Ciclos da Medicina

Utilização da Eletroconvulsoterapia nos dias atuais | Colunistas

Utilização da Eletroconvulsoterapia nos dias atuais | Colunistas

Compartilhar
Imagem de perfil de Pietra Molin Lorenzzoni

Introdução:

A eletroconvulsoterapia (ECT) é considerada o tratamento mais eficaz da psiquiatria moderna, ao mesmo tempo, uma das intervenções mais dramatizadas da mesma. Constitui um tratamento seguro e eficaz para diversos transtornos do humor, como: transtornos depressivos maiores, transtorno afetivo bipolar, esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo, e transtorno esquizofreniforme, catatonia. Além de atuar como adjuvante em doenças neuropsiquiátricas, como a doença de Parkinson. 

O que é a eletroconvulsoterapia?

A ECT consiste na indução de convulsões generalizadas, com duração de 20 a 150 segundos, gera-se uma passagem de corrente elétrica pelo cérebro que desencadeia uma despolarização generalizada das células cerebrais. A técnica pode ser bifrontal, bilateral e unilateral às quais apresentam diferenças nos efeitos colaterais e eficácia.

ECT: do início à atualidade:

Em 1934 um neuropsiquiatra húngaro, Ladislas Joseph von Meduna, observou que pacientes psicóticos epilépticos submetidos a crises convulsivas tinham melhora clínica. Em seu primeiro relato, o paciente teve alta do hospital psiquiátrico após convulsões. Houveram diversos relatos de casos do mesmo neuropsiquiatra de 1935-37, que resultaram em um encorajamento mundial de adoção do tratamento. O chamado “eletrochoque” na época era feito com substâncias como insulina, cânfora, induzindo o paciente ao estado de choque, dando origem ao termo “terapia de eletrochoque”. Em 1938, dois neuropsiquiatras italianos, Lucio Bini e Ugo Cerletti, utilizaram pela primeira vez a corrente elétrica para indução de convulsões.

Inúmeros hospitais psiquiátricos fizeram uso da eletroconvulsoterapia de modo indiscriminado e para os mais diversos transtornos mentais, mesmo sem evidência científica. Isso fez com que a terapia fosse associada à época manicomial.

A Epidemiologia do uso da ECT atualmente:

Os guidelines preconizam que a ECT seja utilizada em tratamentos refratários, entretanto não há números que especifiquem um limite de tentativas medicamentosas e falhas psicoterapêuticas. Sendo assim, na grande maioria das vezes, o tratamento é adiado, prolongando o sofrimento do paciente com depressão e outros transtornos de humor resistentes.

Um estudo analítico de 2017 confirmou que apenas 1,5% dos pacientes psiquiátricos com severas desordens afetivas recebeu o tratamento com ECT enquanto estavam hospitalizados (5).

Estudos de grande base de dados e segurança, mostraram que menos de 1% dos pacientes com depressão tiveram acesso à ECT (5), com inúmeras justificativas, entre elas: falta de acesso, estigma e efeitos colaterais.

Por que utilizar a ECT?

Os efeitos adversos à psicofármacos podem ser inúmeros, dependem da resposta individual do paciente, além disso quando há o uso de múltiplas drogas ocorre um significativo aumento do número de efeitos colaterais e interações medicamentosas. Considerando que a maioria das doenças psiquiátricas são crônicas (exigindo um tempo prolongado de tratamento), além do início de efeito terapêutico relativamente demorado, há maior risco de o paciente aderir menos ao tratamento, ou descontinuá-lo. Assim, a ECT se dá como uma ótima alternativa. Por fim, muitos pacientes que fazem o tratamento corretamente não se beneficiam dos psicofármacos, e o índice de refratariedade pode chegar a 60%, apontando uma ótima alternativa para pacientes resistentes e refratários.

Os efeitos adversos da eletroconvulsoterapia

A ECT pode causar amnésia retrógrada e anterógrada, ela pode persistir por até 6 meses, costumando persistir por uma semana após o tratamento. Quanto mais eficaz a forma de uso da ECT (ou seja, dose mais alta e ECT bilateral) há mais efeitos cognitivos (3).

Perda de memória e confusão mental são as maiores queixas entre os pacientes que realizam o procedimento.

O perfil de efeitos adversos da ECT inclui efeitos cognitivos e efeitos adversos comuns, mas geralmente menores, nos dias de tratamento de dor de cabeça, náusea e dores musculares. Os efeitos adversos da nortriptilina e do lítio são bem conhecidos e incluem efeitos anticolinérgicos e específicos do lítio. Os perfis de efeitos adversos dos 2 tratamentos são marcadamente diferentes, e é possível que os pacientes prefiram um tratamento a outro com base em avaliações individuais de tolerabilidade. (1)

Quais são os resultados esperados com o uso da ECT?

Estudos indicam que a ECT pode ser significativamente mais efetiva que a farmacoterapia, onde 50 a 60% dos pacientes obtiveram rápida remissão de depressão depois do uso da ECT, comparado com 10 a 40% em uso de farmacoterapia e psicoterapia(5). A ECT apresenta melhora clínica imediata  e está associada à um declínio no número de hospitalizações psiquiátricas (5), além de reduzir os riscos de suicídio por todas as causas de mortalidade (5).

A ECT otimizada comumente produz taxas de remissão superiores a 80% em pacientes gravemente deprimidos, mas a recaída é frequente quando o tratamento termina. 

Valores preditivos para resultados superiores na eletroconvulsoterapia:

  • Psicose: segundo estudo realizado pelo CORE (2) taxa de remissão para pacientes psicóticos foi de 95% e para não psicóticos de 83%.
  • Risco de suicídio: com base bem apoiada de indicação para eletroconvulsoterapia, o estudo CORE (2) demonstrou que a pontuação segundo HAMD24 caiu após uma sessão de eletroconsultoreapia para zero em 15,3% dos pacientes, após trêssessões de ECT em 38,2% dos pacientes, após seis sessões em 61,1% e após nove sessões de ECT em 76,3% dos pacientes.
  • Transtorno de humor bipolar: possui boa resposta de remissão de episódios de mania e depressão.
  • Idade: pacientes idosos são favorecidos por bons resultados, sendo idade de desfecho da doença um preditor de resposta à ECT. Sendo considerado um bom tratamento quando considera-se a baixa resposta e tolerância aos medicamentos conhecidos.

Estudos sobre a eficácia da eletroconvulsoterapia na depressão grave.

Estudos patrocinados pelo Departamento de Saúde do Reino Unido (UK ECT Review Group, 2013) baseados em ensaios clínicos randomizados comprovou que a utilização da ECT é mais eficaz que o tratamento medicamentoso (5).

Segundo resultados do estudo de Saccoman et al. há indicação de que é um tratamento eficaz em depressões severas, foi demonstrado que 88% dos pacientes responderam imediatamente depois de uma completa sessão padrão de séries bifrontais de ECT.

APA (2010) – memória na ect

Conclusão:

A eletroconvulsoterapia se mostra como tratamento favorável para pacientes em estados graves, com bom valor preditivo para doenças refratárias, sendo usada como tratamento de ataque, por sua rápida resposta e remissão de sintomas. O tratamento deve ser mantido com tratamento de manutenção, sendo farmacológico, psicoterapêutico e/ou com eletroconvulsoterapia frequente. Não há recomendação fixa de número de sessões, nem que estas sejam predeterminadas (2), sendo necessária análise individualizada. 

Sabe-se que o tema da eletroconvulsoterapia é extremamente estigmatizado, circundado por muito preconceito devido ao passado e, sensacionalismo atual empregado nele. Sendo considerado um tratamento seguro e eficaz, deve ser empregado quando há resposta a insulto ao cérebro de natureza afetiva ou de curso de pensamento, uma vez que estes são capazes de gerar maiores problemas cognitivos e de qualidade de vida.

Assim, nós, como profissionais ou acadêmicos da arte da medicina, devemos à medicina; à ciência; à evidência; à estudos; e ao embasamento. Assim, quando se há um potencial tratamento efetivo e há falha terapêutica na psicofarmacologia ou terapia, deve-se sim, estudar a possibilidade do uso de ECT. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

REFERÊNCIAS:

1 – Charles H. Kellner. Consortium For Research In Electroconvulsive Therapy (CORE). Continuation Electroconvulsive Therapy vs Pharmacotherapy for Relapse Prevention in Major Depression: a multisite study from the consortium for research in electroconvulsive therapy (core). Jama (Journal Of American Medical Association). United States, p. 1337-1344. 12/2016. Acesso em: 04 abr. 2021.

2 – FINK, M. What was learned: studies by the consortium for research in ect (CORE) 1997-2011. Acta Psychiatrica Scandinavica, [S.L.], v. 129, n. 6, p. 417-426, 12 fev. 2014. Wiley.

Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/acps.12251. Acesso em: 04 abr. 2021.

Livro de mão ECT

3- ALLAN I. F. SCOTT. The Royal College Of Psychiatrists (ed.). The ECT Handbook. 2. ed. London, British Library Cataloguing, 2009. 256 p.

4 – PORTER, Richard J.; BAUNE, Bernhard T.; MORRIS, Grace; HAMILTON, Amber; BASSETT, Darryl; BOYCE, Philip; HOPWOOD, Malcolm J.; MULDER, Roger; PARKER, Gordon; SINGH, Ajeet B.. Cognitive side-effects of electroconvulsive therapy: what are they, how to monitor them and what to tell patients. Bjpsych Open, [S.L.], v. 6, n. 3, p. 1-7, 17 abr. 2020. Royal College of Psychiatrists. http://dx.doi.org/10.1192/bjo.2020.17. Acessado em 04/04/2021

5 – ELIAS, Alby; THOMAS, Naveen; SACKEIM, Harold A.. Electroconvulsive Therapy in Mania: a review of 80 years of clinical experience. American Journal Of Psychiatry, [S.L.], v. 178, n. 3, p. 229-239, 1 mar. 2021. American Psychiatric Association Publishing. http://dx.doi.org/10.1176/appi.ajp.2020.20030238.