiedade, epilepsia e até desordens mentais.

Houve um ressurgimento do interesse nos compostos e diversos estudos contemporâneos vêm apresentando resultados clínicos relevantes quanto ao uso do canabidiol (CBD) na medicina, especialmente no tratamento de patologias como epilepsia, doença de Parkinson, autismo, doenças inflamatórias e esclerose múltipla.

No entanto, apesar das evidências científicas de que o composto possui grande potencial terapêutico, em diversos países, incluindo o Brasil, o uso clínico dos medicamentos que atuam no sistema canabinoide ainda se mantém controverso, e os pacientes têm dificuldades para acessar os tratamentos com a substância.

2. Mecanismo de ação

O cannabis possui diversas substâncias na sua composição, entre eles os canabinoides, que atuam no nosso cérebro.

Entre os canabinoides exógenos extraídos da cannabis, destacam-se o canabidiol (CBD), que não possui efeitos psicoativos – não atuam sobre a atividade psíquica ou comportamental – e o Delta-9-Tetrahidrocanabinol (Δ⁹-THC), que possui efeitos psicoativos, ambos atuando em receptores do nosso organismo. Já os canabinoides endógenos são produzidos no neurônio a partir do ácido araquidônico, destacando-se o 2-araquidonoil glicerol (2-AG) e N-araquidonoil etanolamina (AEA ou anandamida).

Além disso, existem os canabinoides sintéticos, que são produzidos em laboratório e simulam seletivamente os efeitos dos canabinoides naturais. A atuação destesé proveniente da interação com dois tipos de receptores endocanabinoides acoplados à proteína G, denominados CB1 (receptor canabinoide tipo 1) e CB2(receptor canabinoide tipo 2).

Os receptores CB1 são distribuídos amplamente pelo sistema nervoso central e por diversos tecidos do corpo, endotélio vascular, pulmões, fígado e tecido adiposo e atuam modulando a liberação de diversos neurotransmissores, como o GABA, dopamina, glutamato, serotonina, noradrenalina, entre outros. Já os receptores CB2 estão presentes principalmente no sistema imunológico, hematopoiético e em algumas áreas do sistema nervoso central, modulando a atividade inflamatória.

2.1. THC

Esse composto possui efeitos psicóticos, que estão relacionados com o aumento do efluxo pré-sináptico de dopamina no córtex. No entanto, embora tenha efeitos também terapêuticos – como melhora da dor, náuseas e apetite –, possui muitos efeitos adversos que tornam o seu uso limitado, como euforia, destruição de células imunitárias, alterações perceptivas, sonolência, alucinações, entre outros.

2.2. Canabidiol (CBD)

Apesar de o mecanismo de ação do CBD não ser completamente esclarecido, especula-se que ele possui uma baixa afinidade pelos receptores CB1 e uma maior afinidade por uma série de outros receptores, como CB2, receptores serotonérgicos tipo 5-HT1A, vaniloides do tipo 1 (TRPV1) e canais iônicos. Dessa forma, a partir dessas interações, ocorre o desencadeamento de cascatas bioquímicas que modulam a produção de neurotransmissores e reduz a excitabilidade e transmissão neuronal, provocando os efeitos ansiolíticos, anti-inflamatórios e analgésicos do composto, e fornecendo alívio para um amplo espetro de sintomas, como dor, ansiedade, inflamação e múltiplas doenças.

3. Efeitos terapêuticos

O uso medicinal dos canabinoides proporciona diversos benefícios e alívio de sintomas aos pacientes. Podem ser utilizados para a melhora de sintomas associados a diversas doenças e seus tratamentos, como câncer e quimioterapia, respectivamente; regulação do sistema imune e para redução da atividade inflamatória. Destaca-se também a redução de tiques e movimentos involuntários e os seus efeitos psíquicos, visto que os compostos geram estabilização de atividade neuropsíquica e de crises comportamentais, regulação do sono e apetite e relaxamento.

4. Vias de administração

A forma e dose mais adequada para administração do medicamento varia de acordo com o distúrbio tratado, intensidade dos sintomas e conforme a tolerância de cada paciente, sendo indicado iniciar o tratamento com doses baixas e ir aumentando até atingir os efeitos terapêuticos esperados.

As vias mais comuns são a ingestão, via oral, e o fumo/vaporização, por aspiração. A via oral é mais utilizada para tratamentos crônicos, sendo a preferível por pacientes que utilizam os medicamentos de maneira contínua e em doses mais elevadas, geralmente para tratar doenças degenerativas e inflamatórias. A via aspirada proporciona um efeito imediato, mais rápido do que a via oral, sendo mais utilizado em casos de dores e sintomas psíquicos. Além disso, o uso conjunto das duas vias é indicado quando ambos aspectos estão presentes, como nos casos de dor neuropática.

5. Patologias

O uso clínico dos medicamentos que atuam no sistema canabinoide pode ser usado no tratamento de diversas doenças, como: epilepsia, autismo, fibromialgia, esclerose múltipla, doença de Parkinson, doença de Alzheimer, dores crônicas, asma, doenças inflamatórias e autoimunes, distúrbios psíquicos, glaucoma, diabetes, hipertensão, dislipidemia, obesidade, câncer e doenças neurodegenerativas.

No entanto, apesar das evidências médico-científicas, o uso de remédios à base de cannabis ainda gera controvérsias envolvendo diversos setores, como instituições governamentais, indústria farmacêutica e a população civil, dando origem a campanhas, debates e filmes – como o documentário “Ilegal”, dirigido por Raphael Erichsen e Tarso Araújo, que expõe a luta dos pais em busca do tratamento para a epilepsia de seus filhos – defendendo a sua regulamentação e o acesso dos pacientes aos medicamentos de forma legalizada.

5.1. Epilepsia

A epilepsia é uma doença neurológica frequente caracterizada por um estado de hiperatividade dos neurônios e circuitos cerebrais, gerando descargas elétricas anormais. Essas descargas neuronais excessivas podem se originar em apenas um hemisfério cerebral, caracterizando uma crise focal, ou nos dois hemisférios cerebrais, configurando uma crise generalizada. Dessa forma, dependendo da área afetada, o paciente pode apresentar de sintomas leves, como manifestações motoras discretas, até mais graves, como abalos mioclônicos e perda de consciência.

O CBD vai atuar se ligando aos receptores canabinoides e serotonérgicos, aumentando a atividade inibitória neuronal e regulando a transmissão sináptica. Dessa forma, a inibição vai gerar uma menor frequência de descargas e, como resultado, é capaz de melhorar os sintomas dos pacientes e reduzir a atividade epileptiforme.

É importante ressaltar que o composto possui efeitos adversos, como a sonolência, fadiga, diarreia, alterações no apetite, alterações comportamentais e também interfere no metabolismo de outros fármacos, pois é um inibidor potente das enzimas CYP3A e CYP2C, responsáveis ​​pelo metabolismo do clobazam e outros anticonvulsivantes, como o fenobarbital e valproato.

As propriedades anticonvulsivantes do CBD são conhecidas desde o século XIX e diversas pesquisas apontam o seu efeito benéfico contra crises convulsivas, apresentando melhora na grande maioria dos pacientes. No entanto ainda não há uma comprovação quanto a sua eficácia no tratamento das epilepsias, e há necessidade de mais estudos sobre esse tema para uma avaliação adequada quanto ao mecanismo de ação e potenciais desfechos a curto e longo prazo.

6. Conclusão

Em resumo, as evidências médico-científicas indicam que o CBD proporciona bons resultados clínicos no tratamento de diversas patologias, tornando-se cada vez mais o composto alvo de estudos experimentais.

É importante ressaltar que uso clínico dos medicamentos pode causar efeitos adversos, como a sonolência e interação medicamentosa, sendo indicado o monitoramento sérico e testes de função hepática nos pacientes.

De qualquer modo, o CBD aparenta ser uma terapia promissora que pode refletir na melhora da qualidade de vida dos pacientes, sendo importante combater a desinformação populacional quanto às propriedades terapêuticas do canabidiol.

Autor: João Pedro Franco

Instagram: @jpfranco09

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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