Alergologia e imunologia

Vacina de dose única da Johnson & Johnson | Colunistas

Vacina de dose única da Johnson & Johnson | Colunistas

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A vacina não é da Johnson & Johnson

Primeiramente, a vacina não é da Johnson & Johnson (J & J). Na verdade, a vacina é da companhia farmacêutica Janssen.

A Janssen-Cilag Farmacêutica, ou Janssen-Cilag, é uma companhia farmacêutica fundada em 1953 em Beerse, Bélgica, pelo Dr. Paul Janssen. A companhia foi criada não como subsidiária de uma indústria química, mas sim como um instituto de pesquisa farmacológica. 

Em 1961, Janssen Farmacêutica uniu-se ao grupo empresarial Johnson & Johnson. 

Seu foco de atuação se dá na área de: Cardiovascular e Metabolismo, Imunologia, Doenças Infecciosas e Vacinas, Neurociências, Oncologia e Hipertensão Pulmonar.

Atualmente, a Johnson & Johnson se associou à Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado dos EUA (BARDA), na tentativa de acelerar o progresso da vacina, e tem colaboração de pesquisa com o Beth Israel Deaconess Medical Center, parte da Harvard Medical School e o Instituto Rega de Pesquisa Médica (KU Leuven / Universidade de Leuven), na Bélgica.

Anúncio da vacina

A Johnson & Johnson anunciou no dia 29 de janeiro de 2021 que sua vacina contra a covid-19 obteve 72% de eficácia na prevenção da doença nos Estados Unidos e alcançou uma taxa um pouco menor, de 66%, globalmente em testes mais amplos realizados em três continentes (incluindo os países: Argentina, Brasil – nos estados São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Santa Catarina –, Bélgica, França, Alemanha, Holanda, Chile, Colômbia, México, Peru, Filipinas, África do Sul, Ucrânia, Espanha, Reino Unido e Japão) e com variantes múltiplas do vírus.

Para tal resultado, realizou-se um teste com aproximadamente 44 mil voluntários. Observou-se que o nível de proteção contra casos graves e moderados de covid-19 atingiu 66% na América Latina e de 57% na África do Sul, onde uma variante do coronavírus está circulando.

O principal objetivo do estudo da J&J é a prevenção de casos graves e moderados de COVID-19, e a vacina foi 85% eficaz em impedir uma doença grave e a hospitalização nos lugares onde as pesquisas foram realizadas e contra múltiplas variantes 28 dias após a vacinação.

Apesar de possuir uma eficácia geral menor em comparação com as outras vacinas, a vacina da Johnson & Johnson também tem suas vantagens. A vacina tem um menor custo, é uma dose única, protege contra a nova cepa da África do Sul (chamada B.1.135) e contra a variante do Reino Unido e não tem requisitos de armazenagem em temperaturas extremamente frias – pode ser armazenada por pelo menos 3 meses em temperaturas de 2ºC a 8ºC e, em temperaturas de -20ºC, ela fica estável por dois anos. Apesar disso, a Janssen está desenvolvendo pesquisas com o seu imunizante com duas doses, a fim de procurar aumentar a porcentagem de eficácia.

Um dia depois da divulgação do resultado, a empresa disse que disponibilizará sua vacina contra a COVID-19 no Brasil na quantidade e nas condições negociadas com o Ministério da Saúde. 

Tecnologia da vacina

“O programa de vacina COVID-19 está aproveitando as tecnologias comprovadas AdVac® e PER.C6® da Janssen, que fornecem a capacidade de desenvolver rapidamente novas vacinas candidatas e a produção em escala da vacina candidata ideal. A mesma tecnologia foi usada para desenvolver e fabricar a vacina de Ebola da empresa e construir nossas vacinas candidatas contra Zika, RSV e HIV que estão nos estágios de desenvolvimento clínico da Fase 2 ou Fase 3” – Site da Johnson e Johnson.

Tecnologia AdVac

A tecnologia AdVac® tem como base um adenovírus como um vetor do código genético de um antígeno para imitar o patógeno (uma bactéria, vírus ou outro organismo) sem causar a forma grave da doença.

Para tal, o seu produto proteico do gene é excluído e substituído por algum gene, no caso do coronavírus, utiliza-se a proteína spike do SARS-CoV-2.

Assim, o adenovírus resultante atua como uma terapia gênica que entrega o gene da proteína spike às células humanas que, por sua vez, provocam uma resposta imune humoral e celular, que combate a infecção do COVID-19.

Embora as partículas virais finais possam infectar as células, elas não podem se replicar porque falta o gene necessário para a replicação viral e, assim, a tecnologia AdVac é eficaz.

Ela pode ser usada junto com a tecnologia PER.C6 ® para desenvolver vacinas recombinantes contra doenças infecciosas potencialmente fatais.

Tecnologia PER.C6

Antes de entender a tecnologia da PER.C6, é preciso conhecer a tecnologia da HEK.293.

O biólogo molecular Alex van der Eb desenvolveu uma cultura a partir de células do rim de um feto abortado na Holanda no início dos anos 1970 (não se sabe se o tecido veio de um aborto espontâneo ou eletivo).

A tecnologia tem como base a multiplicação da célula que é multiplicada em várias outras células do mesmo tipo em uma suspensão. 

O mesmo criador da HEK-293, desenvolveu outra cultura a partir de células da retina de um feto abortado em 1985, chamada PER.C6.

Então, depois da multiplicação celular, o adenovírus é aplicado nas células de linhagem fetal. Em seguida, filtra-se a população de adenovírus. E, por fim, a proteína spike do SARS-CoV-2 é inserida dentro do vírus. Assim, a vacina é produzida.

Como as vacinas de adenovírus se relacionam com as células fetais abortadas?

Os vírus não conseguem se replicar sem uma célula. Assim, utiliza-se células de linhagens fetais para tal.

O uso de células humanas fetais é mesmo necessário para o desenvolvimento de vacinas?

A resposta é não! O fato é que existem alternativas modernas e de sucesso disponíveis. Mais de 60 tratamentos potenciais estão sob investigação – nenhum dos quais precisa de tecido fetal abortado para combater o coronavírus. 

Entre as alternativas, pode-se citar o uso dos chamados “organoides”, que são construídos a partir de células-tronco adultas e células-tronco pluripotentes induzidas (iPS). Os organoides são estruturas e tecidos semelhantes a órgãos que demonstraram imitar o desenvolvimento normal, e também podem ser usados ​​para estudar o desenvolvimento anormal e as causas de defeitos congênitos. 

Além do organoides, há também: células-tronco adultas, células iPS e tecido pós-natal, camundongos hu-PBMC, sangue do cordão umbilical, medula óssea, tecido timo neonatal, células vegetais, células de insetos, bactérias, leveduras, células de ovário de hamster chinês (CHO) e células murinas. Tais medidas são igualmente eficazes, diz o Dr. Goldstein, professor e diretor do Programa de Células-Tronco da UC San Diego, que testemunhou em nome daqueles que usam tecido fetal, admitiu que “não tem conhecimento de nenhuma [terapia] que tenha sido definitivamente resolvida com o uso de tecido fetal”.

Com todas essas alternativas avançadas disponíveis, por que os pesquisadores ainda querem tecido fetal?

Em suma, os pesquisadores ainda querem o tecido fetal porque ele está enraizado na cultura científica e eles podem receber dólares federais (nos Estados Unidos) para manter a pesquisa em andamento. Outra razão é que o tecido fetal costuma ser mais acessível aos pesquisadores por meio de fornecedores terceirizados em comparação com o tecido alternativo (insetos, plantas, medula óssea, cordão umbilical). Além disso, nem todas as pesquisas têm acesso a bancos de tecidos e nem todas as instituições realizam cirurgias que disponibilizam alternativas de tecidos específicos (como tecido timo neonatal de procedimentos cardíacos).

Sem financiamento federal para pesquisa de tecido fetal humano, a pesquisa para salvar vidas será interrompida. Isso não é antiético e injusto com os pacientes?

Se o financiamento federal dos Estados Unidos para tecido fetal parasse, neste exato momento, não impediria nenhum tratamento que salvasse vidas. Não existe nenhuma forma de pesquisa biomédica absolutamente necessária para qualquer avanço desejado. Se isso fosse verdade, não haveria tantos avanços maravilhosos na ciência biomédica que agora desfrutamos e até mesmo consideramos garantidos. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Referências:

Pau MG, Ophorst C, Koldijk MH, Schouten G, Mehtali M, Uytdehaag F. The human cell line PER.C6 provides a new manufacturing system for the production of influenza vaccines. Vaccine. 2001 Mar 21;19(17-19):2716-21. doi: 10.1016/s0264-410x(00)00508-9. PMID: 11257414.

https://lozierinstitute.org/wp-content/uploads/2020/09/09.17.20-Fetal-Cell-Line-Fact-Sheet.pdf

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Dumont et al., Human cell lines for biopharmaceutical manufacturing: history, status, and future perspectives. 36: 1110,2015 https://ucsdnews.ucsd.edu/pressrelease/researchers_develop_new_tools_to_optimize_cho_cell_lines_for_making_biologi

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https://www.bbc.com/portuguese/geral-53533697

https://www.intechopen.com/books/adenoviruses/adenoviral-vector-based-vaccines-and-gene-therapies-current-status-and-future-prospects

https://www.gmp-creativebiolabs.com/per-c6-cell-lines_74.htm

https://www.jnj.com/johnson-johnson-announces-a-lead-vaccine-candidate-for-covid-19-landmark-new-partnership-with-u-s-department-of-health-human-services-and-commitment-to-supply-one-billion-vaccines-worldwide-for-emergency-pandemic-use

https://www.sciencemag.org/news/2020/06/abortion-opponents-protest-covid-19-vaccines-use-fetal-cells