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Psicóloga analisa os impactos da pandemia nas relações afetivas

Psicóloga analisa os impactos da pandemia nas relações afetivas

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Sanar

9 min há 23 dias

Os impactos da pandemia da Covid-19 nas relações afetivas já é um fato. Há várias pesquisas que comprovam o quanto tem sido mais desafiador se relacionar. Isso vale principalmente para os casais que moram juntos.

De acordo com uma pesquisa do Colégio Notarial do Brasil, Brasília bateu o recorde em número de divórcios. Em 2020, foram 1.833 separações. Esse número ultrapassa o recorde da capital federal, que foi de 1.755 no ano de 2012. 

A situação se estende pelo país. Segundo dados do Google Trends, as buscas na internet relacionadas a “divórcio” também aumentaram. A procura por “como dar entrada no divórcio” cresceu 127% em maio do ano passado, comparadas ao mês anterior. 

Os especialistas estão atribuindo os números ao fato de ter que lidar com a hiperconvivência. O home office e as medidas para promover o isolamento social foi um verdadeiro convite para conhecer o outro 24 horas por dia, initerruptamente.

Sem distrações, sem desculpas, a pandemia nos fez ficar de cara com a realidade. A gente precisou encarar diariamente o que gostamos no outro e o que “odiamos”. Para entender mais sobre esse momento, a Sanar conversou com a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa. Separamos os pontos principais da conversa em tópicos. Confira:

Quais foram os impactos da pandemia nas relações?

De acordo com a psicóloga Ana Canosa, a pandemia colocou uma lupa nos relacionamentos. E também na maneira como estamos vivendo. 

“A pandemia impactou bastante os relacionamentos, porque o ambiente externo influencia a nossa existência. Impacta na forma como canalizamos nossas energias, na nossa autoestima, na produtividade e até na criatividade”, explica. 

Ana Canosa conta que algumas pessoas acabaram sendo mais prejudicadas do que outras com esse distanciamento. 

“Tem pessoas que precisam mais do espaço público do que outras para se motivarem. Aquela coisa do se arrumar para ir trabalhar, para sair e as trocas de olhares. Para essas pessoas, lidar com a falta de contato físico foi pior. Elas tiveram um maior impacto na sua libido de uma forma geral. E, em caso de pessoas comprometidas, isso precisou ser dialogado entre o casal. E nem todos os casais conseguem falar de sexualidade de uma maneira tranquila”, avalia. 

Desafios para os comprometidos e para os solteiros 

Para a psicóloga, o isolamento reforçou o exercício de entender o outro. Perceber o que o outro precisa para se motiva, para se sentir vivo e até mesmo analisar o como anda a relação. 

“As reflexões provocadas no relacionamento com a pandemia passaram por vários campos. Sexualidade,  questões políticas, da casa e dos filhos. O isolamento nos fez entender o quanto a parceria nos favorece e/ou nos fazem crescer. O quanto o outro nos desperta o melhor”. 

A psicóloga avalia que os solteiros também sofreram com os impactos da pandemia nas relações. Ou melhor, na ausência delas da forma como estamos acostumados. Os solteiros foram os que mais sentiram falta do contato físico. E para eles o desafio foi de se autoconhecer.

“Os solteiros tiveram que encontrar no autoerotismo a sua satisfação. Muitas mulheres usaram o vibrador pela primeira vez na pandemia. Além disso, a ferramenta do digital passou a ser ainda mais usada. Essa coisa de treinar fazer sexo virtual. Mandar mensagem sensual, mandar nude”. 

Como melhorar a convivência a dois e evitar o “estou empurrando com a barriga”? 

O primeiro passo é entender que a conjugalidade é algo muito complexo. “Não estamos no relacionamento só por amor ou só por sexo. Também estamos nos relacionamentos pelas conveniências de estarem juntos. Dinheiro, casa, filhos, família, amigos em comum, o ajudar em casa. E até pelo fato de um completar o outro emocioanalmente”, explica Ana Canosa. 

Entendendo a complexidade da conjugalidade, a pessoa precisa fazer uma avaliação da relação e do outro. “Observar os aspectos positivos e negativos do outro, principalmente os negativos. Aqueles pontos que mais incomodam na relação”, acrescenta. 

Depois, a psicóloga conta que é momento de se questionar o por que de ter entrado e permanecido na relação. Vale fazer as seguintes perguntas:

  • Eu preciso mesmo disso?
  • Independente da dificuldade de comunicação e/ou divergências de opinião. Essa pessoa tem outros atributos que ela me enriquece? 
  • Quais são os valores dessa pessoa? São parecidos com os meus? 

“Essa avaliação é um exercício individual para você conhecer os seus próprios limites”, conta a psicóloga.

“Eu sempre acho que é possível conviver com pessoas com opiniões diferentes. Desde que os valores sobre a convivência, sobre a vida e sobre o projeto de vida a dois sejam comuns. Os valores precisam ser assemelhados”, acrescente.  

A especialista também alerta que o problema é o grau do quanto essas divergências incomodam. “A divergência invade um valor moral extremamente importante para você? Se sim, aí é difícil de conviver, de continuar”. 

Caso sua avaliação seja positiva, não tem problema discordar do outro. “Aceitar a divergência é um exercício de comunicação de paz. E isso é fundamental. Precisamos aprender a fazer esse exercício de poder ouvir o outro, de ser curioso sobre o que o outro pensa de fato e não já ir para discussão. Não precisa ter sempre um certo e um errado”. 

Pandemia e a relação com as redes sociais 

Para Ana Canosa, a pandemia da Covid-19 também veio como um momento para sermos mais questionadores. Isso vale principalmente para a situação de cobrança pelo corpo perfeito. 

“A pandemia foi um momento muito rico para as pessoas estarem em contato com o seu próprio movimento. De entender o seu próprio corpo, o jeito que gosta de ficar sem ter que se preocupar tanto em performar uma feminilidade e/ou masculinidade para fora”, avalia. 

Ao ser questionada de como podemos nos blindar da toxicidade das redes sociais, a especialista diz que tem uma boa dica. “Busque entender o quanto gasta sua energia. Avalie se traz mais prejuízo ou prazer. E comece a filtrar o que você consome”, ensina.  

“Tem muitos perfis interessantes de pessoas que não se encaixam em padrões. Então, se você quer se blindar de pressões para alcançar a perfeição, se afaste de perfis que pregam isso. Vá atrás de quem desconstrói isso”, completa. 

Individualidade: como viver na prática a autoestima

Ana Canosa conta que ter autoestima e amor próprio para valer é uma tarefa difícil. Para ela, o ciclo da vida influencia muito nesse processo. 

“Eu sempre digo que somos viciados no olhar do outro. E isso tem a ver com a própria existência humana, porque nós somos alguém a partir do outro. É o outro que nos dá referência de quem somos. Para desconstruir isso leva tempo. Se fortalecer como pessoa e aprender a se amar é um caminho árduo e longo. É um caminho de crescimento processual”, analisa. 

Com relação a como contribuir nesse processo, a psicóloga pontua que tem um conjunto de coisas. 

“Ter autoestima e alcançar o bem-estar vai muito além de se olhar no espelho e se elogiar. É você perceber as suas habilidades, aptidões e o se sentir confortável. É entender aquilo que você faz de bom e o que tem mais dificuldade para se fortalecer nisso”. 

SANARCON 2021 

A psicóloga Ana Canosa é uma das atrações do maior congresso médico online do Brasil. O Sanarcon 2021 acontece no dia 18 de setembro, das 9h às 18h. Para participar, os interessados devem acessar o site oficial (sanarcon.sanarmed.com) e se inscrever gratuitamente. 

No Sanarcon, a especialista vai falar sobre sexualidade e relacionamentos em tempos de pandemia.  

“Vou falar um pouco sobre o desafio que é encontrar um jeito de funcionar bem nas relações. Seja solteiro ou comprometido, abordarei como podemos encontrar um lugar de pertencimento. E de acomodar o nosso desejo diante das demandas que temos diariamente. Também falarei de tudo que a pandemia nos trouxe de reflexão. 

Além de Ana Canosa, o congresso terá a participação de Natalia Pasternak, José Alencar, Monja Coen, Mariana Varella e muito mais. 

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