Medicina da Família e Comunidade

Espiritualidade no consultório: importante ou opcional?

Espiritualidade no consultório: importante ou opcional?

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Imagem de perfil de Claudio Afonso Peixoto

Confira neste artigo reflexões sobre a presença da espiritualidade no consultório médico!

Em seu livro “História Natural da Religião”, David Hume menciona que “A crença em um poder invisível e inteligente tem sido amplamente difundida entre a raça humana, em todos os lugares e em todas as épocas”.

Sabe-se que a espiritualidade é um aspecto inerente das populações humanas e seu surgimento remonta aos primórdios da civilização. Nesse contexto, torna-se clara a importância desse aspecto humano e reflete-se sua dimensão e potencial transformador na vida de todos nós.

Contextualização da espiritualidade no consultório

Contudo, por muito tempo a medicina não levou esse aspecto em conta, deixando de lado a espiritualidade e entendendo como um assunto fora da alçada clínica.

Entretanto, “no dia 17 de outubro de 2009, véspera do dia do médico (escolhido por ser o dia de São Lucas, conhecido como ‘médico de homens e de almas’), ocorreu no X Congresso Brasileiro de Clínica Médica a mesa redonda: ‘Espiritualidade na Prática Clínica”’ (LUCHETTI, 2010) que não só chamou a atenção de diversos generalistas e especialistas que participavam do congresso, mas mostrou para toda a classe médica a importância de abordarmos esse aspecto humano não só nas UTIs (onde a proximidade com a morte torna o tópico mais frequente), mas também nos ambulatórios, consultórios e enfermarias. 

Definições sobre espiritualidade, religião e religiosidade

Tudo bem, já sabemos da importância e do impacto que a espiritualidade e a religiosidade representam para cada pessoa em sua individualidade. Mas o que é espiritualidade? Religiosidade é a mesma coisa? O que é religião no meio disso tudo?

Esses são conceitos fundamentais a se ter em mente quando falamos sobre a espiritualidade, e são:

  • Espiritualidade: Aspecto intrínseco e inerente à transcendência da humanidade, que geralmente é expresso por meio da busca de significado para a vida e o que se passa com cada um em sua individualidade. Esse conceito expressa conexão: conexão com o universo, com o momento presente, com a natureza, consigo mesmo e com o que é significativo ou sagrado para cada um;
  • Religião: Para além de um aspecto mais pessoal, a religião é conceituada como uma organização sistemática de simbolismos, práticas e crenças que organizam a aproximação de um grupo com pensamentos afins do que eles consideram o sagrado;
  • Religiosidade: Considerado a religião particular de cada um, é a forma como cada indivíduo ou grupo em sua singularidade expressa sua religião. Pode ser organizacional (como cultos, grupos de orações e missas) ou não organizacional (espontânea).

Espiritualidade no consultório: coping religioso espiritual

Dentre esses conceitos iniciais, um que reflete ainda mais a forma como a atuação de nós médicos pode influenciar no tratamento e no prognóstico do paciente, é o coping religioso espiritual.

Coping é definido como a maneira como lidamos com os problemas e as adversidades que a vida nos impõe. Quando abordamos o coping religioso-espiritual abordamos a forma como o entremeado religiosidade, religião e espiritualidade influenciam em nosso meio de enfrentar os problemas que a vida nos impõe.

Pode ser positivo quando utilizamos a religião como uma força que nos motiva ao enfrentar esses problemas ou negativo quando entendemos os problemas como castigos ou predestinação divina.

Nesse âmbito por meio de palavras e reflexões podemos auxiliar nosso paciente na forma como ele entende o seu processo de saúde-doença, sua adesão ao tratamento e consequentemente seu prognóstico. Mas como fazer isso tudo? Porque continuar estudando sobre esse tema? Isso descobriremos a seguir.

Por que falar sobre espiritualidade?

Entendendo os conceitos que abrangem a espiritualidade, religiosidade e o conceito de coping – tão importante para a abordagem clínica desse tópico – compreende-se parte do porque falar sobre espiritualidade na nossa prática clínica diária. Mas a resposta para a pergunta título se resume no coping?

Ultimamente, sabemos que a visão médica sobre o paciente está cada vez mais holística e menos fisiopatológica. Aqueles fatores que podem afetar a saúde e o prognóstico do meu paciente são cada vez mais entendidos como multidimensionais (biopsicossociais-espirituais) e menos somente fisiológicos. Assim, a abordagem da espiritualidade complementa essa abordagem holística do paciente.

Como ressalta o livro “Comunicação Clínica: Aperfeiçoando os Encontros em Saúde”: “Sob a perspectiva centrada na pessoa, as crenças e os valores espirituais interferem diretamente na experiência com a doença, trazendo impacto sobre o desfecho clínico de modo positivo ou negativo, conforme a estratégia de coping (enfrentamento) utilizada pela pessoa”.

Assim, para além do coping, a espiritualidade deve ser abordada na prática clínica por se tratar de um aspecto inerente ao indivíduo e que complementa a abordagem integral dos nossos pacientes. 

O que dizem os estudos?

Além do mais, diversos estudos vêm demonstrando que há associação entre práticas religiosas e espirituais com melhores desfechos, seja em qualidade de vida, saúde mental, controle da hipertensão, redução da mortalidade cardiovascular e uma sobrevida maior entre os pacientes em cuidados paliativos. Contudo, ainda não é realizada essa investigação como o esperado na realidade médica brasileira. 

“Em levantamento nacional realizado em 2017, 88,3% dos médicos de família e comunidade (MFCs) brasileiros julgaram que o domínio da E/R teria grande influência sobre a saúde das pessoas e, nesse sentido, 81,2% consideram a abordagem da temática como pertinente para a sua prática clínica. Contudo, apenas 35% se consideram tecnicamente preparados para abordar essa questão.” (DOHMS, 2020)

A falta de conhecimento ou treinamento, o tempo de consulta como uma preocupação sempre presente. O medo de valores pessoais do médico influenciarem na abordagem são alguns dos motivos pelos quais ainda não abordamos esse tema na prática. Mas por meio do conhecimento de como abordar, algumas dessas barreiras podem ser vencidas. 

Como abordar a espiritualidade na consulta?

Hodiernamente, a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta amplamente usada e disseminada entre os profissionais da área da saúde.

Em seu segundo momento ao desenvolver a compreensão sobre a pessoa com um todo – tanto em seu contexto distante quanto em seu contexto próximo – a abordagem a religião (no contexto distante) e da religiosidade e da espiritualidade (no contexto próximo) se mostra como o perfeito enlace entre ambas as ferramentas.

Na verdade, a própria abordagem centrada na pessoa já prevê essa investigação clínica. Mas o que perguntar? Como realizar essa busca? Nesse contexto se inserem os questionários FICA e HOPE.

Imagem 1 – Método Clínico Centrado na Pessoa
Fonte: DOHMS & GUSSO (2020, p. 191)

Questionários FICA e HOPE

Entendemos que o próprio método clínico centrado na pessoa, já compreende a abordagem da espiritualidade.

Para abordar de forma sistemática e ampla e assim conseguirmos compreender e utilizar posteriormente esse espectro do paciente em nossa conduta e melhorar o prognóstico.

Foram criados alguns instrumentos norteadores para a coleta da história espiritual, sendo usados principalmente os questionários FICA e HOPE.

Quadro 1 – Questionários FICA e HOPE
Fonte: LUCCHETI (2010, p. 4)

Conclusão sobre a espiritualidade no consultório

Concluindo, com esse artigo espero ter conseguido demonstrar a importância da abordagem da espiritualidade pensando na condução do caso que temos em mão e no prognóstico do paciente que atendemos.

Devemos estar atentos à dimensão espiritual do paciente, seja ela positiva ou negativa, com vistas a atuar de forma benéfica no desfecho fazendo valer o princípio da beneficência. 

Concluo concordando com Marcela Dohms: “O conhecimento científico e prático do assunto pode evitar conflitos na relação médico-paciente, beneficiar os desfechos clínicos e facilitar o atendimento médico”. Espero que eu tenha contribuído para melhorar seu atendimento clínico e sua prática médica diária! Bons estudos, querido(a) leitor(a)! 

Autor: Claudio Afonso Caetano Pereira Peixoto

Instagram: @claudioafon

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências

DOHMS, Marcela; GUSSO, Gustavo. Comunicação Clínica: Aperfeiçoando os Encontros em Saúde. Artmed Editora, 2020.

HUME, David. História natural da religião. Unesp, 2005.

LUCCHETTI, Giancarlo et al. Espiritualidade na prática clínica: o que o clínico deve saber. Rev Bras Clin Med, v. 8, n. 2, p. 154-8, 2010.

STEWART, Moira et al. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. Artmed Editora, 2010.

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