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Você sabe como o SARS-CoV-2 invade uma célula? | Colunistas

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Vinícius Faustino

5 minhá 19 dias

Olá, caro leitor! Minha intenção nesse texto é discutir, primeiramente, um pouco o contexto da COVID-19, para que depois possamos falar especificamente do processo de invasão celular. Desejo que você tenha uma boa leitura!

Uma breve introdução

O primeiro caso de COVID-19 foi relatado em dezembro de 2019, na província chinesa de Hubei, como uma pneumonia grave de origem desconhecida. Amostras do epitélio respiratório dos doentes foram analisadas e então descobriu-se que se tratava de um novo vírus da família Coronaviridae, denominado mais tarde como Sars-CoV-2. O termo pandemia teve sua aplicação oficial no dia 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No momento em que esse texto está sendo redigido, o número de infectados no mundo é superior a 44,5 milhões e as mortes ultrapassam a marca assustadora de 1,1 milhão de pessoas.

O Sars-CoV-2 é um betacoronavírus de ácido ribonucleico (RNA), sentido positivo e envelopado com 1273 aminoácidos. As extremidades do Sars-CoV-2 possuem projeções em espículas, denominadas proteínas spike, você pode ver com outros nomes, como proteína S ou spike protein, mas se referem à mesma estrutura.

“Ah, Vinícius, eu vi uma denominação com número”. Sim, provavelmente a nomenclatura vista por você é: proteína S1 e proteína S2. Essas estruturas são subdivisões da estrutura maior, que é a proteína S, e possuem papeis importantíssimos no mecanismo de invasão celular. Mais adiante veremos a função dessas subunidades.

A COVID-19, causada pelo Sars-CoV-2, é uma doença infecciosa grave que pode acometer o ser humano em diversos sistemas, com destaque para o desenvolvimento da síndrome respiratória aguda grave (SRAG), pneumonia intersticial bilateral atípica, síndrome da tempestade de citocinas e hipóxia sistêmica. Ademais, é relatado na literatura que o desenvolvimento de formas graves está associado à concomitância de comorbidades na história clínica do paciente. Os sintomas mais comuns são febre alta, tosse seca e cansaço. A transmissão se dá a partir do contato com gotículas de saliva contaminadas, e acredita-se que pacientes assintomáticos são potenciais disseminadores da doença.

Como a célula é invadida

Acredito que agora já podemos abordar o processo de invasão da célula pelo Sars-CoV-2.

Podemos considerar que acometimentos respiratórios são frequentes, devido ao primeiro contato do vírus com o trato respiratório, contudo tem de haver algo nessa estrutura que o SARS-CoV-2 utilize para invadir as células e desencadear a doença, já que, se ele não invade, não há doença.

Estudos descobriram que, a exemplo de outros membros da família Coronaviridae, como o SARS-CoV-1 e o MERS-CoV, protagonistas de outros surtos de infecção no passado, o SARS-CoV-2 possui um domínio de ligação ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) e que essa proteína é usada na invasão celular, apresentando uma afinidade de ligação cerca de 10 a 20 vezes maior que seus antecessores. Logo, podemos deduzir que se os primeiros pacientes tinham sintomas respiratórios e uma pneumonia grave, o trato respiratório tem que apresentar ECA2.

Agora, pensando em como ocorre essa interação, devemos saber que o SARS-CoV-2 tem proteínas de pico, as chamadas proteínas spike ou proteínas S. São essas estruturas que dão aspecto de “coroa” do coronavírus. Essa proteína S é formada por dois domínios, o S1 e o S2. O domínio S1 possui, segundo a literatura científica, o domínio de ligação à ECA2, e o domínio S2 é responsável pela fusão do vírus com a membrana celular do hospedeiro.

Então, podemos descrever o processo de invasão simplificadamente da seguinte forma:

  • O SARS-CoV-2, após alcançar o interior do corpo do ser humano, irá interagir com tecidos que expressam receptores de ECA2 por meio do domínio S1 da proteína S, em uma região denominada domínio de ligação ao receptor;
  • Ao efetuar esse mecanismo, o domínio S2 irá promover a fusão celular;
  • Durante esse processo, há a ativação de proteínas transmembranas, como a serina protease transmembrana II (TMPRSS2), que irá auxiliar no processo de invasão celular;
  • Nesse contexto, considerando o conhecimento que se tem até hoje, para a infecção de uma célula, o tecido alvo do Sars-CoV-2 deve expressar o receptor da ECA2 e TMPRSS2 para que seja promovido todo processo de invasão.

Diante disso, cabe ressaltar que todos os tecidos que apresentem mecanismos de invasão que possam ser usados pelo SARS-CoV-2 podem ser pontos de acesso do vírus ao interior de células humanas. Células alveolares de tipo II são ricas em ECA2, mas já estão sendo relatadas inúmeras manifestações extrapulmonares. Tecidos cardíacos, renais, gastrointestinais, hepáticos, endocrinológicos, neurológicos e oftálmicos vêm sendo relatados pela literatura como potenciais pontos de invasão do SARS-CoV-2.

Depois dessa explicação, gostaria de agradecer a você que me acompanhou até aqui e dizer que, no caso de qualquer intercorrência, entre em contato através da rede social deixada ao final do texto. Aproveito a oportunidade para reforçar algumas recomendações que são de extrema importância: use máscara, higienize as mãos frequentemente, não participe de aglomerações e só saia se realmente houver necessidade. A pandemia não acabou e a ciência ainda não descobriu uma cura. Acredite na ciência! Obrigado.

Autor: Vinícius Faustino, estudante de medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

Instagram: @vinicius_faustino_

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