Anatomia de órgãos e sistemas

Nervo trigêmeo: da anatomia aos cuidados clínicos | Colunistas

Nervo trigêmeo: da anatomia aos cuidados clínicos | Colunistas

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Mateus Polo

8 minhá 14 dias

Com grande importância clínica, tanto para a medicina como para a odontologia, o nervo trigêmeo (par craniano V) é o maior dentre os nervos cranianos. Ao decorrer do texto, examinaremos o curso anatômico do nervo e suas funções motoras, sensoriais e parassimpáticas de seus ramos terminais. Trataremos também de uma patologia extremamente recorrente relacionada a esse nervo, vide a importância que o trigêmeo possui para o bom funcionamento do organismo.

O que são os pares cranianos?

Os nervos cranianos fornecem inervação aferente e eferente (sensorial, motora e autonômica) às estruturas da cabeça, pescoço e alguns sistemas biológicos. Ao contrário dos nervos espinhais, cujas raízes são fibras nervosas de substância cinzenta espinhal, os nervos cranianos são compostos de processos neurais associados a núcleos distintos do tronco cerebral e estruturas corticais. Enquanto a substância cinzenta espinhal é organizada em um corno sensorial posterior, um cinza intermediário autônomo e interneurônio e um corno motor anterior, os núcleos dos pares cranianos são funcionalmente organizados em núcleos distintos dentro do tronco cerebral. 

            Normalmente, os núcleos mais posteriores e laterais tendem a ser sensoriais e os mais anteriores tendem a ser motores. A divisões funcionais dos pares cranianos são:

  • Os nervos cranianos I (olfatório), II (óptico) e VIII (vestibulococlear) são considerados puramente aferentes;
  • Os nervos cranianos III (oculomotor), IV (troclear), VI (abducente), XI (acessório espinhal) e XII (hipoglosso) são puramente eferentes;
  • Os demais nervos cranianos, V (trigêmeo), VII (facial), IX (glossofaríngeo) e X (vago), são funcionalmente misturados (sensorial e motor).

Localização anatômica e principais ramos

Um núcleo é uma coleção de corpos celulares de neurônios dentro do sistema nervoso central, atuando como um hub de sinapses de um subsistema. O nervo trigêmeo origina-se de três núcleos sensoriais (mesencefálico, núcleo sensorial principal, núcleos espinhais do nervo trigêmeo) e um núcleo motor (núcleo motor do nervo trigêmeo) que se estende do mesencéfalo à medula. 

Ao nível da ponte, os núcleos sensoriais se fundem para formar uma raiz sensorial. O núcleo motor continua a formar uma raiz motora. Essas raízes são análogas às raízes dorsais e ventrais da medula espinhal.

Na fossa craniana média, a raiz sensorial se expande no gânglio trigêmeo. Um gânglio refere-se a uma coleção de corpos celulares de neurônios fora do sistema nervoso central. O gânglio trigêmeo está localizado lateralmente ao seio cavernoso, em uma depressão do osso temporal. Essa depressão é conhecida como caverna trigeminal. O aspecto periférico do gânglio trigeminal dá origem a 3 divisões: oftálmica (V1), maxilar (V2) e mandibular (V3).

Imagem 1. Ramos do Nervo trigêmeo

A raiz motora passa inferiormente à raiz sensorial, ao longo do chão da caverna trigeminal. Suas fibras são distribuídas apenas para a divisão mandibular.

O nervo oftálmico e o nervo maxilar seguem lateralmente ao seio cavernoso, saindo do crânio através da fissura orbitaria superior e do forame redondo, respectivamente. O nervo mandibular sai pelo forame oval entrando na fossa infra-temporal. Como a fibra nervosa é constituída por seus ramos aferente e eferentes, os nervos que saem da cavidade craniana também possuem componentes sensoriais que seguem a trajetória contrária, uma vez que suas fibras são constituídas por vias tanto motoras como sensitivas.

Funções do nervo trigêmeo

As três divisões anatômicas do trigêmeo citadas anteriormente (oftálmica, maxilar e mandibular) são responsáveis pela inervação de estruturas faciais, apresentando funções específicas para cada ramo presente na face.

O primeiro ramo do nervo trigêmeo, o oftálmico (V1), é responsável pela inervação sensitiva das estruturas oftálmicas, fronte superior da face e nariz. Em associação com ramos terminais do nervo oftálmico, o nervo maxilar (V2) é o responsável por inervar a cartilagem nasal. Ademais, é fundamental para a inervação da região inferior aos olhos e da maxila, emitindo um importante ramo para a arcada dental: o nervo alveolar superior. O terceiro e último ramo do trigêmeo é o ramo mandibular (V3), responsável por toda a inervação sensitiva do terço inferior da face, mandíbula e assoalho da cavidade oral. Possui também fundamental importância para o processo de mastigação e deglutição, uma vez que inervação músculos como o masseter, pterigoide e tensor do véu palatino. Por fim, o nervo trigêmeo possui importante função parassimpática, contribuindo para a inervação das glândulas parotídea, sublingual e submandibular.

Neuralgia do trigêmeo 

A neuralgia do trigêmeo (NT) é uma doença crônica dolorosa que envolve o nervo trigêmeo. É possível que a neuralgia trigeminal ocorra em qualquer (ou todos) os ramos do quinto par craniano, em qualquer um dos lados da face. A NT causa dor intensa em parte ou em toda a face, e a dor pode ser causada por uma estimulação leve do rosto, como escovar os dentes ou fazer a barba. Muitas vezes é descrito como uma sensação de choque elétrico ou facada. Pessoas com a doença podem inicialmente ter episódios curtos e leves de dor, mas com o tempo podem ter crises mais longas e frequentes de dor intensa. A maioria das pessoas com NT apresenta sintomas em ciclos – a dor vem e vai por dias ou semanas, depois diminui. Em alguns casos, a condição se torna progressiva e a dor está sempre presente.

Embora trate-se de uma patologia que já foi amplamente relatada e discutida na literatura, ainda são incertos os causadores da neuralgia do nervo trigêmeo. Por ser prevalente em populações mais idosas, teoriza-se que ela esteja relacionada a um processo progressivo de desmielinização da bainha dos neurônios aferentes. Com a redução da densidade da bainha de mielina por meio de um processo neurodegenerativo, passa a ocorrer uma hiperexcitabilidade do corpo do neurônio, provocando descargas elétricas, mesmo a partir dos menores estímulos. Outras condições, como tumores, compressões vasculares e doenças neurodegenerativas, também possuem íntima relação com a neuralgia trigeminal.

Os medicamentos típicos para dor não funcionam com a mesma eficácia para o tratamento da neuralgia do trigêmeo, entretanto, existe uma ampla gama de fármacos aos quais os pacientes podem se beneficiar. Medicações anticonvulsivantes, como carbamazepina, oxcarbazepina, gabapentina e fenitoína podem ser utilizadas, proporcionando uma substancial melhora na qualidade de vida dos pacientes.

Ademais, também é possível o uso de antidepressivo tricíclico, como a amitriptilina, para controlar os sintomas, vide a capacidade de neuromodulação que esses fármacos possuem sobre o trato espinotalâmico.

Caso esgotem-se as alternativas para o tratamento conservador e a dor continue intensa, é possível realizar uma cirurgia. Se a origem da dor for uma artéria situada numa posição anômala, o cirurgião poderá realizar um procedimento de descompressão vascular, podendo aliviar a dor por muitos anos. Se a causa for um tumor, este pode ser extraído cirurgicamente.

Algumas pesquisas também sugerem que as injeções de botox podem ser úteis quando outro medicamento não alivia a dor da neuralgia do trigêmeo. Entretanto, mais pesquisas são necessárias para determinar se essa forma terapêutica realmente é eficaz.

Conclusão

O nervo trigêmeo é um par craniano com uma vasta e ampla gama de funções na face humana. Por apresentar inúmeros ramos e uma condição extremamente dolorosa a ele associada, é de fundamental importância que o profissional, seja ele médico ou dentista, tenha o domínio tanto de sua clínica como de sua anatomia.

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Referências bibliográficas

· Blumenfeld, H. Neuroanatomy Through Clinical Cases. Sinauer Associates, 2002.

· Brodal, A. Neurological Anatomy in Relation to Clinical Medicine, 3rd ed. Oxford University Press, 1981.

· Brodal, P. The Central Nervous System. Oxford University Press, 2004.

· Douglas, Graham, and John Macleod. Macleod’s Clinical Examination. 13th ed., Edinburgh, 2009.

· Netter, Frank H. Atlas Of Human Anatomy. 6th ed., Philadelphia, Saunders/Elsevier, 2014.

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