Medicina e Tecnologia

Como serão as faculdades de medicina do futuro?

Como serão as faculdades de medicina do futuro?

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Caio Nunes

12 min há 422 dias

Como será a faculdade de medicina do futuro? Quando pensamos em qualquer exercício de prever o futuro a gente incorre numa alta chance de errar.

Ao imaginar como vai ser a faculdade de medicina do futuro é melhor pensarmos sobre um cenário de tendências do que prescrever exatamente as soluções mirabolantes.

Embora muita gente possa pensar que estaremos imersos em modelos de realidade virtual ou treinamentos em robôs com inteligência artificial…

Existem duas maneiras principais de antecipar o futuro:

  1.  As previsões mais confiáveis são baseadas no reconhecimento tendências atuais e projetando uma continuação dessas trajetórias.
  2. Partes de um futuro alternativo podem ser previstas por inventá-los, o que pode acontecer se tivermos vontade e entendimento necessário para alterar as trajetórias existentes ou criar novos.

Tabela 1. Reação dos grupos a novas ideias que valem a pena (Pode levar anos)1

Reação dos grupos a novas ideias que valem a pena - Sanar Medicina

É claro que, já gerenciando as expectativas deste artigo, não queremos adivinhar o futuro, mas capturar parte dos sinais atuais e ajudar a construir algo que seja mais coerente com que a sociedade precisa em termos de formação de médicos para o mundo. Ao ler tente estar com a mente aberta e não se afixar nas soluções que temos hoje, pois no exercício da futurologia tudo é possível e as barreiras não são limitantes.

A limitação nesse caso passa a ser a nossa forma de pensar. Somos imediatamente contaminados com a realidade atual. Novamente queria dizer que não tenho a menor pretensão de acertar… E se soar muito fora da caixa é porque o objetivo de refletir foi cumprido. Conseguimos fazer todos pensar.

Vamos fazer um exercício abstrato. Imagine que um viajante do passado saísse de 1920 para 2020. Certamente ele iria se maravilhar com algumas coisas como:

– “O que é esse aparelhinho retangular no qual pessoas ficam falando com fantasmas.”

– “Que incrível essa máquina de escrever com teclado levinho”

– “Como evoluiu o avião e o carro”

Nosso viajante iria ficar maravilhado com muitas coisas, mas certamente não iria achar que a faculdade de medicina e seu ensino evoluiu muito. Iria até gostar de uns bonecos e modelos tridimensionais, mas iria observar que o cadáver ainda está lá na mesa de inox e parte das aulas formais e enfadonhas também.

Sala de aula faculdade de medicina americana em 1900 - Sanar Medicina
Sala de aula faculdade de medicina americana em 1900
Sala de aula faculdade de medicina americana em 2020 - Sanar Medicina
Sala de aula faculdade de medicina americana em 2020
Laboratório de anatomia do Detroit Medical College em 1900 - Sanar Medicina
Laboratório de anatomia do Detroit Medical College em 1900
Laboratório de anatomia de uma universidade brasileira em 2020 - Sanar Medicina
Laboratório de anatomia de uma universidade brasileira em 2020

Para contra argumentar com o viajante do tempo a gente poderia falar para ele:

– Calma meu amigo, evoluímos no ensino sim… Olha esse projetor, buscamos artigos na internet e não na biblioteca… Olha os equipamentos que temos agora, olhe esses bonecos que falam e simulam diversos cenários…

 Até aceitamos que alguns desses argumentos tem relevância, contudo, o processo de ensino e aprendizagem dentro das faculdades de medicina quando comparados com a evolução do mundo exterior andou em passos de tartaruga.

Somos extremamente conservadores no ensino médico e elenco algumas razões aqui – não me limito a elas:

– Medicina lida com vidas e naturalmente somos mais conservadores com temas como erro.

– É uma profissão historicamente das elites. Desde tempos remotos os médicos tem uma relevância social e isso torna a natureza do oficio mais conservadora.

 – É um processo tradicional e pertencente a um grupo regulado e restrito o que torna a competição difícil e inovação idem.

Todo esse cenário cria um ambiente de resistência a inovação no ensino médico. A resistência à mudança tende a vir daqueles que estão rotineiramente desconfortáveis com qualquer desvio da zona de conforto, bem como daqueles que agora se beneficiam do status quo.

Quando falo de inovação nem necessariamente me refiro a incorporação de tecnologia de software ou hardware, mas de pensar fora da caixa modelos novos, ser mais permissivo com os objetivos e formas.

Sob essa ótica que vou listar algumas tendências abaixo e possíveis soluções ou caminhos que podem se desenhar num futuro e ajudar os objetivos e anseios sociais quanto a esse ofício / profissão:

  • Padrões de doenças, idéias sobre educação médica e tecnologias relevantes para a prática de educação médica estão evoluindo em um ritmo sem precedentes.
  •  Agora entendemos maneiras de acelerar as mudanças. E como nós mesmos e nossas instituições podemos ajudar médicos e a educação a se adaptar ao futuro que chega.
  • Como não podemos agora conhecer todas as mudanças que nossos estudantes atuais enfrentarão no futuro, precisamos ser o mais eficazes na sua preparação para serem aprendizes ao longo da vida abertos a modificar suas convicções e práticas.

 Adaptado de Hilliard Jason (2018): Future medical education: Preparing, priorities, Possibilities.

Comportamento da nova geração de alunos de medicina

Em um mundo digital, os alunos são bem diferentes das gerações passadas. Eles são aprendizes digitais hiperconectados através do Internet. A educação hoje compete com as redes sociais e com o entretenimento.

Sem pitadas de diversão e emoção não vamos conseguir a atenção dos alunos. O conteúdo deve ser mais “just in time…” e menos “just in case…” ou seja deve estar facilmente acessível e disponível caso o aluno precise.

Devemos ter cuidado com a sobrecarga de conhecimento que pode ser pouco útil para resolução de problemas reais. O desafio é ensinar o aluno a buscar, aprender e ter criticidade.

Reter conhecimento é cada vez menos relevante atualmente e num futuro onde as máquinas conseguirão entregar conteúdo assertivo de forma muito rápida.

As instituições tem que olhar o que é importante para o aluno no mesmo grau que a olha o que os professores acham importante. Existe um choque de gerações que precisa ser olhado rapidamente.

A nova sociedade

As demandas da sociedade também mudaram. O novo médico precisa estar muito aberto as demandas dos novos pacientes. Esses muito mais inteirados das suas condições e munidos de bastante informação.

Há um novo protagonismo do paciente em termos de decisão e demanda por informação qualificada. O papel do médico não necessariamente vai ser de uma autoridade sobre o leigo, mas de um facilitador do processo de auto cuidado dentro da cadeia de saúde.

Vejam algumas mudanças relevantes deste processo:

  • A crescente prevalência de doenças relacionadas ao estilo de vida
  • Compreensões crescentes dos fatores genéticos na saúde e doença.
  • Necessidade de revisar parte do nosso pensamento de categoria de doença
  • Compreensão da aprendizagem e as implicações para a educação
  • A crescente quantidade e qualidade do ensino pesquisa
  • Estudantes “nativos digitais” (muitos professores são ainda “imigrantes digitais”)
  • Paradigma do conteúdo sendo produzido em “Crowdsourcing” (colaborativo)
  • Estudantes que preferem organizações horizontais que hierárquicas

 Adaptado de: Han et al. BMC Medical Education (2019) 19:460

Descentralização da autoridade institucional

O eixo da autoridade técnica estava em grande parte na mão das instituições (hospitais, faculdades…) e hoje está mais democratizado. O melhor professor não é o mais titulado, mas aquele que faz o aluno aprender e se tornar um aprendiz de forma crítica.

Que consegue despertar o interesse pelo tema. Que consegue encapar a briga pela atenção do aluno. Que consegue entender a jornada do aprendiz do mundo digital. Os micro aprendizados serão medidos e chancelados no futuro.

Como será a Faculdade de Medicina do futuro

Considerando tudo acima como ficaria a faculdade de medicina do futuro?

O médico do futuro vai começar seus estudos em uma universidade aberta e digital.

De posse do seu login e senha vai ver as disciplinas disponíveis para começar e fazer testes de nivelamento que vão determinar trilhas ideais para começar de acordo com seu background de ciências, raciocínio lógico, habilidades de comunicação etc…

Um sistema irá montar toda sua jornada obrigatória básica e uma série de estágios, experiências opcionais que ele poderá cursar, sem prazo específico. Ele vai ser certificado em disciplinas ou matérias como um profissional que evolui na medida que aprende. 

Poderá fazer o currículo em seu tempo e da sua forma, adaptado a sua realidade. Pagará para obter algumas experiências (observar o melhor cirurgião do mundo de joelho), mas o acesso ao conteúdo será muito barato, uma vez que as aulas serão vistas por milhares de estudantes e médicos de todo o mundo pagando uma taxa pequena mensal. 

Existirá na plataforma formas de cadastro de entidades governamentais, hospitais, centros de saúde, comunidades rurais e filantrópicas que oferecem experiências de voluntariado e aprendizado com tutores cadastrados e validados. Ao ter estudado e treinado fisiologia da visão ele já estará apto nessa disciplina e abre-se a oportunidade dele ou dela fazer outra matéria (crédito) e assim por diante. 

Poderá discutir casos em ambientes virtuais com professores do mundo todo. A jornada será centrada no indivíduo e o ambiente digital permitirá prever se ele está apto ou não em determinada habilidade ou competência (ao ter acompanhado 60 partos normais e cursado todo arcabouço teórico ele estará apto nessa modalidade). 

Serão contabilizadas suas “horas de vôo”em cada procedimento, como se fosse um internato descentralizado. Será possível acompanhar um centro de malária na África ou mesmo participar do combate a dengue no Brasil. 

Poderá ser feito intercâmbios em hospitais de oncologia, trauma, treinamentos em genética em centros avançados, tudo isso através de agendamentos no sistema. Os lugares mais disputados podem selecionar os estudantes da plataforma de acordo com seus perfis e habilidades prévias, porém as possibilidades serão praticamente infinitas. 

Aprender procedimentos ao redor do globo ou em seu próprio local com indivíduos que possam ensinar que irão certificar em “apto” ou “inapto” em determinada habilidade ou competência. 

Os instrutores serão certificados por uma autoridade mundial, uma espécie de “conselho mundial de medicina e saúde” que regula o setor e adequa os escopos da formação e seus padrões, além de ajudar a corrigir as anomalias (assim como é na aviação por exemplo). 

Os países colocaram suas especificidades para o médico atuar em cada região: para atuar na Amazônia, conhecimentos em medicina tropical nível IV serão exigidos. As melhores práticas serão determinadas pelos melhores do mundo no tema em comitês de experts, assim como é para o ACLS ou ATLS

As aulas teóricas serão dadas pelas maiores referências no tema e também por aqueles que tem dos alunos o maior engajamento em seus temas ou pela forma incrível de ensinar. Os tutores poderão vender horas do seu tempo para alunos que queiram praticar ou aprender com eles em determinado ponto. 

Os critérios para ser médico serão relativizados. Você poderá se tornar um especialista em 5 anos desde que cumpra todos os critérios, mas seu escopo seria limitado as habilidades que você provou estar apto após todo o rigor do sistema de pontuação. 

A carteira de médico seria universal e para mantê-la deve-se estar num processo de educação continuada revalidando-a anualmente por um critério de pontos definido pela comunidade médica internacional. Ficar 3 anos sem praticar um procedimento pode te descredenciar para fazê-lo. 

Os pacientes terão acesso ao currículo digital do médico onde mostra em que exatamente ele é apto ou não. Os pares ajudam a avaliar o colega em suas habilidades que vão muito além da parte técnica. Os próprios pacientes avaliam algumas das habilidades do indivíduo, por exemplo, comunicação e empatia. 

Grande parte das tecnologias para suportar um modelo desse temos hoje:

  • Blockchain para validar as horas de aprendizados e procedimentos. Garantia do currículo virtual.
  • Ambientes 3D de simulações realísticas.
  • Conexões de alta velocidade para acompanhar cirurgias ao vivo em todo o mundo.
  • Plataformas de mensuração de habilidades e competências em modelos peer-to-peer
  • Dados suportando toda jornada de ensino adaptativo para comportamentos diferentes e para chancelar aprendizados em modelos estatísticos.

Conclusão sobre a Faculdade de Medicina do Futuro

Isso são apenas exemplos tangíveis, fora todo o universo desconhecido que vem pela frente.

Ao final teremos médicos mais conectados com o que a sociedade precisa, formaremos de uma forma mais barata e inteligente, resguardando os aspectos de segurança necessários ao exercício da profissão.

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