InfectologiaInternato

Doenças Oportunistas Causadas pelo HIV

Alyce Garcia Meneses1 ; Janaína Leyner de Andrade Oliveira1 ; Nathália Carvalho França1 
 
1 Acadêmicas de Medicina do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH) e membros da Liga Acadêmica de Saúde Coletiva do UNIBH (LIASC-UNIBH)
 
Antecedentes Médicos
 
Paciente de 25 anos, masculino, solteiro, natural e procedente de Salvador-BA, deu entrada no dia 04/11/2016, às 14:20, na unidade de emergência do HMF, com queixa principal de tosse seca, que piorava a noite, associada a febre há 6 dias,de até 39 graus, que cedia com uso de 30-40 gotas de dipirona. Relata procedimento cirúrgico após um acidente automobilístico que contou com transfusão de sangue há cerca de 5 anos, sem deixar sequelas. Há dois meses desenvolveu lesões cutâneas causadas por herpes-zóster no membro inferior esquerdo, que após tratamento com o antiviral Aciclovir regrediram. Com a ocorrência desse episódio o paciente referiu ser sabidamente HIV positivo e negou estar fazendo uso da Terapia Anti-retroviral. Há 2 dias associou-se ao quadro atual um esforço respiratório e dispneia progressiva, com consequente fadiga. Em relação aos antecedentes mórbidos pessoais negou alergia, referiu sarampo na infância. O paciente nega etilismo, tabagismo e uso de drogas ilícitas.
 
Antecedentes Familiares
 
Mãe com histórico clínico de hipertensão arterial sistêmica, irmão portador de diabetes tipo 1. 
 
História Psicossocial 
 
Mora com a mãe, a avó materna e dois irmãos na zona urbana da cidade de Salvador-BA. Faz ingesta de todas as refeições básicas diárias, não possui nenhuma alergia medicamentosa assim como também não possui intolerância a nenhum componente alimentar. O paciente em questão relata não saber como contraiu HIV e que não tem conhecimento de nenhuma parceira anterior que possa ter transmitido a ele. 
 
Exame Físico
 
Ao exame físico, o paciente apresentou bom estado geral, consciente e em domínio de todas suas funções psíquicas e motoras. Febril, temperatura axilar 37,8ºC aferida no momento da consulta, nutrido, sem gânglios palpáveis. Na ausculta pulmonar observou-se murmúrio com presença de sibilos e roncos difusos. Ao RX de tórax observou-se infiltrado intersticial difuso e peri-hilar.(2,3)
PA: 118/84 mmHg.
FC: 83 bpm.
FR: 29 irpm.
Saturação de O2 em ar ambiente visto por oximetria: 90%.
Aparelho respiratório: Murmúrio vesicular positivo,sem ruídos adventícios.(3,5)
Aparelho cardiovascular:  bulhas rítmicas em 2 tempos  normofonéticas sem sopros.(3)
Trato gastrointestinal: abdome plano, flácido, ruídos hidroaéreos positivos, sem visceromegalias ou massas palpáveis.(3)
 
Exames iniciais do paciente
 
Hemograma: Hb 13,0g/dL; 4600 leucócitos com 19 % de linfócitos e 70% de neutrófilos, sem desvio; 141.000 plaquetas.(2)
DHL 680 UI/L (normal até 280).(2)
Contagem de linfócitos CD4: 146 células/mm³.(2)
Gasometria arterial: PH 7,44 PO2: 70 mmHg, PCO2: 22mmHg BIC: 26.
Bacterioscopia e pesquisa no escarro do Pneumocystis jiroveci: positivas .(2,3)
Tratamento
 
O paciente foi internado e medicado com sulfametoxazol + trimetroprima, com 15-20 mg de trimetoprima/kg/dia via oral de 6/6 horas por 21 dias. Indicado Dipirona 2ml de 6/6 horas se a temperatura corporal estiver acima de 37,5 graus.(5)
 
Para casos de intolerância à sulfa o regime alternativo é clindamicina 300 mg oral de 6/6 horas + primaquina 15-30 mg via oral uma vez ao dia por 26 dias.(1,4)
 
Medicado também com Zidovudina + Lamivudina (AZT + 3TC) 1 comprimido via oral combinado 12/12h e Efavirenz (EFZ) comprimido via oral 600mg 1x/dia(1,5) 
 
Discussão 
 
O exposto caso de pneumonia fúngica em portadores da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) é a doença oportunista mais comum em pacientes que se encontram imunodeprimidos, ocorrendo principalmente caso a contagem de linfócitos CD4+ esteja inferior a 200 células/mm³. Estudos mostram que 75% dos soropositivos desenvolvem em algum estágio da doença a pneumopatia.(1)
 
Os exames radiológicos e clínicos podem apresentar resultados comuns com outros quadros de infecções, sendo de grande importância o conhecimento por parte do clínico das características dessa pneumonia em específico e de uma anamnese completa sobre o histórico do paciente para identificar qualquer comportamento de risco que possa ter levado a contaminação pelo HIV.(1,4)
Pacientes que apresentam pneumopatia febril podem se enquadrar em diferentes diagnósticos, como pneumopatias causadas por micobactérias, toxoplasmose pulmonar e algumas neoplasias que muitas vezes se assemelham no exame radiológico.(1)
 
A infecção por P. jirovecii nos casos típicos apresentam nas radiografias um infiltrado intersticial, como apresentado no relatos deste caso. Formas incomuns da doença podem apresentar abscessos, cavitações, lesões císticas, pneumotórax, lesões nodulares, derrame pleural e até mesmo um raio-x de tórax normal.(1,4)
 
Na hipótese de um diagnóstico tardio, acoplado com uma evolução ruim do quadro e ausência de tratamento, a PCP pode ser fatal.(1)
Exames físicos e subsidiários, juntamente com uma correta anamnese e observação clínica foram de grande relevância para o correto diagnóstico e escolha da conduta mais adequada para tratamento do paciente.(1)
 
Conclusão
 
Um diagnóstico preciso e correto acoplado com a introdução imediata do tratamento foram fatores imprescindíveis e responsáveis pela melhora do quadro clínico do paciente, evoluindo positivamente durante o tratamento e internação.(1)
 
REFERÊNCIAS
 
  1. BARSOTTI, Vanessa; DA SILVA, Marcos Vinícius. Pneumocistose em paciente com sida. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba. ISSN eletrônico 1984-4840, [S.l.], v. 9, n. 4, p. 19-21, jan. 2008. ISSN 1984-4840. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/RFCMS/article/view/455>. Acesso em: 17 abr. 2017.
  2. BRITO, Ana Maria de; CASTILHO, Euclides Ayres de; SZWARCWALD, Célia Landmann. AIDS e infecção pelo HIV no Brasil: uma epidemia multifacetada. Rev. Soc. Bras. Med. Trop.,  Uberaba ,  v. 34, n. 2, p. 207-217,  Apr.  2001 .   Disponivel em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86822001000200010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:   18  Abril de 2017.
  3. COSTA, CH. Infecções respiratórias na AIDS. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto. v. 9 nº 2. Dez, 2010. Disponível em: <http://revista.hupe.uerj.br/detalhe_artigo.asp?id=161>. Acesso em: 17 de abril de 2017.
  4. DHALIA, Carmem; BARREIRA, Draurio; CASTILHO, EA de. A AIDS no Brasil: situação atual e tendências. Bol Epidemiol AIDS, v. 13, n. 1, p. 3-13, 2000. Acesso em: 18 de abril de 2017.
  5. IST, AIDS E HEPATITES VIRAIS. Tratamento das infecções oportunistas do HIV. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/pcdt/16>. Acesso em: 18 abr. 2017.
  6. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL. Caso clínico – prática em saúde do adulto e do idoso I – pneumonias. Disponível em: <http://www3.pucrs.br/pucrs/files/uni/poa/famed/curr3304/psai1casos.pdf>. Acesso em: 17 de abr. 2017. 

VEJA TAMBÉM

Ressonância Magnética de Gêmeos Conjugados?

Caso Clínico – Neoplasia Intraepitelial

Caso Clínico – Interpretação de ECG

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao topo
Fechar