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Uso Medicinal do Canabidiol | Colunistas

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O canabidiol (CBD) é um componente
não psicotrópico derivado do Cannabis sativa L., que possui alto
potencial terapêutico e vem fornecendo diversos benefícios e alívio de sintomas
aos pacientes ao longo dos séculos.

Os primeiros registros do uso do
cannabis para fins medicinais apontam para o Império Chinês nos anos 3.000
a.C., que o utilizava para o tratamento de dores reumáticas, tuberculose,
malária, e outras doenças. Dessa maneira, a substância ganhou notoriedade e
teve seu uso medicinal expandido pela Ásia, Europa, Oriente Médio e África,
sendo prescrito por médicos como intervenção para diversas enfermidades, como
inflamações, dores articulares, neuropáticas, insônia, ansiedade, epilepsia e
até desordens mentais.

Houve um ressurgimento do interesse
nos compostos e diversos estudos contemporâneos vêm apresentando resultados
clínicos relevantes quanto ao uso do canabidiol (CBD) na medicina,
especialmente no tratamento de patologias como epilepsia, doença de Parkinson, autismo,
doenças inflamatórias e esclerose múltipla.

No entanto, apesar das evidências
científicas de que o composto possui grande potencial terapêutico, em diversos
países, incluindo o Brasil, o uso clínico dos medicamentos que atuam no sistema
canabinoide ainda se mantém controverso, e os pacientes têm dificuldades para
acessar os tratamentos com a substância.

2.
Mecanismo de ação

O cannabis possui diversas
substâncias na sua composição, entre eles os canabinoides, que atuam no nosso
cérebro.

Entre os canabinoides exógenos
extraídos da cannabis, destacam-se o canabidiol (CBD), que não possui efeitos
psicoativos – não atuam sobre a atividade psíquica ou comportamental – e o
Delta-9-Tetrahidrocanabinol (Δ⁹-THC), que possui efeitos psicoativos, ambos
atuando em receptores do nosso organismo. Já os canabinoides endógenos são
produzidos no neurônio a partir do ácido araquidônico, destacando-se o
2-araquidonoil glicerol (2-AG) e N-araquidonoil etanolamina (AEA ou anandamida).

Além disso, existem os canabinoides
sintéticos, que são produzidos em laboratório e simulam seletivamente os
efeitos dos canabinoides naturais. A atuação destesé proveniente da
interação com dois tipos de receptores endocanabinoides acoplados à proteína G,
denominados CB1 (receptor canabinoide tipo 1) e CB2(receptor canabinoide
tipo 2).

Os receptores CB1 são distribuídos
amplamente pelo sistema nervoso central e por diversos tecidos do corpo,
endotélio vascular, pulmões, fígado e tecido adiposo e atuam modulando a
liberação de diversos neurotransmissores, como o GABA, dopamina, glutamato,
serotonina, noradrenalina, entre outros. Já os receptores CB2 estão presentes
principalmente no sistema imunológico, hematopoiético e em algumas áreas do
sistema nervoso central, modulando a atividade inflamatória.

2.1. THC

Esse composto possui efeitos
psicóticos, que estão relacionados com o aumento do efluxo pré-sináptico de
dopamina no córtex. No entanto, embora tenha efeitos também terapêuticos – como
melhora da dor, náuseas e apetite –, possui muitos efeitos adversos que tornam
o seu uso limitado, como euforia, destruição de células imunitárias, alterações
perceptivas, sonolência, alucinações, entre outros.

2.2. Canabidiol (CBD)

Apesar de o mecanismo de ação do CBD
não ser completamente esclarecido, especula-se que ele possui uma baixa
afinidade pelos receptores CB1 e uma maior afinidade por uma série de outros
receptores, como CB2, receptores serotonérgicos tipo 5-HT1A, vaniloides do tipo
1 (TRPV1) e canais iônicos. Dessa forma, a partir dessas interações, ocorre o
desencadeamento de cascatas bioquímicas que modulam a produção de neurotransmissores
e reduz a excitabilidade e transmissão neuronal, provocando os efeitos
ansiolíticos, anti-inflamatórios e analgésicos do composto, e fornecendo alívio
para um amplo espetro de sintomas, como dor, ansiedade, inflamação e múltiplas
doenças.

3. Efeitos
terapêuticos

O uso medicinal dos canabinoides proporciona
diversos benefícios e alívio de sintomas aos pacientes. Podem ser utilizados
para a melhora de sintomas associados a diversas doenças e seus tratamentos,
como câncer e quimioterapia, respectivamente; regulação do sistema imune e para
redução da atividade inflamatória. Destaca-se também a redução de tiques e
movimentos involuntários e os seus efeitos psíquicos, visto que os compostos
geram estabilização de atividade neuropsíquica e de crises comportamentais,
regulação do sono e apetite e relaxamento.

4. Vias de
administração

A forma e dose mais adequada para
administração do medicamento varia de acordo com o distúrbio tratado,
intensidade dos sintomas e conforme a tolerância de cada paciente, sendo
indicado iniciar o tratamento com doses baixas e ir aumentando até atingir os
efeitos terapêuticos esperados.

As vias mais comuns são a ingestão, via
oral, e o fumo/vaporização, por aspiração. A via oral é mais utilizada para
tratamentos crônicos, sendo a preferível por pacientes que utilizam os
medicamentos de maneira contínua e em doses mais elevadas, geralmente para
tratar doenças degenerativas e inflamatórias. A via aspirada proporciona um
efeito imediato, mais rápido do que a via oral, sendo mais utilizado em casos
de dores e sintomas psíquicos. Além disso, o uso conjunto das duas vias é
indicado quando ambos aspectos estão presentes, como nos casos de dor
neuropática.

5.
Patologias

O uso clínico dos medicamentos que
atuam no sistema canabinoide pode ser usado no tratamento de diversas doenças,
como: epilepsia, autismo, fibromialgia, esclerose múltipla, doença de
Parkinson, doença de Alzheimer, dores crônicas, asma, doenças inflamatórias e
autoimunes, distúrbios psíquicos, glaucoma, diabetes, hipertensão,
dislipidemia, obesidade, câncer e doenças neurodegenerativas.

No entanto, apesar das evidências
médico-científicas, o uso de remédios à base de cannabis ainda gera
controvérsias envolvendo diversos setores, como instituições governamentais, indústria
farmacêutica e a população civil, dando origem a campanhas, debates e filmes – como
o documentário “Ilegal”, dirigido por Raphael Erichsen e Tarso
Araújo, que expõe a luta dos pais em busca do tratamento para a epilepsia de seus
filhos – defendendo a sua regulamentação e o acesso dos pacientes aos
medicamentos de forma legalizada.

5.1. Epilepsia

A epilepsia é uma doença neurológica
frequente caracterizada por um estado de hiperatividade dos neurônios e
circuitos cerebrais, gerando descargas elétricas anormais. Essas descargas
neuronais excessivas podem se originar em apenas um hemisfério cerebral,
caracterizando uma crise focal, ou nos dois hemisférios cerebrais, configurando
uma crise generalizada. Dessa forma, dependendo da área afetada, o paciente
pode apresentar de sintomas leves, como manifestações motoras discretas, até
mais graves, como abalos mioclônicos e perda de consciência.

O CBD vai atuar se ligando aos
receptores canabinoides e serotonérgicos, aumentando a atividade inibitória
neuronal e regulando a transmissão sináptica. Dessa forma, a inibição vai gerar
uma menor frequência de descargas e, como resultado, é capaz de melhorar os
sintomas dos pacientes e reduzir a atividade epileptiforme.

É importante ressaltar que o composto
possui efeitos adversos, como a sonolência, fadiga, diarreia, alterações no
apetite, alterações comportamentais e também interfere no metabolismo de outros
fármacos, pois é um inibidor potente das enzimas CYP3A e CYP2C, responsáveis
​​pelo metabolismo do clobazam e outros anticonvulsivantes, como o fenobarbital
e valproato.

As propriedades anticonvulsivantes do
CBD são conhecidas desde o século XIX e diversas pesquisas apontam o seu efeito benéfico contra
crises convulsivas, apresentando melhora na grande maioria dos pacientes. No
entanto ainda não há uma comprovação quanto a sua eficácia no tratamento das
epilepsias, e há necessidade de mais estudos sobre esse tema para uma avaliação
adequada quanto ao mecanismo de ação e potenciais desfechos a curto e longo
prazo.

6.
Conclusão

Em resumo, as evidências médico-científicas indicam
que o CBD proporciona bons resultados clínicos no tratamento de diversas
patologias, tornando-se cada vez mais o composto alvo de estudos experimentais.

É importante ressaltar que uso clínico dos medicamentos
pode causar efeitos adversos, como a sonolência e interação medicamentosa,
sendo indicado o monitoramento sérico e testes de função hepática nos
pacientes.

De qualquer modo, o CBD aparenta ser uma terapia
promissora que pode refletir na melhora da qualidade de vida dos pacientes,
sendo importante combater a desinformação populacional quanto às propriedades
terapêuticas do canabidiol.

Autor: João Pedro
Franco

Instagram: @jpfranco09


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


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